Banco Merrill Lynch prevê boom de construção no Brasil

O banco de investimentos Merrill Lynch acredita que o setor de construção brasileiro viverá, nos próximos dez anos, um "histórico boom de crescimento sustentado". A condição para que o movimento se confirme é que as empresas do ramo comecem a atuar com força maior em empreendimentos voltados para o público de baixa renda, afirma o analista Carlos Peyrelongue, em entrevista à Agência Estado. Para que elas explorem o segmento, observa o profissional, é necessário que o governo participe, de fato, estimulando o financiamento habitacional. Na avaliação do analista do Merrill, o Brasil verá um crescimento duradouro do setor de construção e que perdurará por alguns anos. "Assim como ocorreu nos Estados Unidos no pós-Guerra ou na Espanha dos anos 80 e 90", afirmou o profissional. É voz corrente no mercado financeiro que a grande concentração de IPOs (ofertas públicas iniciais, na sigla em inglês) de empresas do segmento imobiliário nos últimos tempos ilustra a avaliação do investidor estrangeiro de que o Brasil tem as mesmas condições que o México teve, no início dos anos 2000, para viver seu boom. "Neste momento, as semelhanças entre os casos brasileiro e mexicano são enormes. Os dois países têm uma grande concentração de população em idade jovem e com um déficit habitacional elevado, particularmente, para as pessoas de menores rendas." Ele lembra ainda que, no caso mexicano, o setor de imóveis transformou-se em uma história de investimento de sucesso por conta da atuação do governo, que liberou linhas muito claras de financiamento para a aquisição de imóveis no valor entre US$ 20 mil e US$ 50 mil. "No Brasil, ainda não existe, de fato, este tipo de estímulo declarado. No entanto, enxergo o recém divulgado Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e as outras medidas de estímulo já sinalizadas como os passos iniciais em direção ao financiamento habitacional", afirmou. A sugestão do analista é a de que o governo prossiga com as medidas e que viabilize a concessão de financiamentos com recursos do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), com uma fórmula clara e transparente e que permita juros menores e abatimento da conta, para pessoas que têm emprego fixo. "O risco de empréstimos para a renda mais baixa não poderá ser assumido inteiramente pelos bancos ou pelas companhias. O governo tem de atuar com força, a meu ver usando o FGTS, em modelo similar ao adotado pelo México", explica o analista. "Não se trata de um subsídio, mas de permitir um uso diferenciado do FGTS e de uma maneira muito correta. Quem não pagar as prestações, deve ter de entregar o imóvel, como no caso mexicano", afirmou. Uma das mais fortes sinalizações da forte demanda no setor no Brasil é o déficit de moradias, estimado pelo banco em 7,9 milhões de unidades - 37% concentradas no Sudeste, incluindo Rio e São Paulo. O relatório destaca que a imensa maioria da carência brasileira, 96%, se encontra na população de baixa renda, classificada pelo banco como aqueles que recebem até 5 salários mínimos, ou cerca de R$ 1.900 por mês. Em termos de valores de apartamentos ou casas, a faixa seria da ordem de R$ 80 mil, informa Peyrelongue. O documento também cita dados Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre a população brasileira. Em 2000, o grupo que o Merrill classifica como o dos principais compradores de imóveis, com idades que variam de 25 a 50 anos, representava perto de 36% da população total do País. O IBGE estima que, em 2020, o porcentual crescerá para perto de 45%.

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