Werther Santana/ Estadão
Werther Santana/ Estadão

Ibovespa cai 2,8% com fuga de risco global; dólar sobe 2,30%, cotado a R$ 5,02

Alívio visto ontem nos mercados globais deu lugar, hoje, a uma fuga por risco acentuada que derrubou as bolsas

Bárbara Nascimento e Antonio Perez, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2022 | 18h44

Com o apetite para risco prejudicado, o Ibovespa terminou o pregão desta quinta-feira, 5, com um recuo de 2,81%, aos 105.304,19 pontos, menor patamar desde meados de janeiro. O tombo segue a derrocada das bolsas americanas, com Nasdaq caindo 4,99% e S&P500 derretendo 3,5%.

O alívio visto ontem nos mercados globais após a indicação de um ritmo de alta mais suave do que o esperado para a política monetária nos Estados Unidos deu lugar, hoje, a uma fuga por risco acentuada que derrubou as bolsas.

O mercado digere o cenário apontado tanto pelo Federal Reserve (Fed), nos EUA, quanto pelo Banco Central brasileiro, de inflação alta por mais tempo, muitas incertezas no caminho e, por isso, juros altos por um período mais longo, o que implica num golpe para a atividade mundial.

"Mercado com muita volatilidade. Ontem teve alívio, hoje já caiu tudo de novo. Temos Ibovespa com queda muito forte, dólar para cima. O que está pesando são as decisões de política monetária, que a princípio foram interpretadas positivamente, mas hoje mudaram os ânimos. Todo mundo digerindo ainda as decisões de ontem. Mercados negativos no mundo inteiro", aponta Wagner Varejão especialista da Valor Investimentos.

No Brasil, os papéis tiveram queda generalizada: apenas quatro ações tiveram alta no Ibovespa hoje, endossadas por bons resultados corporativos, destacadamente Gerdau e Suzano. Com minério e petróleo esboçando um dia de fôlego baixo, o cenário se consolidou para levar o principal índice da Bolsa de volta aos 105 mil pontos.

Hoje o barril do Brent fechou em alta de 0,69%. Já o minério foi negociado em alta de 0,7% em Qingdao, na China. A alta magra não foi suficiente para contrabalançar o mau humor global para ativos de risco. Assim, os papéis das petroleiras tiveram um dia negativo, após altas robustas ontem.

Felipe Moura, analista de investimentos da Finacap, complementa que o cenário macroeconômico é ruim e leva o investidor a fugir do risco. "No comunicado do Fed ainda existem diversas preocupações no radar. Ainda tem risco inflacionário muito alto, o mercado não tem segurança de que expectativas de longo prazo de inflação vão ficar ancoradas. Existe um risco muito grande inflacionário. Toda essa questão da desaceleração da China e da guerra na Ucrânia são coisas que agravam e criam completo desarranjo da cadeia de suprimentos".

Ele lembra ainda que, num cenário de juros mais altos, o custo de oportunidade de ficar com um papel de maior risco nas mãos é pior. "Você tem taxa livre de risco hoje de 12,75% a Selic, não é trivial mudar para um ativo de mais risco", completa.

Dólar sobe 2,30%

No mercado doméstico de câmbio, o dólar à vista fechou o dia cotado a R$ 5,0165, em alta de 2,30%. No acumulado do ano, as perdas ainda são de dois dígitos (-10,03%).

A combinação de aperto monetário nos Estados Unidos mesmo que ao ritmo de 0,50 ponto por reunião - aliada a dados decepcionantes da atividade na China e na Alemanha - despertam temores de desaceleração abrupta da atividade mundial em meio a uma inflação ainda em níveis elevados.

A moeda americana experimentou um forte movimento global de valorização. O índice DXY - que mede o desempenho do dólar frente a seis divisas fortes - trabalhou na maior parte do dia em alta superior a 1%.

A economista Cristiane Quartaroli, do Banco Ourinvest, afirma que, a despeito de Jerome Powell, presidente da autoridade monetária norte-americanater afastado uma alta de 0,75 ponto porcentual da taxa básica americana em junho, o mercado se pergunta se o BC americano não vai "precisar em algum momento" promover um ajuste monetário mais agressivo para conter a inflação. "Estamos vendo um movimento de correção em relação a ontem. Os juros dos Treasuries estão subindo bastante e isso impacta de forma negativa as moedas emergentes", afirma.

Para o estrategista-chefe da Inv, Rodrigo Natali, após "erros sucessivos do Fed em diagnosticar a resistência da inflação", o mercado já não tem tanta confiança de que o BC americano vai conseguir pôr os preços nos trilhos sem uma alta mais agressiva dos juros e consequente desaceleração da atividade. "Essa disparada das taxas dos Treasuries é um claro sinal de que o mercado vê a necessidade de o Fed ir mais rápido. A aposta em alta da taxa em 0,75 ponto, que havia desaparecido ontem após a fala do Powell, voltou com força", diz Natali.

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