Brasileiros dirigem multinacionais na China

A convivência de anos com hiperinflação, flutuação cambial, sucessivos planos econômicos e mudanças regulatórias transformou muitos executivos brasileiros em verdadeiros Phds em "jogo de cintura". E no efervescente e altamente competitivo ambiente de negócios da China, esse "diploma" está se mostrando um excelente diferencial. Existem hoje pelo menos 100 executivos brasileiros ocupando cargos de média e alta gerência em multinacionais na China, segundo estimativas da Fundação Dom Cabral, instituição voltada para o treinamento de executivos, e do consulado brasileiro em Xangai."A experiência que ganhamos com a burocracia, com a complexa política tributária e, acima de tudo, com o processo inflacionário de anos atrás nos deu expediente para entender e ter paciência neste momento de transição da China", avalia Hélio Moino, vice-presidente da multinacional alemã Voith-Siemens Hydro Power Generator na China. Moino, que era responsável pela fábrica de turbinas e geradores para hidrelétricas da Voith-Siemens no Brasil, foi convidado para assumir os novos negócios da empresa na China há três anos.Diante da velocidade com que a China se move, com sua média de crescimento de 10% ao ano, o país tem importado mão-de-obra qualificada para suprir lacunas. E o Brasil tem contribuído com pilotos de avião (ex-comandantes da Varig), técnicos da indústria de calçados (setor que tem sofrido justamente com a concorrência chinesa) e, agora, também com administradores de nível médio e alto. "Não podemos nos esquecer que o capitalismo na China é muito recente", afirma o professor Alberto Miranda, coordenador do programa de China da Fundação Dom Cabral. "A mão-de-obra no país é abundante, mas existe uma carência grande de profissionais qualificados."O gerente-geral do grupo siderúrgico Bakaert na China, Carlos Polanczyk, tinha dez anos de carreira na Belgo Mineira Bakaert, em Minas, quando foi transferido para a China, há dois anos. Foi o escolhido entre 15 diretores das fábricas do grupo belga no mundo - incluindo Estados Unidos, Índia, Espanha, Austrália. "Fui selecionado pelo histórico profissional e resultados da unidade brasileira da qual era responsável", conta Polanczyk. Na sua opinião, as diversas experiências - boas e ruins - vividas por sua geração no Brasil, de expansões ao downsizing, da implementação de programas de qualidade total às negociações sindicais, ajudaram a desenvolver executivos "'criativos e flexíveis"."Flexibilidade e capacidade de adaptação são características muito importantes por aqui", completa Manuel Correa, gerente geral da Saint-Gobain Abrasivos para Ásia e Pacífico. "O mercado é muito dinâmico e os concorrentes se movem com uma rapidez impressionante." Correa está há dois anos em Xangai, onde mora com a mulher e três filhos. Antes, ocupava o mesmo cargo na subsidiárias do grupo no Brasil.Apesar de já terem passado por muitos altos e baixos, os executivos brasileiros na China não deixam de se surpreender com a dinâmica da economia chinesa. "A China vive um momento único e é para lá que os empresários brasileiros deveriam focar seus negócios", diz Polanczyk."Isso aqui é outro planeta. O governo central faz planos de longo prazo. Há disponibilidade de capital, juros baixos, espírito empreendedor e legislação trabalhista flexível. A sociedade não desperdiça tempo e dinheiro debatendo política e sucessão, em reuniões de federações industriais. Eles fazem acontecer."São tantos conterrâneos na China que datas como o Sete de Setembro são comemoradas de verde amarelo, em churrascos de confraternização. "Longe de casa tem dessas coisas", diz Hélio Moino.

Agencia Estado,

25 de setembro de 2006 | 10h27

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