Ricardo Moraes/Reuters
Ricardo Moraes/Reuters

Venda de negócio de carvão fará Vale reduzir perdas e avançar na agenda ambiental, dizem analistas

A mineradora anunciou que vai assumir a fatia da sócia japonesas Mitsui em mina em Moçambique, para vendê-la em seguida; produção no local está abaixo da capacidade e vendas caíram desde o início da pandemia

Wagner Gomes, Mariana Durão e Felipe Laurence, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2021 | 12h12

A Vale deu o primeiro passo para deixar um negócio que a tem feito perder dinheiro. A mineradora anunciou um acordo com a Mitsui para assumir a fatia da sócia na mina de carvão de Moatize e no Corredor Logístico de Nacala (CLN) e pretende colocá-los à venda em seguida. Com isso, deve estancar as perdas com o negócio e dá uma importante sinalização em sua agenda ESG (sigla em inglês para aspectos ambientais, sociais e de governança) e na meta de se tornar "carbono neutro" até 2050.

Hoje, a Mitsui possui 15% da mina de Moatize e 50% de participação mais créditos minoritários no CLN, ambos em Moçambique. Pelo acordo fechado com a Vale, a empresa japonesa repassará as participações à brasileira pelo valor de US$ 1. A Vale assumirá esses ativos mas também os passivos, o que inclui US$ 2,5 bilhões ainda remanescentes do financiamento do CLN. Isso deve levar a despesas financeiras que não estavam previstas.

Ainda assim, analistas de mercado consideram que o movimento é positivo e não deve afetar o pagamento de dividendos pela empresa. Segundo eles, a incursão da Vale no carvão em Moçambique foi um grande erro. A produção, que está abaixo da capacidade, e as vendas, que já vinham em queda, tombaram com o início da pandemia da covid-19.

"Reconhecemos que a incursão no carvão em Moatize foi um grande erro, com a empresa aportando bilhões de dólares (no negócio) e diluindo o retorno. No entanto, nos agrada ver a Vale dar o primeiro passo para desinvestir de seu negócio de carvão", avalia o BTG.

A equipe do banco considera a mina "problemática" e acredita que a venda está alinhada à estratégia da Vale de se tornar uma referência em ESG no longo prazo. Os analistas Leonardo Correa e Caio Greiner avaliam que os custos remanescentes no financiamento do CLN, que serão consolidados pela Vale como despesas operacionais, não afetam a previsão de que a empresa vai retornar a seus investidores a robusta geração de caixa que tem apresentado.

O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) do negócio de carvão também deve ser afetado, mas o BTG acredita que ainda há uma boa chance de a Vale antecipar o pagamento da dívida, reduzindo esses custos. Os analistas lembram que a mineradora começou a realizar melhorias em Moatize em novembro passado e espera atingir uma produção de 15 milhões de toneladas por ano (Mtpa) no segundo semestre e 18 Mtpa em 2022, o que deve ajudar o ativo a chegar ao equilíbrio financeiro no próximo ano.

Os analistas Caio Ribeiro, Gabriel Galvão e Gabriel Spillmann, do Credit Suisse, acreditam que o valor de R$ 2,5 bilhões referente aos financiamentos deve elevar a dívida líquida da empresa. Mas eles afirmam que o impacto é temporário, uma vez que a aquisição da participação da Mitsui vai facilitar um desinvestimento futuro, e não afeta o provável pagamento de dividendos deste ano.

"Continuamos a ver com bons olhos a saída da Vale do carvão, uma vez que o segmento frequentemente gera Ebitda negativo (-US$ 256 milhões por ano, na média, entre 2014 e 2019). Além disso, a Vale estima gastos com carvão em US$ 640 milhões em 2021 e US$ 200 milhões em 2022. Então, os desinvestimentos fecham um importante gargalo", diz relatório do banco suíço.

Modelo da Petrobrás

Renan Sujii, estrategista-chefe de Mercado da Harrison Investimentos, diz que a Vale montou uma estratégia muito parecida com a Petrobrás. Ele explica que, assim como a estatal de petróleo, que se desfaz de unidades que não estão ligadas à produção de pré-sal, seu principal ativo, a mineradora sai de áreas de pouca rentabilidade.

"Podemos fazer um paralelo com a Petrobrás, que desinveste em segmentos que estão fora do negócio principal da empresa. Será um ganho na agenda ESG, mas não é apenas isso. Esse acordo permite que a Vale saia do negócio de carvão o quanto antes para concentrar esforços onde ela é especialista", diz Sujii.

Ele destaca justamente o duplo ganho - ambiental e financeiro - que a mineradora pode ter. "Claro, o primeiro ponto é a agenda ESG em relação à sustentabilidade e a adoção de uma medida que a companhia coloca para se tornar carbono neutro até 2050. Mas a própria empresa afirma que a transação é também um primeiro passo para o desinvestimento nesse segmento de carvão. Com isso, vai conseguir se monetizar e trazer um resultado financeiro favorável."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.