A receita nordestina da Nestlé

Tida como marca premium no mercado de alimentos, a Nestlé encontrou no mercado de baixa renda do Nordeste brasileiro um grande filão de crescimento. Durante a apresentação dos resultados financeiros de 2006 ontem na Suíça, o presidente mundial da Nestlé, Peter Brabeck, revelou que as vendas no Brasil foram puxadas pelo Nordeste. As vendas da companhia na região - que representa quase 30% das receitas da subsidiária brasileira - registraram um crescimento de 10% de janeiro a setembro, contra um crescimento real de 5% a 6% no resto do País.Para aproveitar o boom de crescimento do Nordeste, a Nestlé adaptou produtos e investiu R$ 100 milhões na construção de uma nova fábrica e um centro de distribuição em Feira de Santana, na Bahia. A produção, prevista para começar no primeiro semestre do ano que vem, será adaptada às características do consumo local, com embalagens menores do que no Sul e Sudeste - e que cabem no bolso do consumidor nordestino. Biscoitos líderes como Negresco e Bono, vendidos no Sul em embalagens de 200 gramas, ganham versões de 140 gramas. E as tradicionais latas de Nescau com 400 gramas, foram substituídas por sachês de 230 gramas.As adaptações não se restringem às embalagens. O Nescafé, por exemplo, ganhou uma versão mais suave, batizada de Dolca, e o leite em pó uma marca popular, Ideal. Com uma equipe que já conta com 500 funcionários das áreas de marketing e distribuição, a Nestlé também está transformando o Nordeste em praça-teste para novos produtos. A boa recepção do caldo Maggi de costela e galinha com azeite levou a empresa a incluir o sabor no portfólio nacional."O Nordeste tem sido observado pelas companhias, principalmente aquelas voltadas para o consumidor final, como uma ilha de crescimento dentro do Brasil", afirma o professor de Estratégia e Diretor Acadêmico do Ibmec São Paulo, Sérgio Lazzarini. "Unilever, Danone, Kraft, estão todas de olho nesse mercado, que é bastante suscetível a aumento de renda. Um pequeno aumento de renda nos extratos mais pobres provoca muita demanda por produtos um pouco mais elaborados."As taxas de aumento de vendas da Nestlé no País estão acima da média mundial da empresa. No geral, a Nestlé apresentou um crescimento de vendas no mundo de 9,1% no acumulado de janeiro a setembro. Mas se forem descontados os aumentos de preços dos produtos e a relação do câmbio, o crescimento real é de 4,6%, totalizando US$ 56,9 bilhões. A receita por unidade não foi revelada. No ano passado, a empresa faturou R$ 11,5 bilhões no Brasil, seu quinto ou sexto maior mercado."O potencial de crescimento no Brasil ainda é grande", disse Brabeck, ressaltando que a empresa espera continuar crescendo no País em 2007, independentemente do resultado das eleições presidenciais. "Conhecemos bem a política de Lula e sabemos que vai mantê-la se for reeleito. De fato, Lula se mostrou um presidente surpreendentemente tradicional em sua política econômica. Já o outro candidato (Geraldo Alckmin) adotaria uma política econômica também na mesma linha. Portanto, devemos continuar com bons resultados", afirmou.EmergentesCom 21 marcas vendendo mais de US$ 1 bilhão por ano, a Nestlé é a maior empresa de alimentos do mundo, com produtos como KitKat, Nescafé e Perrier. Mas, com os mercados americano e europeu dando sinais de que crescerão menos em 2007, os executivos da multinacional contam com os mercados emergentes para sustentar as taxas de crescimento de vendas.Nessa aposta, Ásia, América Latina, Oriente Médio e África têm papel relevante. Os mercados emergentes, que representavam 21% das vendas da empresa em 2003, passam a responder por 25% dos negócios em 2006.Para o próximo ano, Brabeck aponta que o cenário será menos positivo para a empresa que o de 2006. "Os desafios serão maiores", afirmou, lembrando que o crescimento deve ficar entre 5% e 6%. Um dos obstáculos é um cenário ainda frágil de crescimento do consumo na Europa.

Agencia Estado,

20 de outubro de 2006 | 09h41

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