Bolívia volta a acusar Petrobras e ministro apela a presidentes

O governo boliviano retomou a carga contra a Petrobras, acusando a empresa de travar o processo de nacionalização da indústria do petróleo e gás no país, em mais uma demonstração de que, apesar das versões oficiais, um acordo entre as duas partes está longe de ser concretizado. Mais de três meses já se passaram desde a publicação do Decreto de Nacionalização de 1º de maio, e até agora poucos avanços foram obtidos, segundo fontes dos dois lados."A novidade na questão da Bolívia é que não há novidade", afirmou ontem o diretor de Gás e Energia da Petrobras, Ildo Sauer. O executivo não quis comentar declarações recentes de La Paz, seguindo posição definida pela direção da estatal no início da crise de não polemizar com os bolivianos. "Respeitamos as manifestações das autoridades bolivianas e não vamos ficar rebatendo", concluiu.Negociadores de ambos os lados afirmam que as reuniões têm transcorrido em clima de cordialidade, focando apenas questões técnicas. "Internamente, tudo tem andado muito bem. Esta crise é criada pela imprensa", disse ao jornal O Estado de S.Paulo o vice-ministro boliviano de Industrialização e Comercialização de Hidrocarbonetos, Willam Donaire, alegando que as declarações têm sido mal interpretadas.Mas é fato que, desde o início das negociações, representantes do governo boliviano vêm repetindo sistematicamente acusações variadas contra a Petrobras. Segundo as autoridades locais, a estatal brasileira teria comprado ativos a preços irrisórios, fraudado a medição de combustíveis e feito acordos lesivos ao país. No início do ano, o presidente Evo Morales chegou a usar o termo "contrabandista" para se referir à estatal brasileira e a outras multinacionais que operam no País.A última acusação foi feita pelo ministro dos Hidrocarbonetos, Andrés Soliz Rada, na terça-feira, em reunião com parlamentares bolivianos. Na ocasião, Soliz afirmou que a Petrobras vem "impondo obstáculos" ao processo. "Creio que precisaremos voltar ao elemento político, à relação entre os presidentes (Luiz Inácio) Lula da Silva e Evo Morales para avançar nos temas que estão travando", afirmou o ministro, segundo o diário La Razón.Para observadores locais e representantes da oposição, a lista de acusações tem como objetivo camuflar as dificuldades que o governo boliviano vem enfrentando para pôr em prática o processo de nacionalização dos ativos, seja pela falta de quadros técnicos ou pela falta de recursos - na semana passada, o ministério admitiu que a estatal local YPFB precisa de um empréstimo de US$ 180 milhões para assumir a operação de todas as funções determinadas pelo decreto.Executivos da Petrobras afirmam que até hoje não foram apresentadas minutas de contrato nem propostas de indenização pela estatização de ativos. O decreto de nacionalização dá um prazo de 180 dias, que termina no início de novembro, para que todas as negociações sejam concluídas."Estamos realizando auditorias nos ativos e desenhando os contratos para apresentar às empresas", rebateu Donaire. Ele não quis detalhar os termos dos novos contratos, alegando que não vai negociar pela imprensa.

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