Chineses mantêm fé na bolsa de valores

Um planeta abarrotado de inexperientes investidores entorpecidos pela possibilidade de se enriquecerem do dia para a noite. Eis um dos retratos sem retoques do mercado acionário da China, onde os centros de acompanhamento dos pregões oferecidos pelas corretoras proliferam como se fossem modernas casas de chá. Milhões de chineses vêm apostando alto nas expectativas de grandes negócios, levados pela incrível valorização de 150% das ações listadas nas bolsas de Xangai e Shenzhen em 2006. A expressiva queda de quase 9% das bolsas na semana passada - a maior baixa da última década - parece não ter minado o excesso de otimismo em torno do retorno financeiro dos investimentos. ?Bolha? Os duros discursos do governo terão que se traduzir em ações para conter a especulação, reestruturar as bolsas e se preservar a credibilidade das instituições? afirmou o Shanghai Securities News. A recente volatilidade das bolsas não arrefeceu o furor dos chineses pelas bolsas. Segundo os dados do China Securities Depository and Clearing Corporation Limited (SD&C), as corretoras registraram na quarta-feira absurdas 334,4 mil aberturas de contas, ante as 60 mil aberturas diárias em fevereiro e as 30 mil em dezembro. ?Os fundos continuam em franca expansão, puxados pela intensa procura. Enquanto o Zhonghai Fund Managements lançou hoje 8 bilhões de ações, o Huafu se prepara para lançar 10 bilhões na próxima segunda-feira?, estampou o Shanghai Securities News. O estrondoso fenômeno acabou batizado como ?Quanmim chaogu? (Todos apostam nas bolsas, em livre tradução) pelo Sina.com, o maior portal noticioso chinês. ?As bolsas se tornaram o tema predileto nos escritórios, jantares sociais e reuniões familiares?, disse o portal, ao aconselhar os investidores a buscarem a ajuda de ?analistas experimentados? para se precaverem das oscilações das bolsas. O atual cenário era inimaginável há pouco mais de um ano e meio, quando o Índice Composto de Xangai estava no fundo do poço: 1.600 pontos. ?A credibilidade estava em baixa. Entre 1993 e 2003, apenas 244 empresas distribuíram seus lucros entre os acionistas?, constatou a agência de notícias Xinhua. O clima de desconfiança começou a ser revertido quando o governo decidiu criar um agressivo mercado acionário. ?A pulverização das ações é um ideal compatível e necessário para a construção de uma sociedade com um padrão de vida modestamente confortável até 2020?, defendeu, em 2004, o diretor da poderosa Comissão Nacional de Supervisão e Administração dos Bens do Estado (Sasac, na sigla em inglês), Li Rongrong, ao anunciar a privatização ou a extinção de milhares de empresas estatais. Opção mais rentável As taxas de crescimento anual acima de 10% nos últimos quatro anos, a expansão do poder aquisitivo da população urbana e o fato de as ações se tornarem uma opção muito mais rentável que os depósitos bancários também contribuíram para o boom das bolsas. ?Temos de canalizar parte desse potencial (financeiro) para o mercado acionário?, dizia na época o China Securities Journal. Resultado: as bolsas de Xangai e Shenzhen levantaram US$ 26,9 bilhões no ano passado, com um avanço de 36% em relação ao ano 2.000. ?O montante engloba os US$ 20,5 bilhões levantados pelas Ofertas Públicas Iniciais e US$ 6,4 bilhões em Ofertas Públicas Secundárias?, disse Yao Gang, assessor do presidente da China Securities Regulatory Commission (CSRC). O aposentado Dong Wei diz que há pouco mais de oito meses aderiu à ?grande moda dos investimentos em ações?, por sugestão de vários amigos. Para ele, o centro de acompanhamento dos pregões da corretora Guotaijunan, em Xichengqu, zona oeste de Pequim, é um local de lazer. ?Jogo cartas, bato um papo e mato o tempo, enquanto confiro o desempenho das ações.? Dong afirma que lucrou o ?suficiente para oferecer uma feliz passagem de ano a toda sua família?, em referência à Festa da Primavera. Na avaliação do aposentado, as bolsas se recuperarão em breve. ?A economia chinesa continuará crescendo rapidamente nos próximos anos, pois é muito sólida?, disse, reproduzindo a opinião dos principais analistas econômicos chineses. Apesar dos riscos, o aposentado emprega o surrado vocabulário marxista chinês para expressar a sua empolgação com as ações. ?Há dez anos, as massas não podiam participar das bolsas. Sabemos que muitos enriqueceram neste período. Os fatos comprovam os avanços sociais e econômicos da China nos últimos anos.?

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