Brasil deve emergir da crise antes da China, diz Pettis

Para o professor da Universidade de Pequim, a China terá dificuldade em aumentar a demanda doméstica

Luciana Xavier, da Agência Estado,

15 de maio de 2009 | 16h55

A crise global está longe do fim, mas se tem algum país que pode se recuperar primeiro, esse país é o Brasil e não a China, acredita o norte-americano Michael Pettis, professor de Finanças Internacionais da Escola de Administração da Universidade de Pequim. Pettis veio ao Brasil para participar de seminário em São Paulo. Pettis foi considerado este ano pela revista Businessweek uma das vozes mais influentes atualmente sobre economia chinesa. Autor de vários livros e do blog mpettis.com, Pettis passou muitos anos em Wall Street, alguns deles no Bear Stearns, antes de ir para a China, onde está há cerca de sete anos.    

 

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Pettis acha que a China terá dificuldade em resolver o problema de excesso de produção por meio do aumento da demanda doméstica. "A China está tentando fazer isso, mas se alguém acha que será fácil ou rápido, está muito enganado. Vai levar pelo menos uma década de transição difícil".

 

Ele aceitou conceder entrevista no último dia 13, por telefone, do Rio de Janeiro, à jornalista Luciana Xavier, do AE Broadcast Ao Vivo, desde que fosse feita após seu almoço com o ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga, e antes do uma reunião marcada na Casa das Garças.

 

Veja, a seguir, os principais trechos da entrevista:

 

Agência Estado - O senhor diz em seu blog que a crise está longe de terminar. Quão distante estamos e isso se aplica também à China?

 

Pettis - Isso se aplica especialmente à China. Acho que há muito para se trilhar até que a crise chegue ao fim.Pois esta crise é resultado de desequilíbrios significativos que se formaram ao longo de bastante tempo, especialmente nos últimos dez anos, nos quais o crescimento do consumo norte-americano foi muito, muito maior do que o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). O que é outro modo de dizer que os Estados Unidos foram aumentando cada vez mais os seus déficits comerciais. Uma das consequências disso é que as famílias nos EUA foram se endividando de modo insustentável. Esses níveis atingiram níveis históricos.

 

Agora estamos num processo, que provavelmente deve levar de três a quatro anos, de estreitamento desse endividamento. A expansão do consumo nos EUA será menor do que a expansão do PIB por vários anos.

 

Com isso, o déficit comercial dos EUA deve diminuir e pode até mesmo se tornar superávit, o que terá impacto importante sobre a China. Pois no coração do modelo de desenvolvimento chinês está o excesso de produção, acima do consumo doméstico. Isso requer que algum país tenha déficit comercial maior para absorver essa capacidade excedente chinesa. Esses tempos terminaram. Os EUA não estão querem ou não podem mais continuar com déficits comerciais tão altos. O que significa que o problema de excesso de capacidade da China terá de ser resolvido na esfera doméstica e isso será bem difícil.

 

AE - O que pode ser feito?

 

Pettis - A princípio, todos concordam que a China precisa aumentar o consumo doméstico. Mas as políticas que têm sido implementadas nos últimos anos vão na direção contrária. Se você olhar nos últimos cinco anos, o consumo na China caiu em relação ao PIB e as exportações chinesas cresceram em relação ao PIB, o que é exatamente o oposto do que deveria estar sendo feito. De fato, dada a rigidez do sistema financeiro e do modelo econômico é muito difícil fazer essa troca. Alguns países fizeram isso, como os Estados Unidos, no início do século 19, o Brasil, há 30 ou 40 anos, ou o Japão, um pouco mais recentemente. A China está tentando fazer isso, mas se alguém acha que será fácil ou rápido, está muito enganado Vai levar pelo menos uma década de transição difícil.

 

AE - Então a China não será a recuperar da crise, como apostam muitos analistas?

 

Pettis - Não. Acho que a maioria dos analistas simplesmente não entende a magnitude do problema. É preciso ter cuidado ao que se quer dizer falar do que o país será "um dos primeiros a se recuperar". A China não irá entrar em sério colapso como outros países entrarão, porque o governo está estimulando gastos fiscais de maneira dramática.

 

Particularmente, por meio de empréstimos bancários. O problema dessa expansão rápida dos empréstimos bancários é ter um aumento grande da inadimplência e isso levará anos para ser saldado. Então, a China não terá colapso, mas levará muitos anos para sair desse problema. E devo dizer que quando eu falo que a China terá uma década difícil não quero dizer que será como os EUA nos anos 30, o Japão nos anos 90 ou o Brasil nos anos 80. A China terá crescimento e ele poderá ser significativo, de 4% ou 5% ao ano, ou talvez mesmo um pouco mais que isso. Mas os tempos de crescimento de 13% ou 14% se foram e, provavelmente, para sempre.

 

AE - A China não poderá substituir os EUA no futuro como consumidor global?

 

Pettis - Não. O consumo total na China é quase o mesmo que o consumo total da França. Então a ideia de que o consumo chinês pode tirar o mundo da crise faz tanto sentido quanto dizer que a França pode tirar o mundo da crise. Vai ser um processo muito difícil.

 

AE - Como ficam os outros países emergentes, especialmente o Brasil, que é tão dependente do comércio com a China?

 

Pettis - Acho que será difícil. Lembre-se de que mesmo parte das exportações que o Brasil faz para a China, na verdade são indiretamente para os EUA. A China importa muitas commodities que depois são usadas na produção de suas exportações. Se houver crescimento lento no consumo norte-americano, então vai haver crescimento lento em todas as economias que dependem diretamente ou indiretamente do consumo dos EUA.

 

AE- O senhor vê uma década difícil para o Brasil também?

 

Pettis - Acho que o sistema financeiro brasileiro é bem mais flexível. A estrutura da dívida no Brasil, embora ainda não seja notável, tem melhorado. Meu palpite é que o Brasil pode ter alguns anos difíceis, mas, honestamente, acho que o Brasil irá emergir da crise mais rápido do que a China e a maior parte dos países asiáticos. (...)

 

AE- Isso significa que o Brasil poderia sair na frente em comparação a EUA, Europa e até mesmo a China?

 

Pettis - Não sou especialista em Brasil, mas diria que o que nos surpreende ao fazermos retrospecto de crises globais é que países que parecem mais fortes, com maiores níveis de reservas e de superávits comerciais (...) são os que sofrem maiores ajustes e provavelmente veremos isso de novo.

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