Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Com melhora do cenário externo, dólar reduz alta e fecha dia em R$ 3,91; Bolsa cai 1,02%

Cotação de moeda americana chegou a bater R$ 3,95 na manhã desta sexta-feira; negociadores dos Estados Unidos e da China estão planejando diálogos comerciais com uma solução entre Trump e Xi

Simone Cavalcanti, Paula Dias e Renato Carvalho, O Estado de S.Paulo

17 Agosto 2018 | 09h54
Atualizado 17 Agosto 2018 | 18h50

O aumento da tensão provocada pela crise turca, que penalizou os mercados pela manhã e fez o dólar ultrapassar os R$ 3,95, ficou em segundo plano na tarde desta sexta-feira, 17, após relatos de que EUA e China traçam um plano para que a disputa comercial entre ambos seja encerrada em novembro. Entretanto, a melhora verificada no exterior não foi suficiente para que os ativos negociados no Brasil encerrassem no positivo, mas serviu para que as perdas diminuíssem.

No mercado local de ações, prosseguiu o clima de cautela com o cenário eleitoral, dado o receio com a possibilidade de alta transferência de votos para Fernando Haddad (PT), vice na chapa de Lula, caso o ex-presidente tenha sua candidatura impugnada. Há ainda expectativa em torno do debate entre presidenciáveis nesta noite, na RedeTV!, e das próximas pesquisas de intenção de voto. O Ibovespa, principal índice da Bolsa de São Paulo, que chegou a recuar mais de 1,5% pela manhã, terminou com queda de 1,03%, aos 76.028,50 pontos. Na semana, o índice caiu 0,63%.

O dólar, que na máxima da sessão alcançou R$ 3,9528 (+1,28%), terminou em alta de 0,29%, a R$ 3,9142.

Dólar acumla alta de 4,23% na semana

A combinação entre o cenário externo adverso e a apreensão com o quadro eleitoral doméstico levou o dólar à sua terceira alta consecutiva nesta sexta-feira, com as cotações testando novos patamares. A moeda americana chegou a ser negociada acima de R$ 3,95 pela manhã, mas reduziu o ritmo e fechou aos R$ 3,9142 no mercado à vista, com alta de 0,29%. No acumulado da semana, o avanço do dólar sobre o real foi de 4,23%.

Novos desdobramentos da crise na Turquia e a repercussão de uma pesquisa eleitoral levaram a moeda americana às máximas pela manhã. Em contrapartida, novos sinais de aproximação entre Estados Unidos e China trouxeram alívio às cotações à tarde, quando a divisa tocou as mínimas. Traduzindo em números, o dólar oscilou em um intervalo de 4 centavos, entre a máxima de R$ 3,9528 (+1,28%) e a mínima de R$ 3,9132 (+0,26%).

Com a agenda de indicadores e eventos esvaziada e as atenções bastante concentradas na corrida eleitoral, sobrou espaço para a cautela do investidor com eventos futuros. Essa prudência, dizem os analistas ouvidos pelo Broadcast, contribuiu para travar as cotações do dólar em diversos períodos do dia. Na noite desta sexta-feira, 17, ocorre o debate entre presidenciáveis na RedeTV! (às 22h). Na semana que vem serão divulgadas pelo menos três grandes pesquisas eleitorais de abrangência nacional. Na segunda-feira serão conhecidas as pesquisa CNI/Ibope e CNT/MDA. Na quarta será a vez do levantamento do Datafolha.

"O mercado esteve parado em boa parte do dia. Os compradores não entraram, devido ao valor elevado da moeda. E quem poderia vender preferiu aguardar. Isso travou o mercado, que aguarda definições tanto no cenário externo como no interno", disse Marcos Trabbold, gerente de operações da B&T Corretora.

O operador Hideaki Iha, da Fair Corretora, confirmou o "travamento" do mercado, em meio a um ambiente de indefinição do cenário político e liquidez reduzida. Ele afirma que o ambiente é de elevada sensibilidade do mercado ao noticiário político. "Os investidores operam com 'tiro curto', em um mercado pequeno e sensível ao noticiário. Qualquer oscilação mais brusca, para cima ou para baixo, pode gerar prejuízos, e é isso o que o investidor quer evitar", disse.

Bolsa fecha em queda de 1,02%

Os investidores operaram pautados pelas contínuas incertezas do cenário eleitoral local, mas também com as atenções voltadas para as movimentações geopolíticas que seguem anuviando o cenário externo. O Ibovespa iniciou a sessão de negócios bastante prejudicado, mas, sob influência da melhora dos índices das bolsas americanas no meio da tarde, conseguiu encerrar o pregão defendendo o suporte dos 76 mil pontos. A queda foi de 1,03%, aos 76.028,50 pontos, com giro de R$ 10,4 bilhões. As perdas acumuladas somam 0,63% na semana, chegando a 4,03% em agosto.

Para Glauco Legat, analista-chefe da corretora Spinelli, o desempenho do Ibovespa foi muito mais pautado por questões internas do que externas. Nesse conjunto de fatores que influenciaram o apetite por risco, o especialista em renda variável coloca tanto as pesquisas de intenção de voto quanto notícias no plano corporativo que pesaram sobre os papéis.

Legat cita sondagem divulgada hoje na qual o candidato tucano Geraldo Alckmin se mantém estagnado enquanto Fernando Haddad, eventual substituto do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na cabeça de chapa do Partido dos Trabalhadores (PT), avança. "Mesmo sem oficializar a substituição, Haddad cresce e isso é visto como um indício de que a transferência de voto do Lula para ele pode ser forte. Em contrapartida, Alckmin patina", avalia.

Os investidores também optaram por manter a cautela - nesta semana em que os partidos e coligações registraram seus candidatos para as eleições - à espera de duas pesquisas, que ouviram eleitores em âmbito nacional, a serem divulgadas na próxima segunda-feira: Ibope e o instituto MDA (pela Confederação Nacional do Transporte - CNT). Também no plano político, está marcado para hoje à noite (22h) o segundo debate com os candidatos ao Palácio do Planalto na RedeTV!.

Marfrig cai 9% com notícia sobre venda da Keystone

A Marfrig foi o destaque negativo do pregão desta sexta-feira, 17, em uma trajetória muito diferente da verificada no começo do dia. A ação chegou a subir 10% após a notícia sobre o fechamento do acordo para venda da Keystone. No entanto, avaliações posteriores sobre o preço da operação reverteram totalmente a tendência. Com exceção da Marfrig, as outras principais quedas e altas do Ibovespa foram influenciadas principalmente pelo cenário eleitoral local.

Marfrig ON fechou com queda de 9,30%. Segundo operadores, havia uma expectativa de que a venda da Keystone rendesse cerca de US$ 3 bilhões à companhia brasileira. Como a notícia divulgado hoje na imprensa local dá conta de uma operação de US$ 2,5 bilhões, os investidores passaram a vender os papéis.

Light fecha em alta com notícia sobre oferta pública de ações

Fora do índice, Light ON fechou em alta de 4,12%. A companhia informou nesta quinta, 16, que avalia a possibilidade de realizar uma oferta pública de ações ON (follow on), e como ato preliminar, fechou um memorando de entendimentos não vinculante com a GP Investments, para que os fundos geridos pela empresa façam a ancoragem de parte da oferta.

Para os analistas do BTG Pactual, a leitura sobre a operação ainda é difícil, já que a Light não divulgou detalhes como tamanho da potencial diluição para os acionistas, preço ou prazo para que a oferta seja realizada. Mas de qualquer forma, os recursos seriam bem vindos, já que a companhia vem apresentando desempenho operacional ruim. Além disso, a participação da GP é considerada importante, já que a gestora participou da reestruturação da maranhense Cemar em 2004.

Banco Inter sofre com vazamento de dados

Banco Inter PN fechou em baixa de 6,28%. A instituição confirmou pela primeira vez que dados de seus clientes foram vazados na internet. Em nota enviada aos correntistas, o banco disse que a “exposição dos dados foi de baixo impacto” e que os clientes prejudicados de forma grave foram notificados. Segundo apurou o jornal O Estado de S. Paulo, o vazamento está sendo avaliado pela Justiça de Brasília, em um caso que corre em sigilo, e também é motivo de um processo pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), uma vez que o Inter tem capital aberto desde abril deste ano.

Estímulos à economia turca

O Ministério de Finanças e Tesouro da Turquia anunciou nesta sexta-feira medidas de estímulos direcionadas a empresas, após a recente volatilidade da moeda do país. "Os canais de crédito serão mantidos abertos", afirmou o ministério em comunicado.

O ministério disse também que continuará dando flexibilidade a vencimentos e preços para garantir o fluxo de caixa das empresas, que irá ignorar limites para concessão de crédito, em razão do recente forte aumento registrado pela lira, e que não aceitará mais pedidos para execução de dívidas.

Em teleconferência com investidores internacionais, o ministro de Finanças da Turquia, Berat Albayrak, reconheceu ontem as difíceis condições atuais, mas prometeu que o país sairá mais forte deste período de turbulência. Desde o começo do ano, a lira acumula desvalorização de quase 40% em relação ao dólar.

Na quinta à noite, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a criticar a Turquia e disse que seu governo não irá pagar pela libertação do pastor Andrew Brunson, a quem chamou de "pastor cristão maravilhoso" e que pretende "gastar menos" com Ancara.

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