Ueslei Marcelino/Reuters
Ueslei Marcelino/Reuters

Mercado financeiro vive dia mais turbulento desde a crise de 2008

Delação de Joesley Batista, do grupo JBS, que cita diretamente o presidente Michel Temer fez com que a Bolsa de Valores fechasse o dia em queda de 8,8%, enquanto o dólar subiu 8,07%

O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2017 | 17h20

O mercado financeiro no Brasil não vivia um dia como o de ontem desde que o banco americano Lehman Brothers quebrou, em 2008, arrastando as bolsas de valores de todo o mundo. A delação de Joesley Batista, um dos donos do grupo JBS, que coloca o presidente Michel Temer no meio de um turbilhão, fez com que a bolsa brasileira recuasse 8,8%, pior resultado em quase nove anos. O dólar fechou em alta de 8,07% – o terceiro maior aumento da história do real.

 

 

O pânico generalizado derrubou algumas das maiores empresas brasileiras, principalmente as estatais, cujos preços já embutem um risco político maior. A Petrobrás, a maior delas, teve quedas de 11,37% (as ações ordinárias, com direito a voto) e de 15,76% (preferenciais, sem direito a voto).

Entre os analistas, a incerteza era um ponto comum. Sem clareza sobre os desdobramentos da crise – principalmente depois de Temer afirmar, em um discurso na tarde de ontem, que não iria renunciar –, as previsões são de muita volatilidade nos mercados também nos próximos dias. “O grande problema é que não temos ideia do que vai acontecer daqui em diante. É um problema sério, que pode causar uma brutal destruição de valor das companhias brasileiras”, disse Álvaro Bandeira, economista-chefe da corretora Modalmais.

Apesar de todas as dificuldades que já vinham cercando o governo Temer, com vários de seus ministros – e ele próprio – já citados em delações da Operação Lava Jato, a avaliação do mercado financeiro era de que pelo menos as reformas vinham avançando. A aprovação da reforma da Previdência, que está no plenário da Câmara, era esperada como uma espécie de senha para mostrar que o País poderia realmente recuperar o rumo do crescimento.

O novo cenário, porém, passa longe da aprovação das reformas neste momento. O consenso é que qualquer votação nesse sentido está congelada. O relator da reforma trabalhista (que também tramita no Congresso) em duas comissões do Senado, Ricardo Ferraço (PSDB-ES), por exemplo, disse que não vai mais entregar o parecer do projeto, conforme estava previsto no calendário. O argumento é que a crise institucional é tão grave, que a reforma se tornou “secundária”.

Para alguns analistas, importante para o País atingir algum equilíbrio nos próximos meses seria a manutenção da equipe econômica, independentemente de quem estivesse na presidência. Alessandra Ribeiro, da Tendências Consultoria, diz que isso seria “crucial” para evitar retrocessos. Ainda assim, ela acredita que será difícil para um governo de transição conseguir aprovar as reformas que tramitam no Congresso. Para a economista, é certo que a crise vai tirar tração da retomada econômica, mas ainda não está claro se o País terá mais um ano de recessão.

 

 

Derretimento. Antes da abertura dos negócios, o Banco Central divulgou nota se comprometendo a agir para “manter a plena funcionalidade dos mercados”. O recado era claro: haveria intervenção para suavizar eventual derretimento do real.

Quando a Bovespa começou a operar, bastaram poucos segundos para o dólar saltar quase 6% e começar o dia acima de R$ 3,31. Esse foi o gatilho para a ação coordenada entre Banco Central e Tesouro Nacional para tentar amenizar a histeria nos negócios. No câmbio, foi realizada sequência de cinco leilões com a venda dos chamados contratos de swap – operação que tem o mesmo efeito da venda de dólares no mercado futuro.

A atuação através dos contratos de swap é considerada a “primeira linha de defesa” às oscilações bruscas do real. Com esse tipo de operação, a casa pode renovar contratos antigos – o que anula eventual pressão por vencimentos próximos – ou emitir novos papéis.

“Estamos trabalhando para acalmar os mercados, para atravessar esse período. Trabalhando de forma serena, de forma firme, usando os instrumentos que a gente tem, que é o mercado de swap, em coordenação com o Tesouro Nacional, que anunciou leilões”, afirmou o presidente do BC, Ilan Goldfajn, em uma não usual entrevista em frente ao Ministério da Fazenda, onde esteve à tarde para reunião com o titular da pasta, Henrique Meirelles. / ÁLVARO CAMPOS, EDUARDO LAGUNA, PAULA DIAS, ISABELA BONFIM E JULIA LINDNER, FABRÍCIO DE CASTRO, FERNANDO NAKAGAWA E ADRIANA FERNANDES

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