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Câmbio causa 'tsunami' na economia suíça

Relógios, chocolate, bancos e até esqui são afetados

Jamil Chade, correspondente na Suíça, O Estado de S. Paulo

20 de janeiro de 2015 | 14h39

GENEBRA - Nos corredores do salão do relógio de Genebra, o clima é de sofisticação, luxo e aparente calma. Mas quem circula por uma das mecas do setor nesta semana rapidamente percebe que o clima não é o de festa. O culpado: o Banco Central da Suíça, que, para muitos na feira de relógios, tomou uma decisão em hora errada. 

Na semana passada, as autoridades do país alpino abandonaram a política de manter o franco em um determinado patamar e que, apenas em 2014, havia custado aos cofres nacionais mais de US$ 60 bilhões. O BC deixou o franco flutuar livremente e o resultado foi uma valorização de 39% em apenas 10 minutos. Hoje, essa valorização é de cerca de 18% em relação aos euro. 

Com uma população de apenas 7 milhões de pessoas, a Suíça depende de suas exportações e serviços para manter uma economia dinâmica e uma taxa de desemprego de apenas 3%. Do chocolate ao queijo, passando pelo setor químico, bancos e estações de esqui, todos estão alarmados com a nova realidade.

Pelas cidades suíças, cartazes oferecendo descontos de até 30% estão espalhados em supermercados, lojas de móveis e agências de turismo. Todos temem perder clientes que, diante da valorização do franco, prefeririam cruzar a fronteira e fazer suas compras na França, Itália ou Alemanha.  

Nas estações de esquí, o temor é de que o turista simplesmente prefira usar os alpes franceses e italianos, tão espetaculares como os alpes suíços e, agora, mais baratos. 

Os bancos também temem pelo pior. Ontem, Boris Collardi, CEO de Julius Bär, alertou que o país pode viver uma consolidação de suas instituições financeiras diante da nova realidade. "Em cinco anos, é possível que a Suíça não tenha mais que cem bancos privados", alertou. Em 2005, o número era de 182. 

Alguns bancos, segundo ele, poderão até mesmo transferir parte de suas atividades para fora da Suíça. A previsão é de que, até 2018, o país continue sendo o maior receptor de fortunas do mundo. 

Já a indústria do relógio é uma das que mais depende das exportações para sobreviver. Com o novo franco, em apenas um dia, as ações da Richemont perderam 16%, a maior queda em 20 anos. 

A marca Cartier, da Richemont, já havia colocado 230 funcionários em tempo parcial diante da queda nas demandas. Na Richemont, a renda se estagnou no final de 2014. 

Agora, analistas do Barclays estimam que a valorização do franco em 10% cortaria a renda da empresa em 9%. No caso da Swatch, as perdas seriam de 18%. Não por acaso, o CEO da Swatch Group, Nick Hayek, acusou o BC de ter iniciado um "tsunami." As ações de sua empresa perderam cerca de 20% desde o anúncio nas mudanças. 

No Salão da Alta Relojoaria de Genebra, que custa anualmente quase R$ 100 milhões, esse tsunami está mais que presente. A IWC, que neste ano convidou 800 pessoas para uma festa de gala com Ewan McGregor e a brasileira Adriana Lima, a conta vai ser pesada. A festa, paga em francos, ficou mais cara. Já suas vendas sofrerão. 

Alguns já começam a se preparar. A Rolex, por exemplo, anunciou que vai aumentar seus preços no mercado japonês em 8% para compensar as perdas. A Patek Philippe deve seguir o mesmo caminho, depois que a medida do BC foi anunciada duas semana após a empresa revelar investimentos de 450 milhões de francos para ampliar suas fábricas

Jean-Claude Biver, chefe da LVMH Moet Hennessy Louis Vuitton, alerta que um terço das exportações de relógios suíços vão justamente para a zona do euro. "Nesse caso, ou você aumenta preços ou reduz suas margens", indicou, alertando que ele não tem como cortar preços em 15%. "Estamos sob choque ainda", admitiu.  

Para Patrik Schwendimann, analista do Zuercher Kantonalbank, 2015 podem marcar o primeiro ano de queda nas exportações de relógios suíços, desde 2009.  Em 2010, as vendas tiveram uma expansão de 22%. 

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