Estoques da indústria refletem desaceleração e voltam a crescer

Acúmulo de produtos foi considerado pelo Copom na decisão sobre alta de juros, mas outros indicadores apontam na direção contrária 

Cleide Silva, Márcia De Chiara e Renée Pereira, de O Estado de S. Paulo,

22 de julho de 2010 | 23h00

A economia brasileira exibe hoje sinais contraditórios. A indústria de eletrodomésticos e automóveis começa a acumular estoques. Nas montadoras, o volume de carros nos pátios é o maior dos últimos anos e já supera até o de dezembro de 2008, o auge da crise.

Sondagem da Fundação Getúlio Vargas (FGV) mostra que, em junho, pela primeira vez desde o início de 2009, as indústrias de veículos e de eletrodomésticos, setores que foram beneficiados pelo corte do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI)voltaram a acumular estoques indesejáveis em junho. No mês passado, 4% das empresas de materiais de transporte estavam nessa condição e 2% das indústria de linha branca, diz a pesquisa.

Essas e outras evidências deram respaldo para que o Banco Central (BC)reduzisse o ritmo de alta da taxa básica de juros (Selic) por considerar que a atividade econômica está em desaceleração.

Em outros setores, no entanto, o que se vê é exatamente o posto: em alguns casos existe escassez de produtos e de mão de obra. Na construção civil, por exemplo, empresas importam cimento para atender o ritmo acelerado das edificações. As companhias de transporte rodoviário, por sua vez, têm dificuldade de por toda frota para rodar por falta de pneus. Também voltou a ter fila de espera para compra de caminhões zero quilômetro. Nos portos, o aumento das importações e o embarque maior de açúcar provoca congestionamento no cais.

Dados divulgados na quinta-feira sobre o emprego e renda confirmam que existe combustível para sustentação da demanda nos próximos meses. A taxa de desemprego de 7% alcançada em junho foi o menor nível para o mês desde o início da série histórica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), iniciada em 2002. A massa de rendimento reais dos trabalhadores cresceu em junho 0,5% ante maio e 6,7%na comparação com o mesmo mês de 2009.

"Houve um freio de acomodação na economia brasileira no segundo trimestre", afirma o economista chefe da MB Associados, Sergio Vale. Essa redução de ritmo está espelhada no Índice de Atividade Econômica (IBC-Br), calculado pelo BC, que registrou estabilidade entre abril e maio.

Na análise de Vale, essa acomodação da atividade era previsível por causa da retirada dos incentivos fiscais para compra de carros e eletrodomésticos, o menor número de dias trabalhados em junho em razão dos jogos da Copa do Mundo e o fato de o primeiro trimestre ter sido muito intenso, o que fez arrefecer a atividade no segundo trimestre.

Ele acredita que a economia voltará a se acelerar no terceiro trimestre, porém num ritmo inferior ao do primeiro trimestre. Vale projeta crescimento de 7% para o Produto Interno Bruto (PIB)no terceiro trimestre em relação a igual período de 2009 e alta de 1% na comparação com o segundo trimestre. Por isso, ele considera precipitada a decisão do BC de reduzir o ritmo do aperto monetário para 0,50 ponto porcentual. "A decisão não foi boa."

Juan Jensen, sócio da Tendências Consultoria Integrada, faz uma análise semelhante à de Vale. "A desaceleração é pontual." Um dos fatores que o economista considera importante para a manutenção do crescimento é o forte aumento do emprego com carteira assinada. "Isso vai permitir a entrada de novos consumidores ao mercado de crédito nos próximos meses."

Na opinião de Júlio Gomes de Almeida, consultor do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), a desaceleração não é tão forte como se imagina. "A economia cresce em ritmo menor, mas cresce." Além disso, ele observa que os incentivos dados pelo governo para atenuar os efeitos da crise não são tão rapidamente desarticulados.

"A economia doméstica continua bombando", afirma o economista chefe da Sul América, Newton Rosa, que alerta para os riscos inflacionários para o segundo semestre. Entre julho e dezembro, corre o período de entressafra de vários produtos agrícolas e a contribuição agora favorável dos alimentos para a inflação poderá ser revertida.

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