Apetite pelo risco agrava turbulência

O tombo global das bolsas de valores na semana passada apanhou o mercado num momento em que investidores do mundo todo estavam expostos a riscos elevados, o que potencializou as quedas. Estima-se que a turbulência tenha torrado US$ 1,5 trilhão em valor de mercado de empresas ao redor do planeta, um impacto superior até mesmo à ressaca que se seguiu ao 11 de setembro de 2001. O recuo que começou pela Bolsa de Xangai na terça-feira interrompeu uma enorme onda de otimismo que durava meses. Índices acionários de vários países, entre eles o Ibovespa - o principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) -, vinham batendo sucessivos recordes de alta. Segundo analistas, esse movimento se explica pelo fato de as taxas de juros em nações desenvolvidas estarem em níveis historicamente baixos. Nesse ambiente, o investidor busca retornos mais elevados, mesmo que isso signifique maior exposição ao risco. No Brasil, as oscilações podem ter uma função didática, pois coincidem com uma tendência maciça de migração para aplicações de maior risco, na esteira da redução da taxa básica de juros (Selic). Nos últimos 360 dias, a captação líquida dos fundos multimercados e de ações (considerados mais arriscados) foi de, respectivamente, R$ 55,6 bilhões e R$ 10,6 bilhões. Em contraste, os fundos DI perderam R$ 7,6 bilhões e os de renda fixa, R$ 19,4 bilhões. Quem busca rentabilidade mais elevada terá cada vez menos espaço para fugir do risco e deverá se acostumar a sacolejos como o da semana passada. Isso ocorre porque a queda dos juros no mercado nacional está espremendo a rentabilidade dos fundos DI e de renda fixa, onde o risco é mínimo, e empurrando os investidores para fundos como multimercados e de ações. Essas aplicações são mais vulneráveis a episódios como os tremores vindos da China, e a volatilidade do valor das suas cotas significa que grandes ganhos e perdas podem ocorrer em períodos relativamente rápidos. A vantagem, de outro lado, é que tendem a render mais, o que tem atraído cada vez mais aplicadores. "As pessoas vão se acostumando com a idéia de que, para obter retorno mais alto, é preciso mais risco", diz Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central (BC) que comanda a Gávea Investimentos, empresa de gestão de recursos com R$ 3,2 bilhões em diversos fundos. Revolução? "O que está acontecendo é uma mudança de paradigma, e só não digo que é uma revolução porque está sendo gradual", diz Luiz Fernando Figueiredo, principal sócio e gestor da Mauá, empresa de administração de recursos. Ex-diretor do BC, ele toma conta de R$ 2,1 bilhões em uma coleção de fundos, que incluem multimercados, ações e externos (que aplicam recursos no exterior). Os fundos multimercados são aqueles que operam com toda a gama de ativos financeiros, como títulos de renda fixa, ações, dólar e mercados futuros, e buscam uma rentabilidade maior por meio de apostas em tendências e posicionamentos. Uma parte substancial dos multimercados é o equivalente brasileiro dos "fundos hedge" internacionais, que já acumulam patrimônio de quase US$ 1 trilhão, são especulativos e buscam grandes rentabilidades em jogadas de risco.

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