Cartão de crédito aposenta o pré-datado

O cartão de crédito parcelado, que já responde por 40% das transações feitas por meio de plásticos, começa a tirar o sono dos varejistas de eletroeletrônicos e móveis, embora seja a forma utilizada por boa parte dos brasileiros para realizar o sonho de consumo. Segundo os comerciantes, esta forma de pagamento não leva o consumidor de volta ao ponto-de-venda para pagar a fatura na loja e fazer uma nova compra, como ocorre com o carnê. Eles alegam ainda que o cartão parcelado engole o ganho do lojista, que tem de pagar uma comissão que varia de 2% a 7% sobre o valor da compra para a operadora do cartão de crédito. Na maioria das vezes, a comissão é superior ao risco de inadimplência que existiria se o financiamento da transação fosse feito por conta própria, por meio de cheque ou carnê. A concorrência e a conjuntura fraca de vendas obrigam o comércio a aceitar o cartão de crédito parcelado. Já há redes médias que não aceitam mais pagamento por cartões. Na prática, o varejo de eletroeletrônicos e móveis vive hoje impasse semelhante ao enfrentado há 10 anos pelos supermercados. Na época, os supermercados passaram a aceitar o cheque pré-datado e acabaram com a galinha dos ovos de ouro do negócio, que era receber à vista e pagar os fornecedores a prazo. Só um movimento acertado entre os concorrentes permitiu quebrar a armadilha criada pelos próprios comerciantes no ímpeto buscar mais clientes. "Hoje ninguém diz quem foi o primeiro a aceitar o cartão parcelado, mas todos querem parar", afirma o diretor Administrativo e Financeiro das Lojas Colombo, Ricardo Müller. Com 358 lojas espalhadas entre entre São Paulo, Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul e Minas Gerais, cerca de 12% das vendas da rede são quitadas por meio de cartão de crédito. Empurrada pela concorrência e pela necessidade de atender aos clientes das classes A e B, com a abertura de lojas em shoppings, Müller conta que a empresa passou a aceitar o cartão parcelado. "O mercado nos levou a isso." Mas ele diz que esse instrumento de pagamento canibaliza parte das vendas por meio do crediário. Também a taxa cobrada pelas operadoras de cartão das lojas é elevada, o que reduz a margem do varejo. Por causa desses custos elevados, Müller conta que a companhia decidiu reduzir os prazos do parcelado, mas as vendas caíram e a rede teve de voltar atrás. "Aceitar o cartão parcelado é um mal necessário, infelizmente", afirma Nilson Berlanda, diretor das Lojas Berlanda, com 58 pontos de venda no Sul do País. Atualmente, as vendas quitadas por meio do cartão de crédito representam 8% do faturamento da companhia. Ele diz que apesar de a aceitação do cartão ter melhorado as vendas das lojas do litoral, cuja clientela é de maior poder aquisitivo e não quer comprar no carnê, ele tira parte da venda que seria feita por meio do crediário e à vista. Além disso, a margem do varejo se reduz, por causa da comissão das operadoras e do deságio na antecipação do recebimento da venda. Na contramão da concorrência, as Casas Bahia, maior varejista de eletroeletrônicos e móveis do País, dizem que a aceitação do cartão crédito agregou venda e não canibalizou o crediário. "Estamos capitalizados", diz o diretor Administrativo e Financeiro, Michael Klein. Segundo ele, o processo de redução de margem pela aceitação do cartão afeta as empresas menores e menos capitalizadas, que têm de antecipar o recebimento do cartão parcelado com deságio. Hoje o cartão representa 17% do faturamento da rede e há um ano essa fatia era de 10%. O saldo do crediário engordou R$ 1 bilhão de 2004 para 2005. O diretor de Marketing da Associação Nacional das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs), Antonio Luiz Rios, diz que não conhecimento sobre as reclamações do varejo nem informações sobre empresas deixando de aceitar cartões. Ao contrário, diz ele, a cada mês de 10 a 15 mil novos estabelecimentos passam a aceitar cartão e a demanda maior é pelo parcelado. Atualmente há no País mais de um milhão de estabelecimentos comerciais que aceitam cartões.

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