Werther Santana/ Estadão
Werther Santana/ Estadão

Bolsa cai 1,79% e zera os ganhos de 2022; dólar sobe 1,60%, a R$ 5,16

Índice de referência da B3 sofre em mais uma sessão marcada pela aversão global a risco, além de um dia negativo para as commodities

Bárbara Nascimento e  Antonio Perez, O Estado de S.Paulo

09 de maio de 2022 | 18h25

A conjuntura de aversão global a risco que vem se desenhando desde a semana passada, após a decisão de juros nos EUA, somada a um dia negativo para as commodities globalmente, na esteira do receio de uma desaceleração na China, culminaram em mais um dia negativo para a bolsa brasileira. O Ibovespa terminou o dia em queda de 1,79%, aos 103.250,02 pontos, no menor patamar desde 10 de janeiro, e apagou os ganhos do índice no ano. No mês e no ano, a queda é de 4,29% e 1,50%.

O desempenho ainda foi melhor do que o dos índices americanos, com Nasdaq recuando mais de 4%. Os indicadores aqui e lá fora respondem a um conjunto de fatores que retiram do investidor o apetite por correr riscos. O investidor monitora os dados chineses, em busca de sinais do tamanho do impacto dos lockdowns na atividade do país e, consequentemente, na cadeia de suprimentos global. Apesar de acima do esperado, os dados da balança comercial chinesa divulgados hoje não foram bem interpretados por aqui ao apresentarem uma queda contundente nas importações de minério de ferro.

Assim, os papéis ligados às commodities metálicas sofreram, com destaque para a Vale (-4,10%). O minério teve queda de 6,18% no porto de Qingdao, na China. O petróleo teve tombo parecido, com o barril do Brent desabando 5,74%, negociado a US$ 105,94. Com isso, as ações de petroleiras figuraram entre as piores quedas do Ibovespa hoje. PetroRio e 3R Petroleum despencaram 8,60% e 8,70%, respectivamente. Petrobras caiu 2,72% (PN) e 4,01% (ON).

Além disso, o investidor monitora os sinais da política monetária americana. Mesmo após o presidente do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell, ter dito que uma alta ainda mais agressiva dos juros, de 75 pontos-base, estaria fora da mesa, sinalizações dos diretores da instituição parecem deixar a porta mais entreaberta do que o que foi sinalizado na semana passada.

"É uma combinação de coisas (que derrubam a bolsa hoje). Nos EUA você tem uma continuidade do movimento de realização das bolsas. Aversão a risco com yield das Treasuries atingindo novos picos e isso impactando setores como tecnologia. Aqui, na bolsa local, soma-se o efeito de commodities. Você tem um sentimento crescente de impacto dos lockdowns na China e isso está afetando negativamente o preço do petróleo e do minério", pontua o gestor de renda variável da Western Asset, Naio Ino.

O diretor de Alocação e Distribuição da InvestSmart XP, André Meirelles, lembra que um movimento tão negativo para as commodities é especialmente ruim para a bolsa brasileira. "A redução no preço das commodities tende a influenciar negativamente o índice, visto que mais de 30% de sua composição está atrelada ao setor", disse.

Especialista em renda variável da Blue3, Dennis Esteves lembra que os efeitos da guerra da Ucrânia não foram esquecidos pelo mercado e adicionam mais uma camada de incerteza ao cenário. "Hoje o movimento é de digestão, por parte do mercado, do aumento de juros nos EUA na semana passada. Ele reprecifica os mercados globais. Mas temos também o desaquecimento da economia por parte da China e ainda a questão da guerra pairando como um fantasma sobre o mercado. No Brasil, a gente sofre nessa linha de frente com reprecificação das commodities", disse.

Por outro lado, o setor financeiro tentava - ainda que com pouco fôlego - impedir uma queda maior, ancorado em bons desempenhos corporativos dos últimos dias. Bradesco subiu 1,49% (PN) e Santander teve alta de 0,91%. BTG, por sua vez, figurou entre os maiores ganhos do índice hoje e subiu 3,61%. Apesar do resultado em linha com o esperado, no entanto, os papéis do Itaú Unibanco tiveram dia no vermelho e caíram 1,43%.

Dólar sobe 1,60% e fecha a R$ 5,16

Com o quadro externo adverso, o dólar à vista marcou seu terceiro pregão seguido de valorização, com alta de 1,60%, a R$ 5,1565 - maior valor de fechamento desde 15 de março (R$ 5,1591). A moeda já acumula valorização de 4,33% em maio, maior do que toda alta registrada em abril (+3,81%). A queda da divisa em 2022, que chegou a ser de 17%, agora é de 7,52%.

Investidores abandonaram bolsas e correram para se abrigar na moeda americana diante da possibilidade de que a economia global rume para a estagflação, em meio à expectativa de aperto monetário mais intenso nos Estados Unidos, ao prolongamento da guerra na Ucrânia e a sinais de desaceleração da economia da China, cujas exportações cresceram em abril no ritmo mais baixo em quase dois anos.

No exterior, o dólar subiu em bloco na comparação com divisas emergentes e de países exportadores de commodities, com ganhos superiores a 1% ao peso chileno, ao rand sul-africano e ao real. Afora uma pequena baixa à tarde, o índice DXY - que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de seis divisas fortes - trabalhou em alta ao longo de toda a sessão, com máxima aos 104,187 pontos. Quando o mercado local fechou, era negociado ao 103.697 pontos - maior patamar em 20 anos.

O economista-chefe do Banco Fibra, Cristino Oliveira, vê o mercado realinhando preços à perspectiva de ajuste da política monetária americana. A economia global, diz Oliveira, tem sido impactada por choques cujos desdobramentos são difíceis de estimar. "Os recentes lockdowns na China e a percepção de que o conflito militar entre Rússia e Ucrânia poderá se estender por mais tempo deterioram o cenário de crescimento e inflacionário para os próximos meses - elevando o risco de um processo de estagflação global", afirma, em relatório, Oliveira, para quem o tombo do real em maio reflete recuo dos preços das commodities, além do fluxo negativo de recursos.

Os estrategistas do Citi informaram, em relatório, o encerramento da aposta em queda do dólar frente ao real, adotada após a decisão de política monetária do Federal Reserve na quarta-feira passada, seguida de declaração do presidente da instituição, Jerome Powell, descartando a possibilidade de uma alta de 0,75 pontos-base. "A reação amena do dólar ao Fomc (comitê de política monetária do Fed) teve vida mais curta do que imaginávamos", afirmam os estrategistas do Citi, relatando que fecharam a operação hoje com perda de 4,22%.

A economista-chefe da Armor Capital, Andrea Damico, observa que "o vetor externo" continua sendo preponderante para a perda de força do real, mas que a moeda tem sofrido também por causa da crise institucional interna, da saída de capital externo da B3 e da forte elevação da posição comprada em derivativos cambiais por parte dos estrangeiros. "Persiste a elevada volatilidade da moeda dado o cenário externo adverso, porém o fluxo comercial no curto prazo tende a fazer o contraponto, ainda que parcialmente", diz a economista da Armor, em relatório.

Para a economista Bruna Centeno, especialista em renda fixa da Blue3, com um arrefecimento da aversão ao risco e diminuição da volatilidade da moeda, a taxa de câmbio pode voltar ao nível de R$ 5, na esteira do aumento do apetite pelo carry trade (operações que exploram diferencial de juros entre países). "O Copom deixou a porta aberta para uma alta de 0,5 da taxa Selic na próxima reunião, para 13,25%. Ainda vamos ver estrangeiros atraídos pelos nossos juros altos", diz Centeno.

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