Rahel Patrasso/ Reuters
Rahel Patrasso/ Reuters

Bolsas fecham em alta após Powell descartar ritmo mais forte de aumento de juros nos EUA

O receio de que o Fed fosse muito duro na reunião de política monetária de hoje, que encheu de cautela e derrubou os mercados nos últimos dias, foi afastado pelo presidente da autoridade monetária, Jerome Powell

Bárbara Nascimento e Antonio Perez, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2022 | 18h03

SÃO PAULO - O Ibovespa encerrou o dia em alta de 1,70%, aos 108.343,74 pontos. O patamar, conquistado praticamente na última hora do pregão, colocou o índice bem longe da mínima do dia (104.932,97 pontos) e reverteu a perda semanal. No acumulado desta semana, a referência da bolsa sobe 0,43%.

O receio de que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) fosse muito duro na reunião de política monetária de hoje, que encheu de cautela e derrubou os mercados nos últimos dias, foi afastado pelo presidente da autoridade monetária, Jerome Powell. Se havia alguma dúvida após o comunicado da decisão de juros, a coletiva de imprensa veiculada por Powell afastou a possibilidade de uma alta de 75 pontos nos juros, o que retirou pressão das bolsas globais e abriu espaço para o Ibovespa voltar aos 108 mil pontos.

O índice foi suportado, ainda, por um avanço sustentado das ações das petroleiras. Com o barril do Brent em alta superior a 5%, as ações da Petrobras subiam de forma consistente, com os papéis preferenciais da companhia avançando mais de 6%. PetroRio e 3R Petroleum ganharam 5,81% e 4,68%, respectivamente, esta última apesar do prejuízo líquido de R$ 335,17 milhões reportado no primeiro trimestre.

No minério, por sua vez, uma leve queda da commodity em Qingdao, na China, levou mineradoras e metalúrgicas a pesarem negativamente no índice, com Vale recuando 0,84%.

Com o tom bem mais suave do que o esperado, as bolsas tiveram alívio globalmente, renovando máximas aqui e em Nova York. Tanto que Dow Jones e S&P500 fecharam o dia em altas superiores a 2,8%.

"Powel foi na direção de sinalizar mais duas altas de 50 ponto e também dizer ao mercado que não é um dado ou outro que vai fazê-lo mudar de opinião, é um conjunto de informações. Isso retira incerteza. Fica um pouco mais claro que não teremos surpresas mais duras nos próximos meses", aponta Fernando Fenolio, economista-chefe da WHG, completando: "Com essa sinalização, tirando a chance de 75 pontos e dando previsibilidade, o mercado reagiu bem".

O mercado ainda espera a decisão de política monetária brasileira, marcada para hoje às 18h30. Os investidores monitoram sobretudo as sinalizações do Comitê de Política Monetária (Copom) para a próxima reunião e apostam que o BC irá deixar espaço para ao menos mais uma alta em junho.

"Provavelmente, se o mercado entender que o BC faz uma alta adicional em junho e para, isso será bom para os ativos", aponta Luciano Costa, economista e sócio da Monte Bravo Investimentos, completando: "A decisão do Fed só potencializa esse efeito, porque é a favor de ativos de risco".

Setorialmente, todos os segmentos fecharam no positivo no Ibovespa hoje, com destaque para as ações do setor imobiliário (1,84%), de consumo (+1,74%) e utilities (+1,79%). Entre as maiores altas do índice, Magazine Luiza (7,61%), Americanas (7,54%) e Pão de Açúcar (7,52%). Na ponta oposta, Marfrig (-7,76%), com investidores repercutindo negativamente mudança na política de pagamento de dividendos, e JBS (-3,04%), respondendo a um nível de dólar mais alto.

Dólar cai para R$ 4,90

A perspectiva de que o processo de ajuste da política monetária americana não será tão intenso e rápido como se esperava, após declarações do presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, hoje à tarde, levou a uma rodada de enfraquecimento global da moeda americana. Isso abriu espaço para o dólarvoltar a ser negociado na casa de R$ 4,90 no mercado doméstico de câmbio.

No mercado doméstico, o dólar não apenas trocou de sinal como chegou a furar pontualmente o piso de R$ 4,90, ao descer até a mínima de R$ 4,8990 (-1,30%). No fim do dia, a divisa recuava 1,21%, cotada a R$ 4,9036. Com isso, a moeda passa a acumular queda de 0,79% no mês e perda de 12,06% em 2022.

Como esperado, o BC americano subiu a taxa básica em 0,50 ponto porcentual, para a faixa entre 0,75% e 1% ao ano, em um comunicado que suscitou reações tímidas nos preços dos ativos. O dólar, que vinha em leve alta, na casa de R$ 5,00, pouco se mexeu. A virada do mercado veio quando Powell, durante entrevista coletiva, praticamente tirou a possibilidade de acelerar o passo de alta de juros em junho, ao dizer que "0,75 ponto porcentual não é algo que o comitê está ativamente considerando".

O índice DXY - que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de seis divisas fortes - desceu do nível de 103,600 pontos para a casa de 102,600 pontos, e a taxa da Treasury de 2 anos, mais ligada à expectativa em torno dos juros neste ano, caiu mais de 4%. A maioria das divisas emergentes, que já ganhava espaço, acelerou a alta em relação à moeda americana.

"Nossa moeda sentiu bastante o efeito da tensão pré-Fomc (comitê de política monetária do BC americano). Hoje, estamos vendo uma volta desse movimento com a postura mais suave do Fed", afirma o economista-chefe do Banco Fibra, Cristiano Oliveira, ressaltando que o mercado de juros americano embutia grande probabilidade de alta de 0,75 ponto da taxa básica em junho. "Isso agora está fora da mesa. Obviamente, o dólar perde valor em relação a moedas de mercados desenvolvidos e moedas de commodities".

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