Analistas veem como incerto cenário de juros para 2011

Cresce perspectiva de que alta da taxa Selic possa continuar no próximo ano

Francisco Carlos de Assis, da Agência Estado,

21 de maio de 2010 | 18h22

Analistas do mercado financeiro já trabalham com a perspectiva de que o ciclo de aperto monetário pode se estender ao longo do ano que vem. Até recentemente, a avaliação consensual era de que haveria elevação mais acentuada da Selic neste ano e um aperto mais suave ou até estabilidade da taxa em 2011. A nova expectativa ocorre diante da avaliação de que há descompasso entre oferta e demanda - resultante de crescimento econômico acima da capacidade produtiva -, das incertezas sobre os impactos da crise fiscal na Europa e da dúvida sobre quem será o próximo presidente da República.

As projeções de crescimento feitas por instituições financeiras apontam para expansão econômica neste ano de até 8%. O próprio BC divulgou um novo indicador antecedente para o Produto Interno Bruto (PIB) apontando crescimento de 9,85% do PIB no primeiro trimestre - o resultado oficial, do IBGE, será divulgado apenas em 8 de junho. Do lado da oferta, o Nível de Utilização da Capacidade Instalada (Nuci) da indústria em março, medido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), subiu para 82,6%. Em fevereiro, o indicador foi de 81,5% e, em março do ano passado, de 78,6%.

Segundo analistas, os elevados gastos públicos garantem forte injeção de recursos na economia e o crescimento da demanda agregada requer maior intervenção da autoridade monetária. A mais recente Pesquisa Focus do BC, divulgado na segunda-feira, ainda prevê Selic de 11,75% ao ano em 2010 e de 11,5% em 2011. As médias das previsões para 2010, no entanto, subiram de 11,72% no dia 27 de abril para 11,91% em 14 maio. E, para 2011, as previsões do dia 11, de 11,48%, subiram para 11,55% no dia 14 deste mês. Esse movimento indica que, para o ano que vem, as projeções para a taxa de juros apresentam tendência de alta.

Pressão inflacionária

A MB Associados, segundo afirma o economista-chefe Sérgio Vale, não só trabalha com a Selic encerrando 2011 em 13% como não descarta a possibilidade de o ano que vem começar com elevação de juros para acima deste patamar e a manutenção nesse nível por mais tempo. Uma das variáveis que levam Vale a sustentar uma aposta de juro mais apertado para 2011 são os IGPs, que devem encerrar este ano em 8,5% com larga probabilidade de ficar até acima de 10%. "O impacto sobre 2011 se dará por meio dos serviços, que são reajustados com base nos indicadores da inflação passada. São riscos para 2011 que não são triviais ou pequenos" afirma Vale.

A economia, na visão de Vale, vive agora uma explosão de crescimento resultante de um erro do governo no ano passado, quando criou uma série de incentivos para a economia com o objetivo de amenizar os impactos da crise do subprime de 2008. "Tivemos também erros de política monetária na economia brasileira no ano passado, abrindo espaço para o crescimento neste começo de ano", critica. O economista pondera que, em abril de 2009, o BC passou a aumentar a taxa Selic e mesmo assim a economia começou a crescer a partir do fim do primeiro trimestre. "Neste ano não está sendo diferente. A taxa de juros começou a subir também em abril e a tendência é a de que a economia deverá se manter aquecida até o terceiro trimestre."

A diferença, reforça o economista, é que neste ano o juro está maior e a qualidade da política fiscal é bem inferior à de 2008. Por isso, a consultoria espera que a Selic sofra um aumento de 1 ponto porcentual  já na reunião de junho do Comitê de Política Monetária (Copom). "Entre o Copom de março e o de abril, as projeções de atividade e inflação subiram e de abril para junho está acontecendo a mesma coisa. O BC tem de se antecipar."

Para o economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luís Otávio de Souza Leal, além dos fatores de ordem econômica e financeira, ingredientes políticos também influenciarão o cenário de juros no ano que vem . "Só Deus sabe qual é o cenário de juros para 2011", afirma o economista, para quem ninguém arrisca ainda qual será o governo nem a composição na diretoria do Banco Central. "Não podemos falar das perspectivas para 2011 se não sabemos quem estará lá", diz. Do ponto de vista político, Souza Leal afirma que uma previsão mais próxima à realidade só poderá ser feita depois que os principais candidatos à Presidência da República estiverem com suas equipes econômicas formadas.

Incertezas com eleição

Na avaliação do economista do ABC Brasil, nem José Serra (PSDB) nem Dilma Rousseff (PT) querem muita autonomia para o BC, mas Serra é mais claro ao fazer suas afirmações. No caso da petista, ela já é mais clara em afirmar não ser favorável às reformas como a da Previdência, por exemplo. "A diferença entre os dois é que Serra tem suas convicções econômicas, já foi um economista stricto sensu, trabalhou na Cepal e pode ter um perfil mais intervencionista. No entanto, será mais rápido do que Dilma para perceber quando o que estiver fazendo começar a dar errado. De qualquer forma, no que diz respeito à economia, Souza Leal acredita que um eventual governo do tucano será mais propenso a ter uma taxa de câmbio mais condizente com os interesses dos exportadores, o que poderá implicar taxas de juros mais baixas.

Dilma, por sua vez, na avaliação de Souza Leal, poderá estar mais propensa a manter a política do presidente Lula, com elevado nível de  gastos públicos, o que poderá demandar  mais juros na outra ponta. Por outro lado, ele acredita que Dilma só dará continuidade aos elevados gastos públicos se o mercado também continuar condescendente  com ela como está sendo com o presidente Lula. "Na hora que o mercado começar a exigir prêmios de riscos maiores em contrapartida aos gastos públicos, ela voltará atrás como também o presidente Lula voltaria agora", diz.

O economista-chefe da Prósper Corretora, Eduardo Velho, acredita que a incerteza quanto ao comportamento dos candidatos José Serra e Dilma Rousseff em relação à economia pesa mais para a formação do cenário de juros no ano que vem do que os efeitos da crise fiscal na Europa, por exemplo. Quanto ao tucano, segundo ele, uma das dúvidas recai sobre como ele atuará em relação ao câmbio e à autonomia do BC. Dilma Rousseff, para Velho, é mais avessa às reformas, mas tende a manter a política cambial, o que exigirá mais juros em 2011. "Se o Serra fala que o câmbio tem de ser mais pró-exportação, ele está dizendo que o BC terá de dar a sua ajuda. E neste caso, é com menos juros", diz.

 

Tudo o que sabemos sobre:
jurosSelicCopominflaçãocrise

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.