BC age certo ao subir juro, diz O´Neill

Para economista do Goldman Sachs, maior desafio é manter a estabilidade num cenário de inflação baixa

Luciana Xavier e Daniela Milanese,

06 de junho de 2008 | 16h09

O economista-chefe do banco Goldman Sachs, Jim O`Neill, criador do termo Bric(Brasil, Rússia, Índia e China), elogiou a decisão do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) de elevar a taxa Selic em 0,5 ponto porcentual, para 12,25% ao ano, sem viés, na última reunião. "Foi uma decisão muito apropriada. Nos últimos anos, o Banco Central brasileiro tem feito um trabalho fantástico no sentido de ganhar credibilidade com a tarefa de manter a inflação baixa", avaliou, de seu escritório em Londres.  Ouça a entrevista Segundo ele, em relação aos demais países emergentes, o Brasil mostra-se o mais preparado para conter a inflação. "Alguns países em desenvolvimento na Ásia, incluindo alguns do Bric, como a Índia, nos últimos meses, têm se mostrado mais relutantes em usar medidas oficiais para controlar preços e evitando aperto na política monetária.  Há alguns erros que os países em desenvolvimento fizeram nos anos 70 que não deveriam fazer de novo. Mas o Brasil tem feito um bom trabalho e o que o BC fez ontem faz muito sentido", comentou. Para O´Neill, o Brasil pode até crescer menos, mas não pode ter de volta uma inflação alta. "Dada a história do Brasil, mais inflação seria ruim. Não acho que seria um desastre se o crescimento desacelerasse um pouco. Mas o que o Brasil tem que evitar é criar a mesma dinâmica perigosa de inflação que existiu 1970 e 2000. Foi isso que, na minha opinião, destruiu o potencial do Brasil de ser uma grande e excitante economia (no passado) e que voltamos a vislumbrar para o futuro", afirmou. Para o economista, tido por muitos como guru por suas projeções, a inflação hoje é um risco para o País, porém um risco modesto. "O que o Banco Central fez ontem me deu mais confiança em um risco pequeno e não grande (de inflação)", disse O´Neill. UpgradeO´Neill vê exagero na importância atribuída ao grau de investimento recebido recentemente pelo Brasil. Isso porque ele avalia que a nota já estava precificada pelo mercado. "Foi um reconhecimento de que o Brasil é um lugar de maior confiança, o que o mercado já esperava", disse. "Por isso, o benefício do grau de investimento é pequeno." Para O´Neill, o mais importante é o que vem agora pela frente. Ele acredita que o novo objetivo deveria ser a reforma tributária. Segundo o economista, se o País melhorar sua posição fiscal pode conseguir outros upgrades das agências de risco. "O Brasil deveria tentar de forma mais intensa fazer a reforma fiscal." Conforme o especialista, a questão não é crítica no curto prazo. No entanto, se daqui a dez anos as commodities estiverem num patamar mais baixo e o País não tiver feito a reforma, não conseguirá manter o crescimento do PIB em 5%. Nesse sentido, ele vê com bons olhos o esforço adicional de 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB) anunciado na semana passada pelo governo, que deve ser transformado em meta conforme o ministro do Planejamento, Orçamento e Gestão, Paulo Bernardo. Mas, para O´Neill, o maior desafio de todos é confirmar que o Brasil é capaz de manter a estabilidade num cenário de inflação baixa. O economista-chefe do Goldman Sachs avalia que é "impossível" o Brasil registrar crescimento econômico da mesma magnitude que a China ou a Índia. "O País não tem a mesma população nem o processo de urbanização em curso como nos demais", afirmou. Mas ele avalia que o Brasil possui condições de crescer 5% ou mais até o final da década. O´Neill é o criador da sigla Bric, ao afirmar em novembro de 2001 que Brasil, Rússia, Índia e China passariam a ganhar importância para a economia mundial. No entanto, quando lançou a tese, o economista foi muito criticado pela presença do Brasil no grupo. "Agora já não ouço as pessoas dizendo isso." Indagado sobre o que gostaria de dizer a esses críticos, afirmou: "Vejam o que está acontecendo com o Brasil agora, conseguiu o grau de investimento e o mercado de ações este ano é o mais forte entre os Brics. Todos os motivos que nos faziam achar que o Brasil merecia estar no grupo começam a aparecer". O´Neill disse que gostaria de ver o País passar por um período de cotações mais baixas das commodities, pois atualmente "tem sido fácil" conduzir a economia. Ele acredita na possibilidade de retração de 20% do preço das matérias-primas no médio prazo. "Minha suspeita é de que o Brasil poderia crescer um pouco menos, mas o benefício da inflação baixa surpreenderia." EUAO Federal Reserve (Fed) chegou ao ponto em que deve manter as taxas de juros inalteradas por algum tempo, avaliou O´Neill. Os Fed Funds estão em 2% após um agressivo ciclo de corte de juros iniciado no ano passado e a próxima reunião do Fed será no dia 25 de junho. "Certamente, por causa da inflação, que o Fed irá parar com o afrouxamento monetário e pode ser por causa dela que irá subir os juros mais para frente. Mas, no curto prazo, o Fed deverá manter os juros inalterados para ter certeza que a desaceleração não se transformará em uma depressão profunda. Se for bem-sucedido, no final deste ano, começo do ano que vem poderá subir os juros", afirmou. Segundo ele, os Estados Unidos estão perto de uma recessão. "Mas não devemos ser tão negativos sobre o que ocorre com os Estados Unidos", disse. Para O´Neill, o mercado consumidor norte-americano é menos importante para o mundo e uma recessão não profunda, que ocorra de forma lenta, não trará impactos negativos. Além disso, poderá ajudar os EUA a fazer ajustes e encontrar o reequilíbrio, disse, citando a melhora da balança comercial norte-americana. O´Neill disse que o dólar pode ter atingido ou estar perto de atingir seu piso em relação ao euro e mesmo ante o real. Esta manhã, o euro superou US$ 1,55. O economista acredita que daqui a um ano o euro estará valendo ao redor de US$ 1,40. "Se o dólar ficar mais forte em relação ao euro, deve se recuperar também em relação às demais moedas, provavelmente ante o real. Não sei se há mais espaço para o real valorizar muito mais. O real pode ter mais valorização nas próximas semanas ou meses, mas se o euro chegar a US$ 1,40, certamente o real também ficará mais fraco", comentou. O´Neill acredita que os Brics (Brasil, Rússia, Índia e China) continuam sendo "a melhor história da nossa geração". Hoje, esses países respondem por 15% do PIB mundial, fatia que deve subir para 25% em 10 anos, prevê o especialista. Ele disse que a bem-sucedida estratégia da China para tirar parte da população da pobreza acabou incentivando outros países a buscarem o caminho da globalização. Dessa forma, nações africanas surgem agora com boas perspectivas econômicas, caso da Nigéria e Egito, acredita.

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