Austrália aumentou juro por estar em melhor forma

Para Ethan Harris, do Bank of America Merrill Lynch, país havia entrado na crise com sua economia forte

Luciana Xavier, da Agência Estado,

07 de outubro de 2009 | 15h15

O fato de a Austrália ter subido juro, não significa que outros bancos centrais seguirão logo o mesmo caminho, avaliou nesta terça-feira, 6, o chefe para América do Norte e coordenador para economia global do Bank of America Merrill Lynch (BofAML), Ethan Harris. O Reserve Bank of Austrália (RBA, banco central australiano) elevou as taxas de juros pela primeira vez desde março de 2008 - em 0,25 ponto porcentual para 3,25% - e foi o primeiro banco central do G-20 a fazê-lo. O primeiro país a subir o juro este ano, de 0,5% para 0,75%, foi Israel, em agosto.

 

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"A razão pela qual a Austrália foi o primeiro país a sair pelo portão e subir o juro é porque ela entrou nessa crise em boa forma e sofreu bem menos que outras economias. Não acho que seja sinal de início de altas de juros por muitos bancos centrais. A economia global ainda precisa de muito suporte do lado fiscal e monetário", afirmou Harris, em entrevista, por telefone, de Nova York, ao AE Broadcast Ao Vivo.

 

Para Harris, o Banco Central Europeu (BCE) deve começar o aperto monetário no segundo semestre de 2010 e o Federal Reserve (Fed) deve subir o juro nos Estados Unidos a partir do início de 2011. O juro na Zona do Euro está em 1% e nos EUA, no intervalo de faixa de 0,00% a 0,25%. "Ainda há um longo processo de cura para muitos países", disse. "Esse processo de cura deve ser mais longo para os países mais ligados aos EUA. Levará muitos anos antes que os sistemas financeiros estejam completamente recuperados e o mercado imobiliário tenha voltado aos trilhos", acrescentou.

 

Embora reconheça que o Brasil também tenha sofrido menos nesta crise, Harris avalia que o País deverá acompanhar o movimento da política monetária dos EUA. "Acho que na maioria dos países latino-americanos as altas de juros terão cronograma similar ao dos EUA. Países como o Brasil deve subir juro mais em conjunção com os passos do Fed do que antes dele", acredita. A Selic está em 8,75% e o último corte foi promovido em julho deste ano.

 

O BofAML elevou recentemente a projeção de crescimento do PIB do Brasil de 4,5% para 5,3% em 2010, com a economia "ainda operando significativamente abaixo do seu potencial, o que deve manter a inflação sob controle", informou Harris, em relatório do banco divulgado ontem. Ainda segundo o relatório, os EUA podem crescer 3% ou mais nos próximos dois anos. Para a economia global, a estimativa do banco é de crescimento do PIB de 4,2% em 2010 e 4,5% em 2011.

 

Dólar

 

Embora reconheça que a tendência do dólar nos próximos anos seja de enfraquecimento, Harris duvida que a moeda possa ser substituída no curto e médio prazo. O jornal britânico The Independent diz hoje que países do Golfo estão negociando com a China, Rússia, Japão e França para substituir o dólar por uma cesta de moedas nas negociações de petróleo. Segundo o jornal, até o BC brasileiro teria participado de encontros secretos com ministros de finanças e presidentes de bancos centrais. As autoridades de países do Golfo Pérsico negaram as informações.

 

"Não estou certo de que algo assim irá ocorrer. Já tivemos ameaças de desvincular o petróleo do dólar antes. Acho que é muito difícil se afastar de uma moeda de reserva. Historicamente, quando a libra esterlina perdeu seu status de moeda de reserva levou muito tempo para o dólar se tornar a moeda de reserva. Será também difícil deslocar o dólar e seguir adiante", disse.

 

Ele acredita que será mais fácil o dólar perder poder para uma cesta de moedas do que para uma única moeda, como o euro, que, segundo ele, ainda é uma moeda muito nova. "Concordo que com o tempo haverá uma mudança para se dar menos peso ao dólar em acordos globais e tentar achar meios de usar cestas de moedas em seu lugar. Não vejo o colapso do dólar, mas vejo o dólar perdendo seu status com o tempo", disse.

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