América Latina tem combatido inflação melhor que Ásia

Felipe Illanes, do Merrill Lynch, disse que na América Latina, o Brasil é que tem reagido melhor contra inflação "com resposta forte, no tempo e dose certos"

Luciana Xavier e Regina Cardeal,

01 de agosto de 2008 | 18h06

De um modo geral, a América Latina tem se saído bem no combate à inflação, melhor inclusive que os países emergentes da Ásia, afirmou o economista-chefe do banco Merrill Lynch em Nova York, Felipe Illanes, durante entrevista ao AE Broadcast Ao Vivo. "A inflação é um problema global a ser lidado de maneira agressiva e a América Latina tem reagido bem melhor que outros emergentes, como os da Ásia. E, na América Latina, o Brasil é o que tem reagido melhor com uma resposta forte, no tempo e na dose certa", avaliou. Na outra ponta, segundo ele, estariam a Argentina e Venezuela. "Eles não têm sistema institucional adequado, com a ausência de meta de inflação, e há intensiva intervenção do estado no processo de formação de preços nessas economias", explicou. Em junho, a inflação na Argentina ficou em 0,60% e na Venezuela, em 2,30%. Nos países da América Latina com sistema de metas, os índices de junho também vieram salgados. No Brasil, por exemplo, o IPCA ficou em 0,74% em junho ante maio; no Chile, a inflação teve alta de 1,49%; na Colômbia, o CPI de 0,86%, no México a inflação avançou 0,41% em junho. O Brasil e o Chile têm agido para combater a alta de preços. O aperto monetário no Brasil começou em abril e no Chile, em junho. Para Illanes, o BC brasileiro agiu corretamente ao elevar a dose de aumento da Selic de 0,50 ponto porcentual para 0,75 pp em julho, colocando a taxa em 13%. "A mudança no aumento da Selic é consistente com a leitura qualitativa da estratégia do BC. O movimento da ponta longa da curva de juros no Brasil sugere que realmente o aumento no passo de aperto teve efeito positivo", comentou. PIB O Brasil deve crescer menos no ano que vem, mas poderá retomar o fôlego a partir de 2010, disse Illanes. Ele estima um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro de 4,8% este ano e 3,8% em 2009. O aperto monetário, segundo Illanes, deve levar a uma expansão menor da economia no ano que vem, mas ao mesmo tempo reforça a credibilidade do Banco Central e essa credibilidade é essencial para que o País volte a crescer mais a partir de 2010 e continue atraindo investimentos. Illanes acredita que um crescimento entre 4,5% e 5% em 2010 seja possível, mas ressalta que para uma expansão ainda mais expressiva nos anos seguintes serão necessárias reformas, redução da carga tributária e mais investimentos. "É bom crescer o máximo possível, desde que esse crescimento seja sustentado", disse. Para Illanes, é complicado comparar o desempenho do Brasil com os demais países do BRIC, especialmente Índia e China, que têm PIB ao redor de dois dígitos, pois são países onde a renda do trabalhador é bem mais baixa. Segundo ele, embora o PIB brasileiro seja menor que o desses dois países, as condições de trabalho e renda no Brasil são melhores. Illanes acredita que a inflação ficará em 6,3% este ano e em 4,6% em 2009 e projeta Selic em 14,50% este ano e recuando para 13,25% no ano que vem, com corte de juros a partir do segundo semestre. Reforma - Se o País quiser voltar a acelerar o ritmo de crescimento a partir de 2010, será preciso elevar a taxa de investimento de modo sustentado e para que haja uma taxa bem maior de investimentos é preciso promover as reformas estruturais, especialmente a tributária, afirmou Illanes. "A situação fiscal ainda resulta numa tributação alta demais e há gasto elevado no setor público. Mas o Brasil deve chegar num consenso para fazer com que reformas sejam enfrentadas. Se não for assim, na medida em que a conjuntura global comece a ficar menos favorável, o crescimento vai achar uma restrição num nível baixo demais. Pode não ser o governo do presidente Lula que vai fazer a reforma, mas de modo geral acho que o Brasil vai avançar nessa direção", afirmou. EUA O banco central dos Estados Unidos, o Federal Reserve (Fed), deixou de lado a política de cortes agressivos nos juros e quando resolver mexer novamente nas taxas será para mais cortes e não aperto monetário, disse o economista. O corte, segundo Illanes, seria de 0,50 ponto porcentual e viria em 2009.  "Isso é sustentado numa visão deles de que a economia dos EUA realmente entra num período de recessão já mais claro no final deste ano e no ano que vem, com crescimento se contraindo 0,50% em 2009", disse. Illanes aposta em manutenção dos Fed Funds em 2% até o final deste ano. A próxima reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto do Federal Reserve (Fomc) será na semana que vem, dia 5.  Illanes disse que o Fed tem tentado administrar tanto os riscos de recessão como de inflação no país, embora proteger o sistema financeiro de efeitos mais fortes da crise imobiliária, evitando que a economia se enfraqueça demais tenha se mostrado uma questão mais urgente.

Tudo o que sabemos sobre:
AE Broadcast Ao Vivo

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.