Atividade é a justificativa para corte de juro, diz economista

Juan Jensen, da Tendências, diz que próxima decisão do Copom vai depender das expectativas de inflação

Patricia Lara e Lucinda Pinto, da Agência Estado,

29 de janeiro de 2009 | 16h16

O economista da Tendências Consultoria Integrada Juan Jensen comentou que a ata do encontro do Comitê de Política Monetária (Copom) trouxe a confirmação das justificativas para o corte de 1 ponto porcentual da Selic, para 12,75%, que se concentraram na questão da atividade. "A justificativa vai toda no campo da atividade econômica e que tem refletido em um comportamento bastante benigno, e o BC coloca isso com todas as letras, nas taxas de inflação do consumidor e no atacado, como mostrou o IGP-M de hoje", disse Jensen, em entrevista ao AE Broadcast Ao Vivo.  Ouça a entrevista "O BC não coloca muitas indagações em relação ao futuro e a condução da política monetária para as próximas reuniões, que, nós sabemos, será ligada a dados conjunturais que sairão nas próximas cinco semanas." Para Jensen, não há sinais claros na ata que indiquem que o colegiado manterá a dose de redução de 1 ponto porcentual da Selic no próximo encontro. "Eles não dizem isso. Mas o principal ponto será as expectativas de inflação dos analistas. E estas devem seguir em trajetória de queda e podem se situar abaixo do centro da meta, talvez já na próxima reunião do Copom".  Para ele, há outras duas variáveis que serão consideradas na próxima reunião: os dados de atividade econômica e o câmbio. Lembrando que o dado do PIB do quarto trimestre sairá um dia antes da reunião de março do Copom, o analista da Tendências afirmou que ele deve trazer uma pintura muito ruim. "Mas temos que olhar com muita cautela a questão do câmbio. O câmbio ainda traz incerteza quanto ao repasse", observou Jensen, salientando, no entanto, que a sua percepção é de que o risco de repasse continua muito baixo. A despeito das ressalvas sobre o câmbio, o analista e sócio da Tendências, no entanto, reiterou sua expectativa de que a Selic ainda deve cair 1 pp na próxima reunião e recuar 2,75 pp no total do ano, alcançando 11% já na reunião de junho. "Deve ficar nesse patamar ao longo do segundo semestre. Em um cenário mais pessimista, esse ajuste pode ter uma magnitude maior. O risco é de um corte, efetivamente, maior, associado a uma atividade econômica mais fraca". Jensen embute nas suas expectativas a previsão de queda de 5,3% do dado da produção industrial em dezembro, ante novembro, dessazonalizada. Quanto à observação da ata de que a desaceleração da economia estaria relacionada ao esgotamento de estoques, Jensen destacou que isso se aplica, particularmente, ao setor automotivo, já que um carro fabricado em dezembro de 2008 tende a ter um preço inferior ao de fabricação em 2009. "A indústria automobilística vinha com estoques elevados." "Mas o ajuste de estoques é mais suave em outros setores, inclusive de bens duráveis, que não têm no ano de fabricação um determinante de preço. No caso de uma geladeira, o ano de fabricação não faz diferença", disse. "Devemos ver uma recomposição de produção no setor automotivo em janeiro. Mas o cenário é complicado para outros setores."  PIB Jensen disse que o PIB deve ter uma queda forte no quarto trimestre, projetando uma contração de 2%, em termos dessazonalizados, ante o terceiro trimestre. "Seria uma queda anualizada de 8%", ressaltou. "Quanto ao primeiro trimestre, devemos ver uma queda, mas não tão forte. Mas, de fato, existe uma probabilidade muito grande de o Brasil ter uma recessão técnica", destacou Jensen. Segundo a teoria econômica, dois trimestres consecutivos de PIB negativo configuram uma recessão técnica. "Mas, se olharmos para produção no setor automotivo, a produção tende a ser retomada. Não no patamar de 2008, mas, certamente, acima do nível de dezembro", observou. Para Jensen, vamos ver um vale no primeiro semestre. Mas, na medida em que essa crise for debelada e as ações acionadas no mundo surtirem efeito, o crédito tende a voltar e a economia voltará para uma trajetória de crescimento sustentável de 4%.  Sobre as preocupações com a inflação, Jensen salientou que ficou mais fácil para o BC perseguir o centro da meta de inflação. "Devemos ver uma inflação abaixo de 4,5%. Mas não devemos ver uma taxa rompendo a banda, que é bastante larga", destacou. Para Jensen, não é preciso mudar intervalo na reunião do Copom, como defendeu a Fiesp. "Precisamos de manutenção da regras e, se o Copom sentir necessidade de ajustar a taxa para cima ou para baixo, ele pode reunir seus integrantes a qualquer momento."

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