Werther Santana/ Estadão
Werther Santana/ Estadão

Erro em dados da B3 sobre recursos estrangeiros provoca desconforto entre investidores

Informação é utilizada como um termômetro do humor do investidor estrangeiro e tem relevância nas estratégias de investimento

Luísa Laval, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2022 | 11h00

Após a B3 anunciar a correção da metodologia utilizada para as estatísticas de fluxo de entrada e saída de investidores estrangeiros na Bolsa brasileira, parte do mercado demonstrou desconforto com o tamanho do erro. Em abril, a Bolsa corrigiu o saldo de entrada de capital estrangeiro de R$ 91,1 bilhões para R$ 64,1 bilhões no acumulado do ano até o fim de março. Agora, com outro ajuste, divulgou saída de R$ 7,2 bilhões em 2021, bem diferente do saldo positivo de R$ 70,8 bilhões informado anteriormente pela instituição.

Embora investidores apontem que os dados corrigidos sejam referentes ao passado, ressaltam que a informação é um tipo de termômetro do humor do investidor estrangeiro, e tem relevância nas estratégias de investimento.

“Para nós, esses dados são qualitativos, para informar o humor do investidor estrangeiro. Não usamos esses dados em nosso processo de investimento”, afirma James Gulbrandsen, gestor da NCH Capital, que gere um fundo global com o BTG Asset, além de outros fundos locais. “Porém, fiquei bastante decepcionado porque em nosso plano de negócios isso influenciou para decidirmos se recomeçaríamos nossa captação para os fundos brasileiros. Agora, não vamos pensar nisso até o período pós-eleição.”

Gulbrandsen explica que o fluxo de entrada de capital de 2021 era visto como um fator positivo para a Bolsa brasileira e indicava uma melhora significativa no desempenho do indicador mas, na verdade, isso não ocorreu.

Para Ricardo Peretti, estrategista de ações da Santander Corretora, essa correção foi um "fato curioso", mas sem impacto significativo nas decisões de investimento.

“Naquele cenário (quando foram anunciadas as mudanças de dados de 2022), não houve mudança de narrativa, porque diminuiu um pouco a entrada, mas indicou que o fluxo continuava forte. Essa segunda retificação foi bem pior no sentido do tamanho do erro, mas fica um pouco no retrovisor, porque fica para análises sobre o passado”, afirma.

Para Peretti, o principal impactado deve recair sobre a própria B3, como provedora da informação, porque investidores podem perder confiança. “É como se você confiasse em uma bússola, e agora não confia tanto nela”, diz.

Gulbrandsen aponta que, fortuitamente, os sócios da NCH Capital haviam decidido aguardar até junho para decidir sobre o ciclo de captação de recursos. “Sempre convertemos os dados da B3 em dólar, e em dólar aquele avanço (de R$ 70,8 bilhões) não foi tão impressionante. Os valores em reais de 2021 pareciam bem interessantes, mas convertendo em dólar não foi tanto assim. Por isso que nossa decisão tinha sido aguardar até junho para ver se a tendência se confirmava”, pontua.

O que mudou

Em abril, a B3 anunciou que a principal mudança na metodologia retirava os volumes relativos a empréstimos de ativos em tela. Com base no novo método, a companhia revisou os dados dos últimos três anos, quando esse tipo de operação passou a compor o número.

"Os empréstimos de ativos em tela não constituem fluxo financeiro, pois não envolve aportes de recursos no momento da transação. Dessa forma, precisam ser subtraídas dos dados divulgados", apontou à época o diretor executivo de Produtos e Dados, Luís Kondic. Os empréstimos em tela representam cerca de 30% do mercado total de empréstimos na B3, segundo as contas da instituição.

Kondic relatou que o problema foi percebido internamente e, a partir da identificação, a equipe da B3 passou a promover as revisões necessárias.

A metodologia também alterou os porcentuais de participação de cada tipo de investidor no mercado de renda variável. Agora, os investimentos realizados por clubes de investimento serão consolidados aos investidores individuais e Empresas Públicas e Privadas, passando a constar em "outros".

Questionada pelo Estadão/Broadcast sobre novo posicionamento em relação à correção de dados, a B3 não havia retornado até o momento da publicação desta reportagem.

Até a última quarta-feira, 25, dado mais recente divulgado pela Bolsa, os investidores estrangeiros retiraram R$ 10,488 bilhões em maio. No acumulado do ano, o saldo é positivo em R$ 47,161 bilhões.

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