Analistas em NY prevêem desaceleração das exportações no Brasil

A balança comercial brasileira deve experimentar um movimento de correção gradual neste ano, com desaceleração das exportações, segundo analistas ouvidos pela Agência Estado. Parte dos especialistas vê potencial de apreciação do real nos próximos meses. Contudo, este potencial deverá ser limitado em razão das intervenções do Banco Central no mercado de câmbio. Para os analistas consultados, a recente valorização do real deriva de uma combinação de fatores externos e internos. Entre os fatores internos, os bons fundamentos da economia doméstica ganham destaque. A boa performance da economia brasileira continua a manter o país atraente e, também, colabora para manter o real apreciado, argumentam os especialistas. Nos últimos dois meses, no entanto, um fator relevante que entrou em ação, acentuando a apreciação do real, está ligado às expectativas dos players do mercado internacional com relação a reformas no mercado brasileiro, observa Daniel Tenengauzer, estrategista de renda fixa para mercados emergentes da Merrill Lynch. O tom predominante é de que a isenção para estrangeiros e a discussão sobre abertura de mercado têm afetado positivamente o humor no mercado externo com relação ao Brasil. Entre os fatores externos, o País continua a se beneficiar fortemente do fluxo de capital destinado a emergentes. O membro do Instituto para Economia Internacional, em Washington John Williamson observa que "o mercado (internacional) está impressionado pelo superávit de conta corrente". Desta forma, associado a juros domésticos elevados, diz ele, esta é uma combinação que está colaborando para manter o real valorizado. Ainda, diz Williamson, o Brasil continua se beneficiando de uma economia global bastante forte. O analista da Moody?s Investor Service, em Nova York, Mauro Leos também destaca o componente global afetando a taxa de câmbio no País. Segundo ele, expressiva liquidez global favorece diferentes países da América Latina, "colaborando também para apreciação das moedas no Chile e na Colômbia". Ele também acrescenta que "as contas externas (do Brasil) estão muito bem, assim, o ingresso de dólares continua forte, em virtude da performance da economia brasileira". "Há um sentimento positivo sobre o direcionamento da economia. Políticas consistentes são um bom sinal para o mercado. É um destino atraente", afirma. Contudo, Leos enfatiza que o ambiente global continua colaborando no que tange à liquidez. Segundo dados do Instituto Internacional de Finanças (IIF), os fluxos de capital privado para economias emergentes alcançaram a alta recorde de US$ 358 bilhões no último ano, ultrapassando o recorde anterior de US$ 324 bilhões que havia sido registrado em 1996. O analista da Moody?s avalia que não tem razões para esperar uma reversão na trajetória recente dos fluxos para os emergentes. "A entrada de capital não está tão forte como foi em 2005, mas continua com vigor", pondera. Leos lembra que, em meados do ano, passado a expectativa era de diminuição do ritmo de entrada de capital para os emergentes. Contudo, isto ainda não se confirmou. Dados divulgados no início do ano indicam que o nível do fluxo de capital para os mercados emergentes deve ter desaceleração em 2006, ante o recorde de 2005, mas ainda deverá permanecer elevado, em torno de US$ 322 bilhões. "O cenário é que o fluxo de capital (para emergentes) irá continuar tendo contribuição importante", estima Leos. O analista-sênior da Goldman Sachs para América Latina, Alberto Ramos, avalia os fundamentos brasileiros como "bastante sólidos". "Os dados de conta corrente continuam gerando entrada de dólares na economia. O portfólio de recursos na balança de capital ainda continua apreciando o real", comenta. No ano, Ramos vê potencial de apreciação para o real nos próximos três meses, com o dólar sendo negociado entre R$ 2,10 e R$ 2, "como reflexo da conta corrente e de capital". Contudo, "este potencial deve ser limitado pela intervenção do Banco Central. O BC tem demonstrado um posicionamento de acumulação de reservas para evitar turbulências externas", avalia. Tenengauzer prevê, no entanto, que o dólar deve rumar para o patamar de R$ 2,50 em meados do ano. O analista cita elevação do juro nos EUA e iminente elevação do juro no Japão como fatores pesando para esta avaliação. Para o analista, neste momento, a decisão de política monetária no Japão tem um peso ainda maior do que nos EUA. "O Japão sempre foi um exportador de recursos. E com taxa mais alta começa haver interesse do investidor local, diminuindo o fluxo (para o mercado) internacional", pondera. Os analistas prevêem que a balança comercial deverá mostrar arrefecimento à frente. Na avaliação do analista da Moody?s, o que deve ocorrer é uma "correção". "Nos anos recentes houve um crescimento bastante elevado das exportações, e com o real forte e preços de commodities ainda elevados há a expectativa de que o crescimento (exportações) seja menor, (rumando) para um nível mais sustentável", estima Leos. Ramos destaca que a apreciação do real precisa ser avaliada de um ponto de vista mais amplo, de longo prazo. "Não há grande evidência de que as exportações serão demasiadamente prejudicadas. O saldo de conta corrente continua superavitário." Williamsom também estima que "o superávit comercial não deve ficar tão amplo (como atualmente)". "Eu ficaria surpreso em ver um grande aumento nas exportações." Tenengauzer enfatiza que a balança comercial deve passar por um movimento de ajuste gradual, derivado de uma combinação de real apreciado, com impacto sobre as exportações, corte de taxa de juro doméstica e, conseqüente, melhora do consumo interno com aumento das importações.

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