Artigo: Velhinha de Taubaté aplica em poupança

É bem verdade que o micro poupador, aquele que consegue aplicar R$ 50 ou menos cada vez que faz uma economia, encontra na caderneta de poupança a única alternativa viável de investimento, uma vez que fundos e outras modalidades de aplicação exigem aportes maiores. Verdade também é que a caderneta de poupança oferece isenção de Imposto de Renda, reembolso da CPMF para valores aplicados por mais de 90 dias e a não incidência de tarifa para a manutenção da conta poupança. Mas nem sempre a caderneta de poupança é o melhor investimento. Do ponto de vista prático, se o poupador aplica valores que passem de R$ 200 - ou se o saldo aplicado já for superior a R$ 200 - diria até que, definitivamente, a caderneta de poupança é um péssimo negócio. E tem sido muito ruim pelo menos nos últimos dez anos! Mesmo assim, o total de depósitos na caderneta de poupança, segundo dados do Banco Central, ultrapassa R$ 160 bilhões. Talvez porque uma parcela considerável da população brasileira comporte-se como a Velhinha de Taubaté, que se tivesse dinheiro sobrando, teria aplicado na caderneta de poupança achando que é garantida pelo Governo. Mas não é! O que garante o saldo da caderneta de poupança, caso o banco venha a quebrar, não é o Governo, mas sim o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), entidade privada e sem fins lucrativos criada em 1995, para aplicações de até R$ 20 mil. Além disso, é o próprio FGC que também garante no Brasil uma série de outras aplicações, ainda mais rentáveis que a poupança. Do ponto de vista da rentabilidade, a caderneta de poupança também virou história pra criança dormir. Independente do banco eleito para a aplicação, ela rende 0,5% ao mês, acrescida da Taxa Referencial (TR), que costuma ser muito baixinha, com rendimento de 0,1% a 0,2% ao mês. Isso a transforma em um investimento péssimo, em torno de 0,65% de rentabilidade ao mês ou 8,1% ao ano. Outras alternativas conservadoras de investimento, que não a poupança, estão sujeitas às dentadas do Leão via Imposto de Renda com alíquotas variando de 15% a 22,5% sobre o rendimento, dependendo do prazo que o dinheiro ficar aplicado. Por isso, dispondo de valores um pouco superiores a R$ 200 e assumindo alíquota de IR máxima de 22,5%, uma aplicação atrelada à Selic, que é a taxa de juros fixada pelo Banco Central e que gira hoje em 1,18% ao mês, oferecerá rendimento líquido de impostos em torno de 0,91% ao mês. À medida em que a taxa Selic for caindo, a alternativa caderneta de poupança vai ficando menos horrenda. Assumindo que o risco de se aplicar na caderneta de poupança seja o mesmo que aplicar em um título atrelado à taxa Selic, façamos uma escolha não muito difícil: aplicar a 0,91% ao mês ou a 0,65% no mesmo período? Mas para quem mesmo assim não desiste da poupança, pela fidelidade que tem às histórias de seus pais, há ainda uma luz no fim do túnel: rezar para que a taxa Selic chegue a um patamar abaixo de 11% ao ano, fazendo com que aplicar em caderneta deixe de ser uma tolice. Enquanto este dia não vem - e nem os economistas mais otimistas arriscam um data - vamos deixar bem claro: A Velhinha de Taubaté já morreu. E morreu pobre. Artigo de Rafael Paschoarelli, doutor e professor de Finanças da Universidade de São Paulo, palestrante e autor do livro "A Regra do Jogo - Descubra o que não querem que você saiba sobre o jogo do dinheiro", editado pela Saraiva

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