Brasil deve seguir imune a turbulências, dizem analistas

As perdas recentes nos mercados emergentes classificadas como dramáticas e a reação do Banco Central da Turquia, convocando encontro extraordinário de política monetária, despertam questionamentos no mercado internacional sobre o cenário brasileiro. No entanto, assim como a avaliação de que o Brasil é menos vulnerável do que a Turquia, manifestada pelo Lehman Brothers, outras instituições em Wall Street também argumentam que o cenário macroeconômico no Brasil enfrenta pouco risco derivado da recente turbulência entre os emergentes. A percepção é de que os ativos brasileiros continuarão sofrendo com a volatilidade. Contudo, a razão da volatilidade deverá continuar a ser derivada de fatores externos e não dos fundamentos do País, o que permanece indicando maior resistência a choques. Depois da recente turbulência, os mercados estão considerando um cenário muito diferente do que o que nós projetamos, diz Michael Gavin, economista do UBS. "Nós mantemos nossa projeção e argumentamos que os cenários macro brasileiros são colocados em muito pouco risco pela recente turbulência", afirma. Gavin reconhece que, se vistos como indicadores de expectativas, os preços nos mercados estão indicando um ambiente muito diferente. "Nós deveríamos mudar nossa projeção para refletir o novo contexto financeiro?", pergunta ele. "Nós acreditamos que não", afirma. O analista relembra que o sell-off tem sido dramático, mas fica muito pequeno quando comparado com o avanço dos preços dos ativos nos últimos três anos. Ainda, ele lembra que não faz muito tempo que o real em 2,30 por dólar era visto como perigosamente forte e era encarado com significativa resistência pelo BC. A moeda, argumenta, teria de enfraquecer substancialmente ante o nível atual para interromper o processo de convergência. Neil Dougall, do Dresdner Kleinwort Wasserstein, avalia que, enquanto a volatilidade provavelmente irá persistir no curto prazo, ela é resultado de fatores exógenos e tem pouco a ver com os eventos ou fundamentos domésticos. "Um ponto-chave é que, graças aos fundamentos mais fortes do Brasil, a economia está hoje mais resiliente a choques. Então, nós não acreditamos que este aumento na volatilidade irá afetar a economia real." O analista enumera que o crescimento surpreendeu favoravelmente no primeiro trimestre do ano, com destaque para investimento, a performance fiscal teve melhora ante o início do ano e o cenário político também está melhor. Diante desta perspectiva, a percepção sobre o País permanece inalterada, afirma. Sobre os questionamentos se a capacidade de financiamento do governo estaria em risco, o analista do UBS afirma que, com respeito ao mercado de dívida externa, a vulnerabilidade do governo é desconsiderável. "O plano de financiamento do governo é de US$ 9 bilhões em emissões em 2006 e 2007 combinadas, dos quais já foram emitidos US$ 5,3 bilhões. Com cerca de US$ 55 bilhões em reservas internacionais, o Brasil poderia facilmente amortizar adicionais US$ 3,7 bilhões sem impacto negativo significativo", pondera Gavin. O analista considera "extremamente improvável" que os mercados externos ficarão fechados ao Brasil em questão de semanas ou nos próximos 18 meses. "Mas, mesmo se fecharem, o governo seria capaz de honrar suas contas", acredita. Com relação ao mercado local, onde tem sido registrada forte turbulência, a resposta de Gavin é a mesma: "A menos que os investidores locais comecem a acreditar que o governo esteja contemplando uma reestruturação de dívida, o governo será capaz de rolar a dívida doméstica". Assim, pondera Gavin, o que está potencialmente em questão, em condições desordenadas no mercado de dívida local, não é a habilidade de o governo rolar a dívida. É a habilidade de rolar a dívida em instrumentos que transfiram risco de taxa de juro para os detentores privados de títulos. Sobre juros reais, o analista avalia que a perspectiva de médio prazo está inalterada, em parte, por considerar que as circunstâncias são temporárias. Mas, o mais importante, é que pensamos que o condutor do juro real não será o humor do mercado, mas os drivers macroeconômicos. É claro que os mercados globais terão impacto sobre a velocidade da convergência do juro real no Brasil. Mas o conduzir principal do juro real deverá ser a normalização do equilíbrio entre oferta e demanda.

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