Maicon Machado
O evento Expert XP, voltado para investidores, teve mais de 10 mil participantes no ano passado Maicon Machado

Agentes autônomos devem ser livres para trabalhar com mais de uma corretora, dizem entidades

Associações representantes do mercado de capitais e dos bancos se manifestaram à CVM defendendo o fim da exclusividade dos profissionais com só uma empresa para estimular competição, mas com maior responsabilidade e mais regulação

Cynthia Deocloedt, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2019 | 11h09

Os principais participantes do mercado financeiro parecem ter chegado ao consenso de que os agentes autônomos independentes (AAIs), pessoas que orientam investidores com relação a suas aplicações, devem ser livres para prestar serviços a quantas corretoras quiserem. Atualmente, a regulação 497 exige que esses profissionais estejam vinculados a uma única corretora para a distribuição de produtos de investimento, como ações, títulos de renda fixa e outros valores mobiliários. O delicado debate foi levado ao mercado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), por meio de uma consulta pública sobre a atuação dos agentes autônomos. Na sexta-feira, 30 de agosto, terminou o prazo para coleta de sugestões. A partir desse levantamento e de estudos que fez internamente, a CVM poderá abrir uma audiência pública para mudar efetivamente a regulação, em 2020.

As associações representantes do mercado de capitais e bancos, a Anbima, das corretoras Ancord, dos agentes autônomos ABBAI e de um grupo de AAIs que se denomina "livres" se manifestaram ao regulador sobre temas variados que têm causado barulho nessa indústria. Conforme apurou o Estadão/Broadcast, eles encaminharam a defesa pelo fim da exclusividade para produtos financeiros. Os AAI podem distribuir fundos de investimentos de mais de uma corretora no regime atual da norma.

O formato dessa "liberdade", porém, divide a indústria.  A Ancord entende que os agentes autônomos, ao optarem por operar com mais de uma corretora, devem assumir várias responsabilidades e uma carga regulatória maior. Entre elas, assumir controles, suitability (análise do perfil de risco do investidor), gravação das ordens, ressarcimento, envio de relatórios ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) , garantir a segurança das informações e auditoria das ordens de compra e venda dos investidores, segundo documento obtido pelo Estadão/Broadcast.

Já os AAIs consideram que, dada às facilidades tecnológicas presentes no mercado e aos sistemas de acompanhamento das ordens, registro e gravações da B3 e das corretoras, existe um arcabouço de vigilância suficiente para que essas responsabilidades permaneçam com as corretoras. Afinal, os clientes continuam sendo das corretoras e os AAIs são apenas intermediários.

A Anbima partilha da proposta pelo fim da exclusividade, com a percepção de que estimulará a concorrência nesta a indústria, beneficiando investidores com um leque maior de opções de investimento. "A associação entende que a exclusividade deve deixar de ser regulatória e passar a ser opcional, estabelecida por meio de contrato ou acordo comercial", disse José Carlos Doherty, superintendente-geral da Anbima que encaminhou sugestão à CVM.

Além da exclusividade, a Anbima se manifestou sobre uma série de outros temas - assim como as demais entidades -, como o papel e a função do AAI no mercado e também do consultor de investimento; sobre a transparência na discriminação ao investidor das remunerações de cada um dos intermediários e das corretoras e bancos; e sobre a portabilidade de investimento de uma corretora para outra.

Guerra

Entre todos os assuntos abordados na consulta da CVM, esse é o tema mais sensível de uma guerra, veladamente travada há alguns anos e que ganhou voz a partir da publicidade causada pela disputa, ainda na Justiça, entre a XP Investimentos e o BTG Pactual. A XP já baseava sua expansão por meio dos agentes autônomos, quando o BTG resolveu ingressar no universo das plataformas de investimento, com a mesma estratégia para conquistar investidores. Não menos importante, é o crescente interesse dos investidores pessoa física por diversificar suas aplicações além da poupança, por conta na queda da taxa básica de juros que derrubou o retorno de opções mais conservadoras. Somado a isso, há ainda a tecnologia, que contribuiu para a proliferação de fintechs e colocou grandes bancos na roda das plataformas de investimentos.

Há hoje cerca de 7,7 mil profissionais credenciados na CVM, dos quais aproximadamente 5 mil ativos e concentrados em cerca de 1,5 mil escritórios. Perto de 80% dos AAIs operam exclusivamente com a XP e um grupo de 20 escritórios - conhecido por G-20. Eles somam bilhões em ativos sob gestão. Por conta disso, nas próprias entidades que representam o mercado existe uma predominância de representantes da XP. A Ancord é presidida por Edgar da Silva Ramos, da XP Investimentos. A ABBAI é presidida por Diego Ramiro, agente autônomo ligado a Guide Investimentos. Mas seu conselho de nove membros, tem apenas dois não ligados à corretora de Guilherme Benchimol, dono da XP.

A XP não se manifestou para esta reportagem. Interlocutores de mercado dizem, porém, que a casa de investimento compartilha da visão da Ancord, no que diz respeito à responsabilidade que os profissionais teriam de assumir, ao optar por operar com diversas corretoras. Procurados, o BTG e a Ancord não se manifestaram.

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De garçom a agente autônomo de investimentos

Mercado financeiro vem abrindo portas para quem não tem formação inicial em áreas ligadas à economia, indica pesquisa; saiba o que faz, como entrar no setor e quanto ganha um profissional ligado às corretoras

Felipe Siqueira e Pedro Ladislau Leite, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2019 | 13h49

Com 22 anos e uma entrevista engatilhada para trabalhar como vendedor em uma loja de roupa, Victor Magalhães teve de escolher entre participar do processo seletivo para uma vaga com salário de cerca de R$ 1 mil por mês ou fazer uma prova para atuar no mercado financeiro, como fora aconselhado por amigos. Até então, “pulava” de função em função, tendo trabalhado como office boy em escritório de advocacia e feito até freelancers como garçom. 

Após avaliar as opções, decidiu pela prova. Com facilidade em estudar assuntos relacionados à matemática, o teste não foi difícil. “Embora não fosse minha área de estudo na faculdade, sempre peguei rápido”, afirma. No mercado financeiro há nove meses, conseguiu ganhar R$ 30 mil nos últimos 60 dias. Ele é agente autônomo de investimentos em um escritório no Rio de Janeiro, trabalho que só consegue exercer porque teve um bom desempenho na prova. “Valeu a pena”, diz. 

Os últimos ganhos de Magalhães, porém, ficaram “fora da curva”. “Me beneficiei de um aumento em minha carteira de clientes.” A média mensal nesse período em que vem exercendo a função é de R$ 5 mil. 

Magalhães chegou a cursar três anos de psicologia, mas desistiu da carreira. Levantamento da Proseek, empresa de educação e alocação de talentos voltada para o mercado financeiro, mostra que essa migração não é tão incomum. 

Para se ter uma ideia, dos alunos da Proseek que pretendem ingressar no mercado financeiro, passando pelo curso de Specialist Advisory, um terço vem de áreas distantes daquelas que tradicionalmente estão estão nos currículos de quem atua no setor, como engenharia, economia, administração e ciências contábeis. Ainda que 62,9% dos alunos venham dessas áreas, o setor abre portas para ciências humanas - 7,4% dos estudantes, por exemplo, têm formação inicial em Direito. 

Dados do levantamento mostram que 3,7% das pessoas que buscam trabalhar no mercado vêm de cursos de medicina, fisioterapia, enfermagem e odontologia. É o caso de Jhony Bosio, de 41 anos, que trabalhou como fisioterapeuta por três anos. Depois de desistir da carreira - “pela remuneração não compensar a quantidade de estudo”, diz - foi para a área comercial, ficando responsável pela análise de crédito para compradores de veículos. 

Quando conseguiu acumular patrimônio para investir, se tornou cliente de um escritório de agentes autônomos, credenciados a uma corretora. Bosio foi se familiarizando com esse universo até que, em 2017, conseguiu a certificação necessária para trabalhar na área. Agora, é assessor de investimentos. O curioso é que ele começou a trabalhar no mesmo escritório do qual era cliente.

A prova

A prova que Magalhães e Bosio fizeram é organizada pela Associação das Corretoras e Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários, Câmbio e Mercadorias, mais conhecida como Ancord, única instituição regulamentada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para certificar agentes autônomos e custa R$ 460. O nível do exame é alto, feito, justamente, para credenciar quem tem condições de atuar no mercado financeiro. 

A taxa de aprovação gira em torno de 30% a 40%. O candidato tem duas horas e meia para resolver 80 questões, com acerto mínimo de 70% do questionário, sendo que, em alguns capítulos, é preciso acertar metade do conteúdo. 

Segundo o responsável pela área de credenciamento da Ancord, Orlando Júnior, a taxa de aprovação está ligada aos pré-requisitos do exame. Não é exigido ensino superior, quem tem ensino médio completo já consegue fazer a prova. “Nem todos são preparados para a prova. Com 18 anos, pode ter sido gênio da matemática no colégio, mas não tem vivência de mercado”, diz Orlando. 

O número de pessoas que têm procurado a Ancord para prestar o teste vem crescendo nos últimos anos. Só em 2019, mais de 6 mil pessoas já passaram pelo processo, número próximo ao que foi atingido em todo o ano 2018, de 6,8 mil. Há cinco anos, por exemplo, pouco mais de mil pessoas o fizeram. De 2014 a 2019, o aumento na procura foi de cerca de 430%. 

Em parte, de acordo com Orlando, isso se explica pelo aumento da frequência na realização dos testes, que antes ocorriam com intervalo de um mês. De qualquer modo, ele vê aumento no interesse pela profissão. “O mercado está se expandindo, o boca a boca está aumentando, o mercado está chegando para as pessoas, a informação tem sido difundida. O pessoal mais jovem, mais ligado, acaba tendo mais oportunidade”, diz. 

A análise da Proseek é semelhante. Para eles, com a combinação de juro baixo e recuperação da atividade econômica, os investidores, historicamente concentrados na renda fixa, vão passar a investir em novos produtos por meio das plataformas digitais, o que deve beneficiar o mercado de agentes autônomos. 

“A agenda reformista do governo federal deve manter o juro em um dígito por mais tempo e o investidor vai buscar plataformas mais rentáveis. E essa busca passa pelo assessor de investimentos”, diz o sócio e responsável pela área de conteúdo da Proseek, Eduardo Otero. 

Há ainda o desemprego alto que, entre os jovens, é o dobro da média nacional. A ocupação de agente autônomo tem se tornado uma alternativa sobretudo para os mais qualificados. 

Hoje, há 7.988 pessoas aptas a exercer a profissão no Brasil, de acordo com a Ancord. Mas isso não significa que todas estão trabalhando no ramo. Depois da prova, o processo para começar a atuar não é automático. É preciso se certificar na Ancord, processo que dura de 15 a 30 dias, e ainda se se vincular a um escritório que englobe profissionais do ramo. Este, por sua vez, deve ser certificado a uma corretora. 

Como é a remuneração do agente

Nenhum agente pode receber seu pagamento diretamente dos clientes. Quem se torna cliente do escritório paga taxas diretamente à corretora, como a de corretagem. A empresa paga um porcentual do valor para o escritório de autônomos, que repassa ao agente. Se o investimento for em um fundo, antes de o valor das taxas chegar à corretora, vai direto à gestora do fundo, que repassa uma parte à corretora e assim por diante. 

Por esse motivo, a função de agente não tem salário fixo. “Você vai ser um empreendedor”, diz Bosio. “Tem de montar uma carteira de clientes para ter um salário.” Ela afirma que hoje, passados dois anos desde que iniciou na profissão, ganha mensalmente mais do que na época em que atuava como fisioterapeuta.

O que faz o agente autônomo de investimentos? 

De acordo com a CVM, o agente autônomo de investimentos atua explicando para seus clientes as características dos produtos que podem ser adquiridos no mercado financeiro. Se o cliente quiser investir em um desses produtos, o agente pode operar no mercado este patrimônio, desde que tenha autorização para fazer isso. 

O que ele não pode fazer é dar recomendações sobre qual a melhor possibilidade de investimento. Para isso, há o consultor de investimentos. Este, porém, não pode alocar os recursos, como o agente. 

Otero, da Proseek, afirma que, ao decidir ser assessor de investimentos, o profissional precisa estar bem informado, para poder passar as melhores recomendações para seus clientes. “O assessor precisa ter domínio sobre os produtos que podem ser ofertados aos clientes e precisa ter habilidades comerciais interessantes, para ter bom aproveitamento entre prospecção e clientes convertidos.” 

Outro profissional do mercado é o administrador de investimentos, que mexe na composição da carteira com mais liberdade, e, por fim, o analista de valores mobiliários, que produz relatórios sobre empresas e cenários.

Hoje, os agentes autônomos têm de estar vinculados a apenas uma corretora. A CVM discute mudar a regulamentação para estimular a concorrência no mercado. 

 

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