Anúncio do 'fim da era Palocci' deixa mercado apreensivo

No dia seguinte à reeleição do presidente Lula, os principais ativos brasileiros tiveram desempenho negativo no mercado financeiro. A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) caiu 1,09%, o dólar comercial subiu 0,75%, para R$ 2,15, os contratos de juros na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) apontaram alta das cotações e o risco Brasil avançou quase 2%, para 219 pontos. Segundo analistas, os mercados foram influenciados pelo ambiente externo carregado e pelas declarações de autoridades sobre o fim da "era Palocci". Ainda não está claro para os investidores o que isso significará para a trajetória futura da política econômica, em especial para o rumo da taxa básica de juros. "O fim da era Palocci não cai bem aos ouvidos do mercado", explicou o economista Alexandre Póvoa, diretor do Banco Modal. Para ele, no entanto, seria precipitado afirmar que a segunda-feira ruim para os mercados se deveu a uma reação negativa à reeleição. "Ela reflete apenas o momento de indefinição, pois os investidores ainda aguardam declarações mais firmes de Lula quanto à condução da política econômica." O ponto central das dúvidas, segundo Póvoa, está relacionado ao Banco Central (BC). "(Henrique) Meirelles e sua equipe serão mantidos? Se houver mudança, será de seis por meia dúzia?", indagou. É por isso que o segmento do mercado que registrou as maiores oscilações ontem foi o de juros. Na BM&F, o contrato DI de janeiro de 2010, que na sexta-feira terminou em 13,41%, avançou para 13,49% ao ano. O DI para janeiro de 2009 projetava taxa 13,29%, ante 13,24% ao ano na sessão anterior. No exterior, estrategistas de bancos e fundos de investimentos constataram que as declarações do ministro Tarso Genro, sobre o "fim da era Palocci", aliadas ao crescente alarido da ala desenvolvimentista do governo, geraram inquietação entre investidores, principalmente em relação ao futuro do BC. Segundo eles, a perda da autonomia operacional ou a substituição de Henrique Meirelles por alguém menos ortodoxo poderia despertar fantasmas afastados há algum tempo. "Qualquer tentativa de remover Meirelles será vista como negativa pelos mercados", disse o chefe para mercados emergentes do banco HSBC, Philip Poole. Por isso, a montagem da equipe econômica de Lula deverá ser o principal foco de atenção nas próximas semanas. O economista Paulo Leme, do banco Goldman Sachs, avalia que o presidente não vai anunciar os nomes até costurar uma aliança política de apoio ao governo, o que deve ocorrer até o fim de novembro. "Na nossa opinião, o cenário mais provável, com chance de 70%, é a permanência de Mantega na Fazenda e Meirelles no BC", disse Leme. O economista-chefe do Banco BNP Paribas, Alexandre Lintz, acrescentou que o ambiente externo carregado também influenciou a segunda-feira no País. "O mercado lá fora ainda reage mal aos números do PIB dos Estados Unidos divulgado na sexta-feira", observou. De fato, o risco médio dos países emergentes, representado pelo índice EMBI Plus, do Banco JP Morgan, subiu 1,1% ontem, para 186 pontos. A Bolsa de Buenos Aires caiu 0,90% e a do México, 1,73%. As moedas dos principais países latino-americanos, como Chile, Argentina, Colômbia e México, perderam valor ante o dólar. Além disso, a queda das cotações do petróleo - em Nova York, o contrato do barril despencou quase 4% - provocou desvalorização das ações da Petrobras, uma das mais importantes da Bovespa. A ação ordinária (ON) caiu 1,87%.

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