Aversão a risco gera saída de US$ 974 milhões do País

Banco JP Morgan espera que dólar atinja R$ 1,80 em dezembro e R$ 1,90 no final do próximo ano, enquanto para a LCA Consultores deve alcançar R$ 1,75 e R$ 1,82, respectivamente

Ricardo Leopoldo, da Agência Estado,

20 de maio de 2010 | 08h48

A saída de US$ 974,5 milhões do País na semana passada não está relacionada à aversão a risco de investidores em nível internacional em função da crise na Europa e este movimento não configura uma tendência de valorização do câmbio até o final do ano, ponderam analistas ouvidos pela Agência Estado. Naquele período, o fluxo comercial registrou déficit de US$ 677,2 milhões e o financeiro apresentou um resultado negativo de US$ 297,3 milhões. Apesar da forte volatilidade que marcou a trajetória deste ativo financeiro nos últimos 14 dias, os especialistas mantém suas projeções para a cotação do real ante o dólar para o final deste ano e do próximo. O banco JP Morgan espera que tal marca deve atingir R$ 1,80 em dezembro e chegar a R$ 1,90 no final do próximo ano, enquanto para a LCA Consultores deve alcançar R$ 1,75 e R$ 1,82, respectivamente.

Para o economista do JP Morgan, Julio Callegari, a valorização do câmbio registrada nas últimas duas semanas está vinculada à busca de ativos financeiros mais seguros em nível global, o que favoreceu especialmente o dólar dos EUA e prejudicou o euro; moedas muito vinculadas à variação das commodities, como o real e o dólar da Austrália e da Nova Zelândia; e as cotações de produtos que exibem preços internacionais, como o petróleo.

Uma das exceções é o minério de ferro, cujos valores de mercado estão em alta, sobretudo devido à demanda global pelo produto, com destaque para a China. "A movimentação do dólar no segmento spot representa uma parcela do mercado de câmbio cujas oscilações são dirigidas muito mais pelo mercado futuro", disse.

Na avaliação do economista-chefe da LCA, Bráulio Borges, a busca de porto seguro por parte de investidores ganha uma peculiaridade no Brasil, devido à valorização da bolsa de valores e do câmbio até meados de abril. No dia 14 do mês passado, o Ibovespa atingiu 71 mil pontos, uma apreciação de 56% ante o mesmo dia de 2009. Nesse período, a cotação do real ante o dólar dos EUA subiu 20%. "Ou seja, um investidor que ingressou no País em abril de 2009 e aplicou seus recursos no mercado de ações registrou um lucro total próximo a 75%, devido à soma da alta do Ibovespa e fortalecimento do câmbio no período", ressaltou.

Tanto Borges como Callegari acreditam que a volatilidade cambial não deve passar no curto prazo, dado o nível de grandes problemas fiscais exibidos por vários países europeus, como Grécia, Portugal, Espanha e Itália. "Em função daquelas dificuldades estruturais, não é possível prever quando a aversão a risco deve passar. Contudo, os fatos atuais não nos levam a alterar as previsões para o câmbio para este ano e 2011", comentou o economista do JP Morgan. "As incertezas dos investidores em relação à Europa são grandes, mas isso não vai interferir de forma permanente na cotação do real ante o dólar, que deve oscilar entre R$ 1,70 e R$ 1,80 até o final deste ano", destacou o economista-chefe da LCA.

Para Borges, o Brasil não deve sofrer desvalorização cambial em função da crise na Europa devido à solidez da economia nacional, que está crescendo de forma vigorosa. Segundo o secretário de Política Econômica, Nelson Barbosa, o Ministério da Fazenda estima que o País deve ter registrado uma expansão entre 7,5% e 8,5% no primeiro trimestre. O Banco Central espera que a economia avance 5,8% neste ano e o Ministério da Fazenda acredita que a taxa ficar entre 5,5% e 6,6%. Outro fator importante é o diferencial de juros, pois a taxa real ex-ante está em 6,47% no mercado doméstico, enquanto é negativa nos EUA, zona do Euro, Reino Unido e Japão.

"O real não deve se depreciar porque o País continuará recebendo um montante expressivo de recursos do exterior", comentou Borges. Ele estima que os investimentos estrangeiros diretos devem subir de US$ 25 bilhões no ano passado para US$ 40 bilhões em 2010, número que deverá ser repetido em 2011. Além disso, há a perspectiva de que o superávit comercial não deve cair de forma expressiva no próximo ano, pois deve chegar a US$ 14,9 bilhões neste ano e US$ 13,2 bilhões no próximo.

"Nesse contexto, o déficit de transações correntes, (que afeta a cotação do câmbio), deve ficar praticamente estável entre 2010 e 2011, pois deve atingir 2,2% e 2,3% do PIB, respectivamente", comentou o economista-chefe da LCA.

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