Brasil não tinha como ter rejeitado abrigo a Zelaya, diz Garman

Diretor do Eurasia Group, Christopher Garman, diz que "governo brasileiro não poderia ter feito outra coisa"

Luciana Xavier, da Agência Estado,

22 de setembro de 2009 | 16h13

O fato de a embaixada brasileira em Honduras ter concordado em abrigar o presidente deposto, Manuel Zelaya, está coerente com o modo com que o Brasil tem se posicionado com as principais lideranças da região, avalia o diretor para América Latina do Eurasia Group, Christopher Garman. "Seria difícil para o Brasil rejeitar o abrigo. O governo não poderia ter feito outra coisa", disse, em entrevista por telefone, de Nova York, ao AE Broadcast Ao Vivo.

 

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Zelaya voltou ao país ontem, dia 21/09, e buscou abrigo na embaixada brasileira, em Tegucigalpa. Hoje, soldados do exército de Honduras cercaram a embaixada do Brasil para dispersar dezenas de partidários do presidente deposto. Pela manhã, o governo de facto de Honduras suspendeu o fornecimento de água, luz e telefone na embaixada do Brasil para pressionar a saída de Zelaya.

 

Segundo Garman, no entanto, o fato de ter buscado abrigo na embaixada brasileira "por si só não é algo ruim" e trata-se do "ônus da liderança". "A escolha reflete a ascensão econômica e geopolítica do Brasil na região (América Latina). Foi um cálculo estratégico por parte de Zelays, provavelmente com coordenação de Chávez (Hugo Chávez, presidente da Venezuela)", afirmou.

 

Para Garman, no entanto, o maior teste será em como a diplomacia brasileira conseguirá lidar com a questão. "Os passos mais críticos virão daqui para frente". Ele acredita que o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, deverá participar das negociações entre o presidente deposto e o governo de facto e que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva só deve se envolver nas conversas "se houver abertura para tanto", ou seja, se ficar claro que o governo de facto está disposto a negociar.

 

Garman disse que, por enquanto, nada indica que Roberto Micheletti, do governo de facto de Honduras, está disposto a negociar, mesmo com pressões vindas do Brasil, Estados Unidos e outros países. Para o diretor, com a proximidade das eleições presidenciais "não há incentivo para abrir negociações".

 

"O governo aposta nas eleições do novo governo e o cálculo da liderança é de que é melhor passar por essa tempestade e, eventualmente as portas irão se abrir", avalia Garman, referindo-se ao apoio de outros países. A campanha presidencial de Honduras começou no dia 31 de agosto e as eleições ocorrem em novembro.

 

Garman classificou a atitude de Zelaya como "ato de certo desespero, uma última cartada", na aposta de que, ao pressionar o governo, as negociações poderiam ser feitas. O que, na verdade, expõe o fracasso de Zelaya e de outras lideranças que o apoiam em conseguir resolver a crise no país. Zelaya foi deposto em 28 de junho deste ano e no mesmo dia Micheletti assumiu o governo. Em seguida, sanções de vários países começaram a ser impostas.

 

Para Garman, a variável crítica para resolver a questão é doméstica. Segundo ele, apenas um aumento da tensão social e se os apoiadores de Zelaya se manifestarem de maneira sistemática, pode haver possibilidade de o governo de facto abrir as negociações. De qualquer modo, mediante o compromisso de Zelaya de sair do país para que as conversas sejam mantidas entre as duas partes. Do contrário, Garman avalia que a estadia de Zelaya na embaixada brasileira poderá ser por um "período mais prolongado".

 

Eleições

 

Quem quer que seja o candidato da oposição, a eleição presidencial de 2010 deve favorecer o candidato do governo Lula, afirmou Garman. "O otimismo com a situação (econômica) atual favorece o candidato do governo. Acho difícil a oposição ganhar", disse.

 

Segundo ele, a vitória do candidato de Lula, possivelmente a ministra da Casa Civil Dilma Rousseff, se dará menos pela transferência de votos dos eleitores do atual presidente e mais pelas "conquistas dos últimos oito anos". "O eleitor está muito satisfeito com o 'status quo'", explicou.

 

Pesquisa CNI/Ibope, divulgada hoje, dia 22, mostra que o governador de São Paulo, José Serra, lidera em todas as simulações de intenção de voto apresentadas. Mas, para Garman, ainda que Serra seja um candidato forte, as perspectivas de uma forte recuperação do País devem jogar a favor do candidato de Lula.

 

Garman observou, no entanto, que a eventual candidatura da senadora do Partido Verde, Marina Silva, à presidência da República deve incomodar tanto o PSDB quanto o PT e mexer com o quadro pré-eleitoral. Isso porque, segundo o diretor, com Marina no páreo fica mais difícil convencer o PSB a não lançar a candidatura do deputado federal Ciro Gomes (PSB-CE). "É mais pela questão de conter a candidatura de Ciro Gomes, pois (Marina) dificilmente seria muito competitiva. No final do dia o que contará é qual o candidato que será capaz de construir em cima das conquistas já feitas pelo governo Lula".

 

Garman também comentou que a melhora na aprovação de Lula e do seu governo na verdade mostram certa estabilidade do presidente, levando-se em conta que é uma alta pouco expressiva e que a pesquisa CNT/Sensus, divulgada no início do mês, mostrou leve queda. "Não atribuiria muita relevância (ao resultado)", afirmou.

 

A pesquisa CNI/Ibope mostrou que a avaliação positiva do governo Lula subiu em setembro, atingindo 69%, ante 68% em junho. A oscilação ocorreu dentro da margem de erro da pesquisa, que é de dois pontos porcentuais. A aprovação pessoal ao presidente Lula subiu de 80% para 81%, entre junho e setembro.

 

Já a pesquisa CNT/Sensus, do último dia 8, mostrou que a avaliação positiva do governo Lula caiu de 69,8% em maio para 65,4% em setembro, enquanto a aprovação ao presidente recuou de 81,5% em maio para 76,8% em setembro.

 

Garman, no entanto, ressalta que de modo geral a pesquisa mostra otimismo da população em relação à retomada da economia. Ele observou que essa percepção positiva está melhorando ao longo dos meses também entre os investidores estrangeiros. Segundo ele, as expectativas são muito boas quanto à retomada do crescimento em 2010.

 

"As perspectivas em relação ao Brasil são promissoras e têm sido reforçadas pelos últimos dados de atividade". As únicas questões que se colocam no horizonte, segundo Garman, é se o Henrique Meirelles continuará á frente do Banco Central e sobre a situação fiscal do País.

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