Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Com pesquisa eleitoral, dólar supera a marca de R$ 4 depois de 30 meses

Escalada da moeda americana em relação ao real foi na contramão do mercado internacional nesta terça-feira, 21, refletindo a preocupação dos investidores com a possibilidade de um segundo turno entre Bolsonaro (PSL) e um candidato do PT

Silvana Rocha e Simone Cavalcanti, O Estado de S.Paulo

21 Agosto 2018 | 10h03
Atualizado 21 Agosto 2018 | 21h24

Com a divulgação das pesquisas eleitorais, o dólar teve forte alta nesta terça-feira, 21. Às 17h25, o dólar turismo em espécie chegou a ser encontrado por até R$ 4,44 nas casas de câmbio, segundo levantamento do site MeuCâmbio.com.br. No cartão pré-pago, o valor atingiu R$ 4,63.

Já o dólar comercial teve alta de 2,13%, ultrapassando a marca dos R$ 4. A moeda fechou o dia cotada a R$ 4,04, maior valor de fechamento desde o dia 18 de fevereiro de 2016.

A moeda americana passou de R$ 4 pela primeira vez na história em 2015, no dia 22 de setembro. O patamar inédito foi atingido naquele pregão por conta do risco político no País. A preocupação com a crise fiscal brasileira dominava o mercado e a avaliação dos investidores era que o governo da então presidente, Dilma Rousseff, não seria capaz de passar ajustes no Congresso.

O dólar comercial é utilizado por empresas, bancos e governos para operações no mercado de câmbio, como transferências financeiras, exportações, importações, entre outros.

Já o dólar turismo é utilizado para viagens, transações de turismo no exterior e débitos em moeda estrangeira no cartão de crédito. Ele é mais caro pois é calculado com base no dólar comercial mais os custos das casas de câmbio com questões logísticas, administrativas e com seguro em caso de roubo, uma vez que as transações com dólar turismo são feitas em “dinheiro vivo”. Já as transações com dólar comercial são feitas de forma eletrônica.

Assim como no câmbio, a Bolsa também enfrentou um dia difícil. As ações das companhias brasileiras negociadas na B3 operaram no prejuízo em relação ao último pregão e o Ibovespa, índice com os principais papéis do mercado local, fechou o dia em queda de 1,50%, aos 75.180,40 pontos.

Alta da moeda atrapalha turistas

Além do dólar, outras moedas têm se fortalecido frente ao real. É o caso do euro, que teve uma alta de 6,71% só no mês de agosto. Nesta terça, a moeda subiu 2,96% frente ao real.

A enfermeira Tatiane Costa conta que sofreu com a valorização da moeda nos últimos dias. Ela embarca na quarta-feira, 22, para Florença, na Itália, onde vai fazer um curso de línguas. A proximidade da viagem obrigou que ela comprasse a moeda mesmo com preços altos.

“Decidi a viagem há cerca de apenas 20 dias. Mas o prejuízo vai ser grande, já que na semana passada a moeda estava cerca de 13 centavos mais barata”, afirma.

Na casa de câmbio em que Tatiane fez parte de sua compra, em um shopping da Zona Oeste de São Paulo, o euro era vendido a R$ 4,90, por volta das 15h30.

Mas nem todos sofreram com a alta das moedas estrangeiras nesta terça-feira, 21. Os produtores musicais e sócios Pedro Vinci e Fernando Rischbieter receberam, por um trabalho que realizaram no início do ano, seu pagamento em dólar. Já esperando o aumento da volatilidade da moeda com a proximidade das eleições, eles aguardaram para trocar o dinheiro e conseguir um lucro extra.

“Quando combinamos o valor do trabalho, a cotação da moeda estava em R$ 3,80. Com a moeda a R$ 4, ganhamos um pouco a mais”, conta Pedro.

É a mesma situação de Mario Souto, que viaja anualmente para Portugal. Com alguns euros que sobraram de sua última viagem, aproveitou para trocar a moeda. Na época ele conta que pagou cerca de R$ 4 pela divisa e conseguiu vendê-la por R$ 4,50 nesta tarde.

Pesquisas eleitorais ampararam preocupações

O operador de câmbio e derivativos do banco Paulista Alberto Felix de Oliveira Neto diz que o cenário trazido pelas últimas pesquisas eleitorais – MDA e Ibope, nesta segunda-feira, 20 – amparou preocupações entre investidores sobre quem vai para o segundo turno na eleição presidencial. "O mercado teme o aumento das intenções de votos em Lula e o risco de transferência de votos do petista para Fernando Haddad. Bolsonaro e Haddad no segundo turno trazem grande desconforto aos investidores", afirma. 

Na segunda-feira, a moeda americana fechou a R$ 3,9571 – a maior cotação desde 29 de fevereiro de 2016 (R$ 3,9984). Diante da persistente valorização, investidores mostram cautela em meio à desconfiança e comentários de que o Banco Central pode intervir para conter a escalada da moeda. Em alta em sete das últimas oito sessões, o dólar acumulou ganho de 5,12% ante o real no período até a última segunda-feira, 20.

Bolsa de Valores

Principal índice de ações do País, o Ibovespa marcou sucessivas mínimas a despeito das altas de seus pares no mercado dos Estados Unidos. "A Bolsa está acompanhando o estresse do mercado que ainda reverbera o resultado das pesquisas eleitorais que mostram Bolsonaro e o PT no segundo turno. É um movimento totalmente interno", disse Álvaro Bandeira, sócio e economista-chefe da ModalMais.

A Bolsa de Valores fechou o dia em queda de 1,50%, aos 75.180,40 pontos. A queda é generalizada nas ações que integram o índice. Destaque negativo do pregão, papéis da Gol fecharam o dia em desvalorização de 9,87%. Os da Azul também apresentaram recuo expressivo, de 3,38%.

No exterior, as bolsas de Nova York avançaram, com investidores na expectativa pela retomada do diálogo entre Estados Unidos e China, amanhã. Os agentes também repercutem as críticas de Donald Trump à iniciativa do Federal Reserve de apertar a política monetária. Em entrevista à Reuters, o presidente afirmou não estar "emocionado" com os aumentos de juros do Fed, sugerindo que o BC norte-americano deveria suspender a normalização de sua política, enquanto ele implementa suas políticas protecionistas. / COLABOROU GABRIEL ROCA

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