WERTHER SANTANA/ESTADAO
WERTHER SANTANA/ESTADAO

Com incertezas na Previdência e piora no cenário externo, dólar vai a R$ 3,88

Cotação da moeda americana foi a mais alta do ano e, para especialistas, real deve continuar perdendo valor; dificuldade do governo para construir base para aprovação da reforma e corte na projeção de crescimento da Europa preocupam mercado

O Estado de S.Paulo

07 de março de 2019 | 11h00
Atualizado 07 de março de 2019 | 22h33

A deterioração das perspectivas para a economia global e a falta de articulação política do Palácio do Planalto com o Congresso para aprovar a reforma da Previdência levaram o dólar a subir pela quarta vez consecutiva, fechando nesta quinta-feira, 7, a R$ 3,88, em um indicativo de que a lua de mel do mercado financeiro com o governo de Jair Bolsonaro está sofrendo abalos.

A cotação do dólar foi a mais alta desde 27 de dezembro. Durante o dia, a moeda superou a barreira dos R$ 3,90, mas recuou após Bolsonaro defender a reforma previdenciária em uma rede social. “Avanços que o Brasil precisa dependem da aprovação da nova previdência”, disse o presidente. A menção à reforma também ajudou o Ibovespa, principal índice da B3, a subir 0,13%, fechando a 94.340 pontos e interrompendo uma sequência de quatro quedas.

O fortalecimento do dólar ontem não ocorreu apenas diante do real, mas de quase todas as moedas globais. Pesou para a valorização da moeda americana a decisão do Banco Central Europeu de reduzir as projeções de crescimento da zona do euro.

Para a economista Alessandra Ribeiro, sócia da consultoria Tendências, porém, o cenário político tem sido preponderante na desvalorização do real. “O início do governo está bastante tumultuado. Esse episódio do Carnaval (a publicação na internet feita pelo presidente de um vídeo com atos obscenos) também contribui para o investidor ficar mais cauteloso.” Alessandra destacou que faltam sinais concretos de que Bolsonaro está trabalhando para construir a base necessária para aprovar a reforma. Segundo ela, posts do presidente defendendo a reforma não deverão continuar segurando a cotação do real.

O sócio de uma gestora paulista, que pediu par a não ser identificado, disse que a volta da reforma previdenciária entre os assuntos do presidente nas redes sociais é positiva, mas que o mercado precisa ver avanços concretos na tramitação do projeto no Congresso. Ele classificou a articulação do governo como “muito ruim”.

Em relatório, o Banco Fator afirmou que o real “apanha desde ontem (quarta-feira) mais do que quase todas as moedas emergentes”. O documento destacou que, em geral, as declarações do presidente pelas mídias sociais preocupam o governo e seus apoiadores, “o que tem reflexos na avaliação dos mercados sobre a capacidade de governar” de Bolsonaro.

Especialistas apontam que o real deve continuar perdendo valor. A consultoria Capital Economics e o banco alemão Commerzbank não descartam que o dólar volte a testar níveis acima de R$ 3,90 nas próximas semanas por eventuais decepções com a desidratação da reforma. No acumulado do ano até 1º de março, os investidores estrangeiros já retiraram R$ 1,6 bilhão da B3 – R$ 2,6 bilhões apenas em fevereiro. /ALTAMIRO SILVA JUNIOR E LUCIANA DYNIEWICZ

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