Renato S. Cerqueira/Futura Press
Renato S. Cerqueira/Futura Press

Após alcançar 100 mil pontos, mercado redobra aposta para Bolsa e já espera pelos 120 mil

Segundo analistas, o Ibovespa, principal índice de ações do País, tem potencial para alcançar esse novo patamar até o fim deste ano, a depender da aprovação da reforma da Previdência

Renato Jakitas, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2019 | 04h00

Quebrada a barreira dos 100 mil pontos na Bolsa de Valores na segunda-feira, 18, o mercado financeiro já trabalha com uma nova meta de crescimento do índice Ibovespa, que congrega as principais ações comercializadas no País: os 120 mil pontos.

Segundo os analistas do setor, o pregão de ações nacional tem potencial para alcançar esse novo patamar até o fim deste ano, mas isso desde que aprovada a reforma da Previdência, o que deve acontecer, segundo os especialistas de bancos e corretoras, no segundo semestre.

"Nós no Itaú, assim como o mercado como um tudo, trabalhamos com 120 mil pontos em 2019. Mas para isso precisamos de uma boa reforma da Previdência aprovada em Brasilia", diz o especialista em investimentos do Itaú Unibanco Martin Iglesias.

No banco, o investimento em ações lidera o ranking das recomendações para os investidores há cinco meses, seguida pelos fundos multimercados e, em terceiro lugar, os títulos públicos atrelados à inflação.

Volatilidade

Com um cenário externo benigno e motivada por declarações recorrentes favoráveis à reforma da Previdência feitas pelos principais quadros do governo, com destaque para os ministros da Economia, Paulo Guedes, e da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, o Ibovespa acumula em 2019 uma alta de 13,74%, com volatilidade sob controle.

Alcançado os 100 mil pontos, o trajeto rumo ao próximo degrau deve ser marcado, segundo Glauco Legat, analista-chefe da Necton, por um sobe e desce mais intenso. "Até aqui o governo estava em fase de planejamento. De agora em diante, com a instauração da CCJ (Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania da Câmara) e a negociação começa de fato. Isso impacta em uma oscilação maior dos ativos", diz.

O analista-chefe da XP Investimentos, Karel Luketic, concorda com a previsão de Legat. Segundo ele, contudo, volatilidade não deve ser usada como trava por parte do investidor. "A nossa recomendação é aumentar a exposição à Bolsa e isso pode ser diretamente com ações, com fundos multimercados, seja como for", diz.

Karel Luketic destaca que dois pontos devem ser considerados para o futuro. O primeiro, que as previsões de crescimento das companhias brasileiras estão ainda bastante conservadores - o que representa que a Bolsa ainda deve reagir à alta real dos faturamentos nas próximas divulgações de balanço financeiro. E, em segundo, que o nível de alocação de recursos dos fundos em ações ainda está baixo, em 6,9% neste momento. "Nosso pico histórico foi de 14% em 2007. Desde o impeachment da ex-presidente Dilma esse índice vem crescendo, com oscilações, e ainda tem muito o que andar", destaca.

Ciclo de alta

O atual ciclo de alta da Bolsa é motivado por um cenário externo favorável e pelo saldo até então positivo de tramitação da reforma da Previdência, apesar de alguns solavancos do próprio governo.

A máxima histórica do Ibovespa durante um pregão foi atingida na tarde de terça-feira, 19, aos 100.438,87 pontos. O índice, no entanto, ainda não teve fôlego para fechar uma sessão acima da marca.

Esse movimento de alta é uma resposta dos investidores internos, que estão mais confiante, apesar de já estar no horizonte próximo um início de regresso de capital estrangeiro à Bolsa. Nas sessões de terça, quarta e quinta-feira da semana passada, houve mais entrada de recursos de fora do que retirada.

No acumulado de março, o saldo estrangeiro é positivo em R$ 497,6 milhões e vai na direção contrária ao observado em fevereiro, quando foram retirados R$ 2,6 bilhões. No ano, o saldo ainda é negativo em R$ 597,2 milhões.

“Nos últimos três pregões, houve um bom ingresso de recursos estrangeiros”, destacou Alvaro Bandeira, economista-chefe do ModalMais. Para o analista-chefe da XP Investimentos, Karel Luketic, porém, uma entrada mais robusta de capital internacional só vai acontecer após a aprovação da reforma previdenciária.

Durante os negócios de segunda-feira, a superação dos 100 mil pontos ocorreu minutos após o ministro da Casa Civil afirmar não ter dúvidas de que a reforma será aprovada no primeiro semestre. Em entrevista ao Estadão/Broadcast, Onyx admitiu dificuldades na articulação com parlamentares, mas disse ser preciso “ter paciência”. O ministro confirmou que a proposta de Previdência dos militares será enviada ao Congresso na quarta-feira.

Nos Estados Unidos, o ministro da Economia também afirmou que o governo vai se apressar para levar a proposta dos militares até amanhã. Guedes disse ainda que, se a economia com o novo sistema previdenciário for menor do que R$ 1 trilhão em dez anos, “o compromisso com as futuras gerações é (será) relativo, o que é lamentável”.

As manifestações dos ministros foram interpretadas positivamente pelo mercado. “O quadro é de aprovação (da reforma na Câmara dos Deputados) ainda no primeiro semestre, o que atrai recursos”, disse Bandeira.

Do lado internacional, ajudou no avanço do Ibovespa as apostas de que o Federal Reserve (o banco central dos Estados Unidos) reduzirá, amanhã, a projeção de altas de juros para o ano, aumentando a liquidez internacional. Diante disso, o dólar perdeu força e, no Brasil, fechou em queda de 0,76%, a R$ 3,79.

Para Luketic, a tendência é que o Ibovespa continue subindo, conforme a agenda reformista seja implementada no País. “A grande dúvida é o tamanho da diluição (da reforma).” A XP tem como cenário-base a aprovação da reforma entre setembro e outubro, gerando uma economia para o governo de R$ 600 bilhões a R$ 700 bilhões em dez anos. Caso esse cenário se concretize, a estimativa é que o Ibovespa encerre 2019 na casa dos 125 mil pontos.

Apesar da marca simbólica dos 100 mil pontos, dados da Economática indicam que, em dólares, a Bolsa está em 25.855 pontos, bem abaixo do seu maior patamar: 44.616, registrados em maio de 2008.

Trajetória até os 100 mil pontos

Confira alguns pregões que marcaram a trajetória até a chegada aos 100 mil pontos.

18 de março de 2019 - Após as declarações do ministro da Economia, Paulo Guedes e do ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, a Bolsa atingiu pela primeira vez o patamar dos 100 mil pontos. Agentes do mercado consideram que a reforma tramita de acordo com as previsões.

22 de janeiro de 2016 - A Bolsa de Valores estava em 38 mil pontos, com as ações preferenciais da Petrobrás apresentando um recuo de 14,7% durante aquela semana, chegando ao valor de R$ 4,41, menor valor desde 2003. As ações da Vale eram negociadas a R$ 8,37.

27 de outubro de 2014 - Após a reeleição de Dilma Roussef, as ações das empresas estatais apresentaram forte recuo na Bolsa de Valores, com o pessimismo dos investidores sobre a política econômica do governo. A estatal petroleira fechou o dia com recuo de 12,33% (PN), e a Eletrobrás recuou 11,68%. O Ibovespa marcava 50.503 pontos.

10 de outubro de 2008 - Após a crise deflagrada nos Estados Unidos, os reflexos nas Bolsas de Valores pelo mundo já ocorriam com força. O Ibovespa sofreu um tombo de mais de 10% neste dia e, pela terceira vez em menos de duas semanas, o circuit breaker precisou ser ativado. A seguradora japonesa Yamato Life Insurance entrou com pedido de falência por conta da crise. Os mercados asiáticos eram vistos como mais estáveis que os europeus e norte-americanos, o que causou pânico entre investidores. A Bolsa operava a 35 mil pontos e, dias depois, chegou a 29 mil pontos.

5 de maio de 2008 - No dia, a Bolsa superava os 70 mil pontos. Dias antes, a agência Standard & Poor's havia elevado a classificação do rating soberano do Brasil para "BBB-", primeiro nível da faixa considerada pelo mercado como porto seguro para investimentos. Em três pregões depois do anúncio, o Ibovespa subia 9,6%.

5 de maio de 2004 - Em 2004, os preços do petróleo atingiam seu valor mais alto em 13 anos. Além disso, o ex-presidente do banco central americano, Alan Greenspan afirmava que o aperto monetário seria mais lento do que o esperado. A Bolsa operava perto dos 20 mil pontos.

2 de janeiro de 2004 - A Bolsa operava em sua máxima histórica, de 22 mil pontos, no primeiro pregão de 2004. Os analistas do mercado estavam otimistas com os fundamentos da economia brasileira e o risco país mergulhava 5,13%, para 444 pontos.

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