José Patrício/Estadão
José Patrício/Estadão

Bolsa fecha em queda de 0,94%, a maior do ano, e dólar sobe a R$ 3,80

Moeda americana engatou a sexta alta consecutiva e fechou no maior nível desde 28 de dezembro; relação entre Estados Unidos e China voltou a preocupar investidores

Karla Spotorno e Altamiro Silva Junior, O Estado de S.Paulo

22 Janeiro 2019 | 19h27

No dia do esperado discurso do presidente Jair Bolsonaro em Davos, o Ibovespa experimentou uma correção de baixa motivada pelo exterior, que teve um dia de aversão ao risco em meio a preocupações com a desaceleração da economia mundial e com os rumos das negociações comerciais entre a China e os Estados Unidos após notícias de que a Casa Branca recusou a visita de oficiais de Pequim, um sinal da dificuldade das duas maiores economias do mundo para chegar a um acordo.

O Ibovespa encerrou com queda de de 0,94%, a maior de 2019, aos 95.103,38 pontos. Isso representa uma perda de 900 pontos ante o fechamento anterior. Na mínima, o índice marcou 94.662 pontos em queda de 1,40%. O giro financeiro do dia foi de R$ 13,72 bilhões, pouco abaixo da média diária de janeiro.

Já o dólar engatou a sexta alta consecutiva e fechou no maior nível desde 28 de dezembro. O câmbio também foi influenciado principalmente pelo mercado externo. O dólar à vista fechou em alta de 1,19%, a R$ 3,8054. O dólar para fevereiro fechou em alta de 1,70%, a R$ 3,8195, na máxima do dia.

Bolsa

No exterior, sobretudo nos mercados americanos, pesou negativamente a notícia de revés na jornada em busca de um entendimento comercial entre Estados Unidos e China.

"Hoje vejo uma contaminação externa que leva a essa correção", afirmou o analista da ModalMais Leandro Martins. Para o especialista em análise gráfica, a tendência do Ibovespa continua sendo de alta e deve bater os 100 mil pontos ainda neste semestre. "Muitos ativos estão esticados demais, por isso o movimento de queda hoje é saudável", diz Martins. Segundo ele, o suporte está aos 90 mil pontos, pontuação que é alvo para um retorno ("pullback") a uma jornada de valorização.

Sobre a participação de Bolsonaro na abertura do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, houve manifestações positivas e negativas. Entre discurso e sessão de perguntas e respostas, o presidente usou metade do tempo de que dispunha - fato que por si só suscitou muitas críticas, sobretudo de estrangeiros no Twitter. 

Entre as maiores baixas da carteira Ibovespa nesta terça-feira, os destaques foram BRF, Marfrig e JBS. As empresas foram penalizadas pela notícia de que a Arábia Saudita irá descredenciar um total de 33 unidades brasileiras habilitadas a exportar carne de frango para o país sem uma clara justificativa no documento que foi enviado ao governo brasileiro. Fontes do setor acreditam que a motivação principal da medida pode estar relacionada a questões técnicas, como o sistema de abate de aves no Brasil. Segundo nota do Ministério da Agricultura, 15 plantas de carnes da BRF e da JBS continuarão habilitadas a vender para a Arábia Saudita - três da BRF; quatro da SHB Alimentos (que pertence à BRF); duas da JBS Aves e seis da Seara Alimentos (que são da JBS).

Dólar

O discurso de Jair Bolsonaro no Fórum Econômico Mundial foi monitorado de perto pelo mercado, mas teve influência limitada nos preços dos ativos, pois as mesas de câmbio esperam que eventuais novidades sobre a agenda de reformas venham de declarações do ministro da Economia, Paulo Guedes. Em conversa com investidores, ele assegurou que o governo vai conseguir aprovar a reforma da Previdência.

Perto do fechamento, uma entrevista do presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, à agência de notícias Reuters chegou a influenciar as cotações. O dirigente afirmou que o BC sempre olhará "no momento adequado" se os juros estão "suficientemente estimulativos". Parte do mercado interpretou as declarações de Ilan como uma mudança na sinalização do BC, com possibilidade até de corte de juros, o que deixaria o Brasil menos atrativo para estrangeiros, por conta do menor diferencial de juros. No entanto, o BC divulgou nota esclarecendo que a mensagem de política monetária não se alterou desde a última reunião do Copom.

Para o sócio de uma gestora independente, a entrevista de Ilan e o ambiente mais avesso ao risco do investidor internacional, que piorou na parte da tarde, pressionaram ainda mais o câmbio. Com isso, o dólar fechou perto das máximas do dia, voltando ao nível de R$ 3,80.  

Sobre o discurso de Bolsonaro, o economista-chefe da Capital Economics para mercados emergentes, William Jackson, avalia que, apesar de ter sido curto, o presidente conseguiu tocar em uma gama de pontos para melhorar o ambiente de negócios no Brasil, além de sinalizar que a abertura comercial do País será uma de suas prioridades. O lado negativo ficou com a falta de menção mais explícita à agenda de ajuste fiscal, o ponto mais monitorado pelos investidores no Brasil.

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