REUTERS/Brendan McDermid
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Piora da guerra comercial derruba bolsas no mundo e leva dólar a R$ 3,96

Temor de que disputa entre EUA e China inclua também um embate cambial desestabilizou mercados e fez Ibovespa recuar 2,51%; governo chinês permitiu que o yuan perdesse valor e suspendeu compra de produtos agrícolas americanos

Luciana Dyniewicz e Eduardo Gayer, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2019 | 17h43
Atualizado 05 de agosto de 2019 | 22h08

A China revidou o ataque da semana passada do governo americano de Donald Trump com novas armas: política cambial e suspensão de compra de produtos agrícolas dos Estados Unidos. O Banco do Povo da China (PBoC), o banco central chinês, permitiu que a moeda perdesse valor e atingisse a barreira psicológica de sete yuans por dólar, valor que não era registrado desde 2008.

O temor de que a escalada da guerra comercial inclua também um embate cambial desestabilizou o mercado em todo o mundo. Em Nova York, os recuos nas Bolsas ficaram entre 2% e 3%. No Brasil, o Ibovespa (principal índice da Bolsa) caiu 2,51% e fechou a 100 mil pontos. Já o dólar avançou 1,66% e atingiu R$ 3,96 – a maior cotação desde 30 de maio.

Na quinta-feira passada, Trump havia anunciado a imposição de uma tarifa de 10% sobre US$ 300 bilhões em produtos chineses, fazendo com que quase todas as mercadorias da China exportadas para os EUA sejam taxadas. Tanto na quinta quanto nesta segunda-feira, Trump criticou Pequim por desvalorizar sua moeda artificialmente para tornar os produtos chineses mais baratos, alavancando as exportações.

O secretário do Tesouro dos EUA, Steven Mnuchin, designou a China como “manipuladora cambial” e anunciou que irá se reunir com o Fundo Monetário Internacional (FMI) para “eliminar a vantagem competitiva injusta criada pelas ações mais recentes da China”.

No início da manhã de terça-feira (horário da China), o Ministério do Comércio chinês afirmou em nota que as medidas de Trump “são uma séria violação do encontro entre os chefes de Estado da China e dos Estados Unidos” na cúpula do G20, no fim de junho.

O banco chinês afirmou que a taxa de câmbio está em “nível apropriado” e que não usará o câmbio como ferramenta para lidar com disputas comerciais, em meio à tensão recente no comércio entre as duas potências.

Para economistas, o aumento das tensões entre os dois países indica que as negociações estão longe de ser concluídas – ao contrário do que muitos pensavam – e que o freio na economia global vai ser ainda mais forte. No fim de julho, o FMI já havia reduzido a previsão de crescimento para este ano de 3,3% para 3,2%. No ano passado, a economia global registrou expansão de 3,6%.

“No curto prazo, haverá uma desaceleração da economia adicional”, diz Livio Ribeiro, economista do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV). “O que estamos vendo não é apenas uma guerra comercial, mas uma discussão geopolítica de quem vai dominar o mundo nos próximos 50 anos. Talvez estejamos em uma nova guerra fria”, acrescentou.

Ribeiro destacou que ainda é cedo para saber se as medidas chinesas são um evento isolado ou uma mudança no tom das respostas que o país vinha adotando, sempre mais moderadas quando comparadas com as americanas.

Impacto

Além de frear a economia global, a escalada da guerra traz uma preocupação extra para os países emergentes como o Brasil. Deve haver uma onda de aversão ao risco, fazendo com que investidores deixem os emergentes para apostar em países tidos como mais seguros. Segundo o economista-chefe do Modalmais, Álvaro Bandeira, nesse caso, o câmbio sofreria mais do que a Bolsa, dado que os investidores estrangeiros têm pouca presença no mercado acionário brasileiro.

Bandeira diz ainda que o fato de o Brasil estar avançando na agenda de reformas não o protege do cenário internacional. “Não dá para fugir (de uma desaceleração global) e pensar que vamos voltar em 2008, quando todos recuaram e o Brasil, não.”

Economista-chefe da Rio Bravo Investimentos, Evandro Buccini afirma que o Brasil poderá, novamente, ampliar as exportações de produtos agrícolas para a China, mas, o impacto negativo com a desaceleração do comércio internacional será predominante.

‘Efeito cascata’ da moeda fraca

Países com moedas mais fracas podem ter grandes vantagens quando vendem produtos em outros lugares. Isso pode ajudá-los a reduzir preços ou ser mais competitivos em países com moedas fortes. Trump há muito critica a China por ter tomado esse rumo, algo que Pequim nega.

Se a China desvalorizar ainda mais sua moeda, países que competem em setores semelhantes, como a Coreia do Sul, poderão ter de fazer o mesmo. Essas espirais de desvalorização podem levar a uma inflação mais alta, reduzir gastos das famílias e incentivar a alta de tarifas ou o protecionismo. Uma desvalorização significativa também poderia prejudicar a própria China, pois muitas de suas empresas têm dívidas em dólar.

Por tudo isso, as desvalorizações deixam investidores nervosos. Em 2015, quando a China reduziu o valor de sua moeda, as Bolsas tiveram forte queda. Desta vez, muito depende da resposta de Trump, já que a desvalorização ajuda a amenizar o custo da alta das tarifas.

 

 

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