Bolsas dos EUA se recuperam com discurso do Fed

As Bolsas norte-americanas se recuperaram ontem de uma seqüência de maus resultados, puxadas pela leitura otimista do discurso feito por Ben Bernanke, presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), sobre a inflação, e pela alta de ações importantes, entre elas as do banco Bear Stearns e da Qualcomm. O Índice Dow Jones subiu 1,83%, fechando acima dos 11 mil pontos pela primeira vez em mais de uma semana, o Standard & Poor's 500 avançou 2,12%, a maior alta em dois anos e meio, e a Nasdaq valorizou-se 2,79%, o maior ganho num só dia em mais de dois anos. "As Bolsas subiram nem tanto pelo que Bernanke disse, mas pelo que ele não disse", comentou Jim Paulsen, estrategista-chefe da Wells Capital Management, referindo-se ao discurso do presidente do Fed. Em palestra em Chicago, Bernanke afirmou que a alta dos preços dos bens e serviços precisa ser acompanhada com toda a atenção, mas que o repasse da elevação dos preços da energia para os produtos finais tem sido relativamente baixo. O presidente do Fed disse que "os aumentos cumulativos da energia e das commodities foram responsáveis pela recente alta no núcleo dos índices inflacionários". Ele acredita que a energia continuará subindo por algum tempo, e disse esperar que os cidadãos e as empresas alterem seu comportamento de consumo. "Ao que parece, os dias de petróleo e gás natural persistentemente baratos já terminaram", comentou. A propósito, ele sugeriu que os americanos parem de pensar que a inflação vai continuar subindo, justamente para evitar que isso de fato aconteça, e que confiem na capacidade do Federal Reserve de controlar a alta dos preços. Segundo ele, as expectativas de inflação elevada acabam criando um clima propício para a alta de preços sem fundamento. "Na medida em que os cidadãos e os empresários acreditarem na capacidade do Fed de manter a inflação baixa, as empresas terão menor estímulo e menor condição de repassar a alta dos custos para os preços finais. Igualmente, os trabalhadores terão menor estímulo para reivindicar aumentos salariais", afirmou. Bernanke disse ainda que a economia americana é muito flexível e parece ter absorvido os choques de custos dos últimos anos "com apenas alguns pequenos ajustes". Quanto ao déficit em conta corrente dos Estados Unidos, o presidente do Fed afirmou que esta situação não pode continuar para sempre. "Num determinado momento, os estrangeiros não vão querer mais nos emprestar dinheiro, e exigirão que paguemos", comentou, observando que esse problema não é apenas dos Estados Unidos. Governos estrangeiros, com destaque para os asiáticos, e em especial a China, financiam há anos o bilionário déficit em conta corrente dos EUA adquirindo maciços volumes de títulos do Tesouro. Apesar do otimismo do mercado acionário, a maioria dos analistas acredita que o Federal Reserve elevará novamente o juro básico, na reunião do dia 29, para conter o potencial inflacionário. Tem-se como certo que a taxa será aumentada pela 17ª vez consecutiva em 0,25 ponto porcentual, para 5,25% ao ano. Essa perspectiva tem preocupado os países emergentes, que temem a fuga dos investidores para os títulos americanos, em busca de maior segurança. Mas Gregory Fuss, economista do Deutsche Bank, acha que desta vez o Fed poderá "pular" o aumento do juro básico. "O discurso de Bernanke mostra que a inflação não é incontrolável. Portanto, o Federal Reserve não precisará ser tão agressivo no aperto monetário." Nos cinco primeiros meses de 2006, os preços ao consumidor subiram 5,2% anualizadamente, bem mais que os 3,4% de todo o ano de 2005. E o núcleo dos principais índices inflacionários já avançou 3,1%, anualizadamente, ao longo de 2006.

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