Felipe Rau / Estadão
Felipe Rau / Estadão

‘Catástrofe é eleger um presidente sem base para governar’

Para executivo, eleito terá de lidar com o mesmo legislativo e vai enfrentar dificuldades para aprovar reformas

Entrevista com

Gabriel Galípolo, presidente do banco Fator

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2018 | 04h00

O mercado deve reagir com euforia a uma vitória do candidato Jair Bolsonaro (PSL), preferido dos investidores para derrotar o PT, mas, logo no início do ano que vem, vai perceber que o “mundo não é tão cor de rosa como se esperava”, diz o presidente do banco Fator, Gabriel Galípolo.

Segundo ele, as estruturas serão as mesmas, o legislativo também, e continuará sendo difícil aprovar as reformas. “O cenário mais catastrófico é termos a eleição de um candidato que não consiga ter uma base para governar.” Hoje, porém, Galípolo acredita que o mercado tem sido mais influenciado pelo ambiente externo do que pelas incertezas políticas. Mas diz que isso pode se inverter com o resultado das eleições.

Como tem sido fazer negócio nesse ambiente de incerteza?

Os investidores têm preferido manter a liquidez do que estar numa posição fechada (ou seja, ficar em aplicações fáceis de sair). É natural que as empresas aguardem, pelo menos, o resultado do primeiro turno para tomar decisões. De qualquer forma, acredito que a volatilidade do mercado tem refletido mais o cenário externo do que o interno, apesar das incertezas políticas.

Como assim?

Se você colocar a evolução do CDS (risco Brasil) ou do câmbio com os resultados das pesquisas e fizer o mesmo com os demais emergentes, vai perceber, por incrível que pareça, que eles têm maior correlação com o cenário internacional. As principais variáveis macroeconômicas ainda continuam sendo influenciadas, mesmo com esse baita cenário eleitoral, pelo ambiente externo. Ganhar dinheiro no médio e longo prazos está associado a você entender a discussão lá fora, se o aperto monetário vai perdurar ou não e se é possível voltar a subir juros.

Pode haver um descolamento?

Num cenário que vença um candidato que o mercado goste mais, sim. Por dois motivos: um pela questão da expectativa e confiança e segundo é que, comparado a outros emergentes, o Brasil tem fundamentos macroeconômicos distintos. Apesar da questão fiscal ser grave, o Brasil dispõe de uma posição favorável porque só tem dívida em moeda doméstica, ao contrário do que ocorre com a Argentina.

E quem o mercado prefere?

Tem um movimento que é mais simpático ao Bolsonaro (PSL). Há uma interpretação de que os economistas associados a ele são pró-mercado e pró-privatização. Mas acredito que, mesmo o candidato Fernando Hadadd (PT), que não goza da simpatia do mercado, terá de fazer um movimento positivo para o mercado. A partir do segundo turno, deverá haver uma grande corrida para o centro onde os dois candidatos vão tentar dar sinais positivos para o mercado. O cenário mais catastrófico é termos a eleição de um candidato que não consiga ter uma base para governar.

A polarização deve continuar?

Tenho convicção de que a eleição não dará conta de virar a página completamente. É comum a população depositar muita expectativa em um salvador, mas temos de entender que as estruturas serão as mesmas. O legislativo vai continuar lá e você deve ter a repetição de coisas que já ocorreram. O mercado terá uma reação exagerada nos dois sentidos. Se ganhar um candidato que o mercado aposta, a tendência é ter um overshooting (reação exagerada) positivo, mas quando chegar em março vão perceber que o mundo não é tão cor de rosa como se imagina. Aprovar as reformas continuará sendo difícil e precisará de uma coalização. Do outro lado, se um candidato que o mercado não goste ganhar, vai ter um cenário negativo, mas quando chegar em março vai se ver que o presidente terá de fazer concessões e um aceno mais pró-mercado.

Há semelhanças com 2002?

Do ponto de vista do mercado internacional, não teremos mais aquele vento da inserção da China na OMC, das relações entre EUA e China que permitiram a gente crescer tanto entre 2005 e 2008. Ao mesmo tempo a gente não tem um cenário externo tão negativo, temos mais reservas do que dívida externa e não há pressão inflacionária do ponto de vista do câmbio nem de emprego e atividade econômica. Isso significa que teríamos mais margem de manobra interna para fazer o País crescer comparado a 2002. Do ponto de vista político, temos um candidato do PT que vai tentar reunir outros partidos para se posicionar como uma frente ampla democrática.

Qual deve ser a prioridade do próximo presidente?

A prioridade será retomar o crescimento por meio de investimento e não do consumo de famílias. Qualquer candidato terá de encarar milhares de obras que estão paradas por problemas de ordem econômica ou de compliance. Se conseguir equacionar esse problema e devolver investimento de infraestrutura, você terá algo que é intensivo em mão de obra, que é a construção civil, que gera emprego rápido, eleva consumo e aumenta a produtividade da economia.

E o investimento público?

Historicamente se diz que o Brasil precisa elevar a participação do investimento no PIB. É quase um equívoco matemático. O investimento, se ficar na mesma lógica do teto de gastos, nunca vai ganhar participação em relação ao PIB por uma questão de álgebra. O gasto vai crescer pela inflação e o PIB por inflação mais crescimento real. Nos últimos dois anos, o custeio tem crescido acima da inflação e os investimentos espremidos, à míngua.

O sr. não concorda com o teto?

Como está, o teto terá de ser revisto porque dificilmente será exequível. Não concordo com o teto do jeito que está, pois não permite que os investimentos cresçam em relação ao PIB.

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