Balanço de bancos médios deve mostrar peso da crise na Petrobras

A suspensão de contratos, falta de pagamentos e falência de empresas satélites à cadeia de óleo e gás da Petrobras e das empreiteiras devem pesar nos balanços do primeiro trimestre dos bancos médios, sobretudo aqueles focados no crédito corporativo. Mas esse não é único desafio do nicho. A desaceleração econômica e a queda nos preços das commodities agrícolas igualmente ficarão evidentes nos números dessas instituições, que provavelmente começam o ano com lucros e retornos limitados.

CYNTHIA DECLOEDT, Estadão Conteúdo

03 Maio 2015 | 19h06

Embora praticamente todas as instituições de nicho tenham citado baixa exposição em relação as suas carteiras de empréstimo as empresas citadas na Lava Jato e à cadeia de óleo e gás da Petrobras no trimestre passado, sabe-se que o risco está no efeito dominó de tal crise, ou seja, clientes dessas instituições. Ao mesmo tempo, as três companhias do setor de construção pediram recuperação judicial, OAS, Grupo Galvão e Schahin Engenharia têm créditos tomados nesses bancos, como o caso do Pine, que deve dobrar suas provisões no primeiro trimestre.

Os analistas esperam aumento de provisão também no Banco ABC Brasil e no Bicbanco, que assim como o Pine têm sua carteira de crédito concentrada no crédito para empresas corporate (com faturamento acima de R$ 500 milhões ao ano). Tirando esses três, os demais bancos de nicho têm carteiras um pouco mais diversificadas. Daycoval está focado nas empresas de menor porte e concentrado em prazos de empréstimos de até um ano, além do crédito consignado ter importante participação da carteira como um todo. O Banco Banrisul também diversifica no consignado e em sua operação com adquirência e cartões, enquanto o BI&P tem buscado crescer no crédito agrícola. Analistas esperam que essas instituições também reforcem provisões.

O provisionamento será pesado no primeiro trimestre", prevê o economista e analista de bancos da Lopes Filho Consultoria, João Augusto Salles. Ele explica que no primeiro trimestre os bancos não tinham visibilidade dos problemas da Petrobras sobre o potencial das perdas para o setor produtivo. "Existia incerteza sobre as perdas da Petrobras com propina, o valor de baixa dos ativos, implicações na sua operação e investimentos, o que se refletia na ampliação do risco da cadeia de óleo e gás e das empreiteiras", observou o analista.

Ele destaca que a divulgação do balanço da petroleira trouxe luz a tais questões e deve levar os bancos a melhor mensurar as provisões. "O risco não diminuiu, mas as provisões, ainda que permaneçam em patamar elevado, podem desacelerar de ritmo no segundo semestre, com o destravamento nas operações da Petrobras", calcula. De todo modo, acrescenta, a dinâmica das provisões continuará consumindo a lucratividade dos bancos médios.

Salles diz que diante desse desafio, os bancos médios vão seguir mostrando caixa elevado. "Essas instituições são testadas pelo mercado em momentos como este, além de elevar as provisões, desaceleram o crédito e mostram caixa para tranquilizar as assets, que são as provedoras de funding", afirmou.

Os analistas do GBM disseram que as despesas com provisões devem ser o maior problema para os bancos de médio porte, reduzindo a lucratividade desse segmento no trimestre. Segundo comentaram em entrevista, o fator positivo para tais instituições é que conseguiram reprecificar os créditos na esteira de uma menor competição com os bancos maiores. "Mesmo assim, isso não será suficiente para compensar o efeito adverso das provisões", observam.

O GBM acredita que as provisões do Pine subirão 270% no primeiro trimestre em relação ao mesmo período do ano passado, para R$ 46 milhões, e que o lucro cairá 80% no mesmo período para R$ 7 milhões. O ABC Brasil deve elevar em 80% das provisões para R$ 46 milhões no primeiro trimestre, mas ainda assim registrar aumento anual de 15,4% em seu lucro para R$ 81,4 milhões. Para o Bicbanco, a projeção do GBM é de elevação de 50,6% das provisões para R$ 95,1 milhões, enquanto o resultado previsto é de prejuízo de R$ 50 milhões. Para o Daycoval, a previsão do GBM é de queda de 14,2% nas provisões em um ano para R$ 108,7 milhões no primeiro trimestre, enquanto o lucro líquido deve subir 47,2% para R$ 103,9 milhões.

Os analistas do Banco Votorantim acreditam que o ABC fechará o trimestre com provisões de R$ 52 milhões e lucro líquido de R$ 84 milhões. Para o Banrisul, os analistas estimam provisões em R$ 223 milhões e um lucro líquido de R$ 186 milhões. O Votorantim espera que o Daycoval apresente provisões de R$ 111 milhões no primeiro trimestre e lucro líquido de R$ 95 milhões.

Já os analistas do BTG Pactual calculam o lucro líquido do Pine no primeiro trimestre em R$ 17 milhões, para o Banco ABC Brasil um lucro líquido de R$ 79 milhões, enquanto avaliam que o Banrisul mostrará lucro líquido de R$ 192 milhões e o Daycoval, de R$ 87 milhões.

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