Águia Branca decola com ônibus e decide montar companhia aérea

-"Você sabe me dizer se o Nilton Chieppe, dono da empresa, já chegou de Vitória?", pergunta a reportagem ao chegar à portaria de uma das empresas do Grupo Águia Branca, em São Paulo.-"Eu acho que não", responde o porteiro.-"Eu vi um pessoal chegando agora. Será que o Nilton não estava com eles?", questiona a reportagem.-"Mas esse pessoal chegou de táxi...", diz o porteiro.O porteiro estava enganado. Nilton Chieppe havia chegado, sim. E de táxi, para surpresa do porteiro, novo na empresa. Apesar de ser um dos donos de um grupo que vai faturar mais de R$ 1 bilhão este ano, o capixaba Chieppe, neto de italianos, ainda preserva parte da simplicidade de quando dirigia caminhão e ônibus e ajudava o pai na lavoura de café no interior do Espírito Santo.Com sua fala mansa e jeito discreto, do tipo que perde horas falando de churrasco e macarrão, Chieppe pode provocar outra surpresa. Desta vez, muito maior. O Grupo Águia Branca, dono de empresas de transporte rodoviário, de logística, de tratamento de água e esgoto e revendas de veículos, está prestes a colocar um pé na aviação.O grupo começou a estudar o mercado há três anos. No começo, o interesse era entender o tamanho da ameaça que ele representava ao negócio de ônibus da empresa.Conforme os estudos foram evoluindo, Chieppe chegou a duas conclusões importantes. Primeiro: na aviação brasileira, só existe espaço para duas grandes empresas - no caso, TAM e Gol. Segundo: mesmo assim, dá para ganhar dinheiro com vôos charter para turistas e com aviação regional, sobretudo para transportar executivos de grandes grupos como Suzano, Petrobras e Vale do Rio Doce, que tem unidades instaladas nos grotões do país."Ficamos assustados com as turbulências, mas, no final, gostamos do que vimos", diz Chieppe. "É um mercado interessante. Dá para ganhar dinheiro em alguns nichos, como faz a OceanAir hoje, que leva funcionários da Petrobras do Rio de Janeiro para Macaé".O projeto está em fase avançada. Executivos do grupo já viajaram para o exterior para conhecer novos modelos de negócio de empresas aéreas e visitar fabricantes de aeronaves, até para entender a dinâmica própria do segmento. No começo do ano, o grupo chegou a fechar a compra da WebJet, mas o negócio acabou sendo adquirido pelo empresário Jacob Barata Filho, herdeiro do Grupo Guanabara, das linhas Útil e Expresso Guanabara.BrevêA família Chieppe, por acaso, tem uma paixão antiga por avião. O sobrinho de Nilton, que toca a empresa de ônibus do grupo, é piloto nas horas vagas. Nilton já fez curso, mas nunca tirou brevê. "Mas essa é uma opção mais comercial que emocional", adianta Chieppe.Um estudo recente da Bain & Company mostra que o mercado brasileiro de aviação vai triplicar nos próximos vinte anos. O consultor de aviação da Bain, André Castellini, aposta na evolução do mercado regional daqui para a frente."O mercado regional vai se desenvolver, do mesmo jeito que aconteceu nos Estados Unidos, Austrália e Canadá", diz Castellini. "Os últimos pedidos da TAM e da Gol mostram uma opção clara pelos aviões grandes, o que abre espaço para empresas operarem com aviões menores", diz Castellini. "Existe espaço, mas não é fácil sobreviver nesse ramo. A OceanAir e a Pantanal estão tendo dificuldade. O crescimento das empresas do Norte do país esbarra na renda da região."Caso a empresa aérea decole, a família Chieppe pode repetir a saga do clã Constantino, dono da Gol. O negócio de ambos teve origem no transporte de passageiros de ônibus. No Brasil, quase todas as grandes empresas de ônibus foram criadas na mesma época - a partir dos anos 40 - e nasceram do transporte em burro de carga.

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