Amanda Perobelli/Reuters
Amanda Perobelli/Reuters

Mercado teme que a Câmara inclua mais gastos na PEC dos Benefícios; dólar sobe a R$ 5,32

Preocupação com o equilíbrio das contas públicas, somada ao temor com uma recessão mundial, afetou os mercados financeiros nesta sexta

Maria Regina Silva, Silvana Rocha, Antonio Peres e Luís Eduardo Leal, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2022 | 12h39
Atualizado 08 de julho de 2022 | 10h55

A preocupação dos investidores com o desequilíbrio das contas públicas no Brasil e com uma possível recessão na economia mundial pressionou o câmbio e a Bolsa nesta sexta-feira, 1.º. O dólar emendou hoje o terceiro pregão seguido de valorização e fechou acima de R$ 5,30 pela primeira vez desde 4 de fevereiro, a R$ 5,32, com alta de 1,65%. A pressão no câmbio no primeio dia do mês ocorre depois de o dólar registrar alta de 10,15% em junho - maior salto mensal desde março de 2020. Durante o dia, a cotação da moeda chegou a bater R$ 5,3382. 

O Ibovespa (principal índice de ações da Bolsa de Valores) também foi afetado pelas preocupações com a política fiscal no Brasil e com o cenário externo. Durante o dia, o índice chegou a cair 1,33%, aos 97,2 mil pontos -- o menor patamar desde 4 de novembro de 2020 --, mas se recuperou ao longo da tarde, puxado pela recuperação nos mercados internacionais. Com a melhora, o Ibovespa fechou o dia com leve alta de 0,42%, aos 98,9 mil pontos. 

Ontem à noite, o Senado aprovou, em dois turnos, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que amplia uma série de benefícios sociais às vésperas da eleição de outubro. Após a inclusão de novas medidas (auxílio-gasolina de R$ 200 por mês a taxistas, com custo de R$ 2 bilhões, e a destinação de R$ 500 milhões ao programa Alimenta Brasil), o custo do "pacote do desespero", como técnicos passaram a chamar a PEC, passou de R$ 38,75 bilhões para R$ 41,25 bilhões fora do teto de gastos - a regra que limita o crescimento das despesas do governo à inflação do ano anterior.

A ampliação dos gastos pegou o mercado de surpresa. Antes, já estavam na conta o aumento do Auxílio Brasil (de R$ 400 para R$ 600), a ampliação do vale gás e o voucher a caminhoneiros de R$ 1 mil mensais. Pouco antes da votação, contudo, foram incluídos no texto o "auxílio-taxista" e a adição de R$ 500 milhões para o programa Alimenta Brasil - o que elevou a fatura extrateto.

"Esse aumento de gastos em ano eleitoral, com medidas para tentar angariar votos, piora muito a percepção dos investidores sobre a questão institucional. Isso tem aumentado a volatilidade da taxa de câmbio e levado a uma tendência de depreciação", afirma economista-chefe do Banco Ourinvest, Fernando Consorte.

Para blindar o presidente Jair Bolsonaro (PL) de eventuais punições da Lei Eleitoral, foi incluído na PEC um estado de emergência nacional. A legislação impede, em situação normal, a ampliação ou adoção de benesses em ano eleitoral, exceto em caso de estado de emergência ou calamidade.

A proximidade das eleições de outubro acirra o desconforto político e fiscal, o que mantém os investidores na defensiva. Para Jefferson Laatus, estrategista-chefe do grupo Laatus, o mercado desconfia que a Câmara dos Deputados poderá incluir novas benesses na votação da PEC dos Auxílios, ampliando o rombo fiscal do governo Bolsonaro. "A três meses das eleições, os investidores reforçam demanda defensiva por dólar para proteção de capital diante das medidas de aumento de gastos e com vários escândalos do governo Bolsonaro pipocando. Esse ambiente deve reforçar a volatilidade do câmbio", afirmou. 

Hoje, o presidente Jair Bolsonaro disse que "não falta dinheiro na nação para atender à população". Já o presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, deputado Arthur Maia (União Brasil-BA), afirmou que a PEC dos Benefícios pode ser aprovada terça-feira na Casa.

"As questões políticas no Brasil não ajudam, com preocupação principal com o fiscal. A gastança continua. Depois, em 2023, quem pagará a conta?", questiona Luiz Roberto Monteiro, operador da mesa institucional da Renascença. "Lá fora, tem toda a preocupação com recessão, inflação e juros altos", acrescenta Monteiro.

Já Eduardo Velho, economista-chefe da JF Trust, disse que as negociações que estão sendo feitas na Câmara para acelerar a aprovação do texto na Câmara trazem algum alento. "Caem as chances de "novas manobras fiscais", disse. Hoje, o líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR), disse que intenção é unir a proposta com a PEC dos Biocombustíveis, que já tramita na Câmara, e votar o texto sem alterações. "Se a proposta passar na Câmara da forma como foi aprovada no Senado, vai direto para promulgação pelo Congresso", disse Barros.

O analista de câmbio da corretora Ourominas, Elson Gusmão, reforça que o aumento das despesas fora do teto deve gerar mais inflação pelo lado do aumento de consumo e dos preços e vai obrigar o Banco Central a aumentar mais os juros em agosto e a Selic tende a se manter alta por longo período, pressionando o PIB do País para baixo, avalia.

Economia mundial mais frágil

Além das preocupações com as contas públicas, o mercado externo também pressionou as ações e o câmbio nesta sexta. Uma série de divulgações de índices de gerentes de compras (PMI, na sigla em inglês) industrial em várias partes do globo - principalmente EUA, Europa e Japão - indicou fragilidade da atividade econômica, ao passo que a inflação segue galopante na zona do euro.

Enquanto o índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) da zona do euro atingiu recorde de 8,6% em junho, o PMI da indústria cedeu a 52,1 no mês passado, atingindo o menor nível em 22 meses. Já o PMI dos EUA caiu a 52,7 em junho (medido pela S&P Global), alcançando a marca mais baixa em dois anos, enquanto o apurado pelo ISM de Chicago foi a 53 (previsão de 54,3). 

Os dados econômicos reforçam a percepção de recessão e esfriam um pouco as expectativas de agressividade do aperto monetário por Bancos Centrais para combater a inflação. Nesta semana, o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Jerome Powell, reconheceu que o processo de aperto monetário muito provavelmente envolverá "alguma dor" do ponto de visto econômico, mas que a ameaça ainda mais grave seria fracassar em controlar a inflação.

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