A expansão da economia mundial segue seu curso

Em seu conjunto, a expansão da economia mundial segue seu curso e tudo indica que 2006 será o terceiro ano consecutivo de crescimento do PIB mundial acima do potencial (estimado em 3,5-3,75%). Desequilíbrios e vulnerabilidades seguem presentes, mas pelo menos com relação aos desafios puramente econômicos, a probabilidade de uma correção abrupta que possa afetar o crescimento mundial parece bastante pequena.A economia mundial registrou crescimento de aproximadamente 4,5% em 2005. Foi um resultado um pouco superior ao esperado no final do ano (+4,2%), mas abaixo do excepcional resultado de 2004 (4,9%). As inesperadas recuperações da atividade econômica no Japão, Europa e em alguns países emergentes da Ásia explicam a surpresa. O fato é que apesar dos EUA e China ainda serem as principais locomotivas de crescimento, a economia global conta com uma base cada vez mais ampla.A perspectiva para 2006 aponta para crescimento semelhante ao do ano passado (4,5%). Por região, nosso cenário é: As economias desenvolvidas devem experimentar crescimento médio de 2,8%, um pouco acima do crescimento observado em 2005 (+2,6%). A leve desaceleração esperada para a economia americana (+3,4%, ante +3,5% em 2005) será mais do que compensada pela melhora esperada para a Zona do Euro (+2,1%, ante +1,4% em 2005) e o Reino Unido (2,1% x 1.4% em 2005), e a estabilidade do crescimento no Japão (2,8%). No mundo emergente, esperamos crescimento um pouco inferior ao registrado no ano passado (6,8% x 7,1%), com desaceleração tanto na Ásia (7,8% x 8,2%) quanto na América Latina (4.3% x 4.2%) e estabilidade do crescimento na Europa Oriental (5,2%). As principais hipóteses para este cenário são: Preço do barril de petróleo um pouco acima de US$ 60, em linha com o projetado pelo mercado futuro. Relativa estabilidade dos preços de commodities não-energéticas. Relativa estabilidade no mercado financeiro: O déficit externo americano continuará sendo financiado sem grandes solavancos. Portanto, as políticas de acumulo de reservas internacionais por Bancos Centrais Asiáticos e do Oriente Médio permanecem inalteradas. Conjuntura doméstica americana também permanece relativamente estável, mantendo inalterados os fluxos de recursos privados; Assim, projetamos uma gradual e ordenada depreciação do dólar, com a moeda americana encerrando o ano a US$/? 1,30. As bolsas registraram ganhos expressivos desde o início do ano e, na média, se encontram em patamares consistentes com as valuations das ações. Assim, em nossa projeção de crescimento, pressupomos a estabilidade os principais índices de bolsa. Os spreads em ativos privados de renda fixa estão nos menores níveis da história. O gradual aperto das condições monetárias deve levar a abertura destes prêmios. Mas ao longo dos últimos anos, a maioria das empresas privadas tem adotado políticas financeiras prudentes. Assim, a elevação dos spreads deve ser moderada. O comércio mundial e os fluxos de capital devem continuar crescendo em ritmo acelerado, em linha com o esperado pelos organismos internacionais (FMI, IIF).O viés expansionista da política monetária dos principais países continuará sendo removido de forma gradual, como forma de ajuste a um estágio mais avançado do ciclo. Como as expectativas de inflação seguem bem comportadas, acreditamos que as políticas monetárias não põem em risco a expansão da economia mundial.Os riscos para o cenário:Num cenário tão positivo para a economia mundial, não é exatamente surpreendente que o balanço de riscos aponte para o lado negativo. Os desequilíbrios e vulnerabilidades que tanto têm sido discutidos não só não se corrigiram, mas têm se deteriorado.Os desequilíbrios em balanço de pagamentos têm aumentado. Eventualmente, isso poderia levar à queda mais acentuada do dólar, aumento do juros e desaceleração do crescimento. No curto prazo, não há motivos para acreditar que tal desfecho se concretizará. No entanto, a estabilidade do mercado de câmbio internacional poder levar a um sentimento de complacência e indiferença com relação aos desequilíbrios macroeconômicos, o que por sua vez, aumenta o risco de uma correção abrupta. Os preços dos imóveis podem passar por uma correção, o que pesaria sobre a demanda doméstica. A economia americana parece ser a mais vulnerável a este tipo de processo. Portanto, tal processo teria implicações para o crescimento global.A melhora das condições de demanda doméstica na Ásia e em alguns países europeus e latino-americanos ainda não parece ser suficiente para compensar uma queda do crescimento dos EUA. Felizmente, ao contrario do que ocorre com o déficit externo, o mercado imobiliário americano está numa suave inflexão, aumentando a probabilidade de um "soft landing". O petróleo segue sujeito à instabilidades no Irã, Iraque e Nigéria. Trata-se de uma ameaça não desprezível, considerando a pouca capacidade ociosa deste mercado. Até o momento, a alta do preço do petróleo teve impacto reduzido sobre a economia mundial. Em parte, isto decorre do efeito-riqueza resultante da valorização de outros ativos (ações, imóveis, etc), que tem permitido uma redução da poupança e a manutenção do consumo em patamar inalterado.Assim, o impacto sobre a economia de aumentos adicionais do preço do petróleo poderá ser maior do que o observado no passado recente. A margem de manobra para políticas econômicas anti-cíclas é limitado: A política fiscal é limitada pelo fato que EUA, Japão e a Zona do Euro e mesmo vários países emergentes têm gerado déficits fiscais. Os bancos centrais seguem preocupados com o risco de uma piora das expectativas de inflação. O discurso das autoridades mundiais é claramente altista em juros. É improvável que esta postura mude de forma expressiva no curto prazo. Nos EUA, o elevado endividamento das famílias, a taxa de poupança reduzida e o menor espaço para a valorização adicional do preço dos ativos sugere que o consumo financiado por crédito dificilmente poderá compensar um choque sobre o crescimento.Na Zona do Euro e no Japão, as famílias não estão alavancadas, mas a confiança do consumidor tende a se deteriorar rapidamente em resposta a uma piora na conjuntura. Os ajustes feitos no uso de mão de obra pelas empresas, o crescimento reduzido do salário real nos últimos anos e as perdas de bem-estar ainda estão presentes na memória nestes países.Em 2006, pela primeira vez em muitos anos, teremos o aperto monetário simultâneo nos EUA, Zona do Euro e Japão. Ainda que este processo deva ser bem moderado, poderá ter conseqüências para as condições de liquidez mundiais.A gripe aviária representa uma grande incógnita, e seus possíveis efeitos econômicos são impossíveis de se prever.Em seu conjunto, a expansão da economia mundial segue seu curso e tudo indica que 2006 será o terceiro ano consecutivo de crescimento do PIB mundial acima do potencial (estimado em 3,5-3,75%). Desequilíbrios e vulnerabilidades seguem presentes, mas pelo menos com relação aos desafios puramente econômicos, a probabilidade de uma correção abrupta que possa afetar o crescimento mundial parece bastante pequena.2006 poderá ser um ano de transição, ainda que não está totalmente claro para onde.Se os desequilíbrios globais continuarem a aumentar, aumentam as chances de que os anos seguintes sejam menos favoráveis em termos de crescimento. Por outro lado, caso estes ajustes se concretizem, aumenta a probabilidade de crescimento bastante expressivo (mesmo que um pouco inferior ao observado nos últimos anos).

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