Bancos vão atrás de investidores mais ousados

Os grandes bancos brasileiros correm para se adaptar ao cenário em que o investidor procura aplicações de maior risco. O Itaú, por exemplo, engajou-se numa estratégia de reforçar a área de fundos multimercados no início de 2005. De acordo com o superintendente de fundos multimercados e derivativos da instituição, Marcello Siniscalchi, essa opção deveu-se ao fato de que "o banco percebeu, de forma acertada, que haveria um processo mais forte de queda das taxas de juros num curto espaço de tempo". Ele explica que a área teve reforços, hoje conta com cinco economistas e funciona como um nicho dentro do Itaú, que procura gerir os fundos multimercados da mesma forma que as empresas especialistas, como a Gávea, do ex-presidente do Banco Central (BC), Armínio Fraga, e a Mauá, do ex-diretor do BC Luiz Fernando Figueiredo. "Eles são nossos concorrentes', diz Siniscalchi. Todos os participantes do mercado atestam a forte demanda pelos fundos de maior risco e retorno. No Itaú, o fundo K2 saiu de um patrimônio de R$ 32 milhões no fim de 2005 para R$ 1,05 bilhão no fim de 2006, e foi fechado (o que é comum nesse tipo de produto, já que uma dimensão excessiva pode reduzir a agilidade e complicar a operação em mercados menos líquidos). Terreno desconhecido O principal fundo da Mauá, com patrimônio total de R$ 1,3 bilhão, também foi fechado. "Teríamos demanda para dobrar", garante Figueiredo. Ele observa que, até há pouco tempo, o típico aplicador brasileiro estava acostumado a uma rentabilidade, líquida de impostos, de 10%, 12% ou até mais em termos reais ao ano, em investimentos sem nenhum risco e com liquidez diária. Era tipicamente o que rendiam os fundos DI, nos quais o gestor simplesmente adquire títulos públicos com características que permitem garantir ao cotista liquidez diária e rentabilidade próxima ao do overnight, regido pela taxa básica, a Selic. Mas, com a queda da Selic de 19,75%, em agosto de 2005, para o nível atual de 13%, a rentabilidade dos fundos DI despencou junto. Figueiredo observa que hoje o investidor recebe algo com 6% ao ano líquidos, em termos reais, o que já coloca os fundos DI colados à poupança. 'Agora, já não está funcionando aquela idéia de 'por que eu vou ter risco se ganho 10% acima da inflação?'", afirma. Em outras palavras, para manter a rentabilidade do passado é preciso se arriscar, e aí o aplicador entra num terreno novo e de certa forma desconhecido, especialmente pela classe média. Outro ex-diretor do BC que se lançou recentemente nesse segmento é Ilan Golfajn, que fundou a Ciano, no Rio, com um grupo de profissionais com longa experiência no mercado financeiro. A Ciano já fechou um fundo com liquidez diária, que acumulou R$ 100 milhões em dois meses e lançou outro fundo com prazo de resgate de 60 dias (mas com a cota do dia em que a desaplicação foi pedida). "A nossa expectativa é de que esse novo fundo acumule, até o fim do ano, várias vezes o patrimônio do que foi fechado", prevê Goldfajn. Bovespa Na Gávea, de Armínio Fraga, o principal fundo, o Gávea Brasil, com R$ 1,5 bilhão, também está fechado. Outro exemplo da forte demanda pelos fundos de maior risco vem do Unibanco. Nos dois primeiros meses de 2007, os fundos de ações captaram 90% mais do que no mesmo período de 2006, e os multimercados, 107% a mais. Segundo Ronaldo Patah, superintendente de renda variável da Unibanco Asset Management (UAM), a captação total em toda a família de fundos foi mais ou menos igual à de janeiro e fevereiro de 2006, com um desempenho negativo dos fundos DI e uma redução de 30% nos de renda fixa. Outro exemplo do aumento do apetite de risco do brasileiro foi a ampliação de 9,7% para 24,6% da participação de investidores pessoas físicas no volume de operações da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) entre 1994 e 2006.

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