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Em Wall Street, investidores olham com preocupação antecipação dos embates eleitorais Mark Lennihan/AP

Clima de eleição antecipada traz mais incerteza para o investidor estrangeiro

Os ataques do presidente Jair Bolsonaro ao sistema eleitoral também preocupa investidores, que esperavam momento mais complexo somente no ano que vem

Beatriz Bulla, O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2021 | 05h00

Os ataques do presidente Jair Bolsonaro ao sistema eleitoral são vistos por investidores estrangeiros como o sinal de que a atenção do presidente já está voltada para a eleição de 2022. Isso significa que daqui até outubro do próximo ano as incertezas tendem a aumentar – e os gastos públicos também. Na visão de gestores de fundo e analistas estrangeiros ouvidos pelo Estadão, a agenda liberal prometida pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, tende a ficar pressionada conforme o Planalto se volta para a reeleição. 

Dando como certo o aumento de gastos públicos e a continuidade da turbulência política, os estrangeiros temem um desequilíbrio fiscal e começam a discutir como será 2023, após a disputa pelo Planalto. “Os mercados estão acostumados a lidar com o barulho político e olham os dados e ações concretas para saber o que de fato acontecerá após a volatilidade”, afirma Martin Castellano, chefe para a América Latina do Instituto de Finanças Internacionais (IIF, na sigla em inglês). “A incerteza recai mais sobre quem vai ganhar a eleição – e qual será a política em vigor – do que sobre as declarações políticas do presidente a respeito do processo eleitoral.”

Para Will Landers, chefe de renda variável da BTG Pactual Asset Management, gestora do banco de mesmo nome, a eleição já entrou no radar. “As pessoas já estão prestando atenção nas eleições, que pensava-se que seria um tema só no ano que vem”, diz.

O debate sobre voto impresso e as acusações infundadas de fraude eleitoral não afugentam os investidores, segundo os gestores ouvidos. Eles concordam com Castellano ao dizer que os donos do dinheiro estão habituados às turbulências políticas e ao “barulho” – em especial no governo Bolsonaro. A atenção do presidente ao assunto, no entanto, é vista como uma antecipação da campanha.

Segundo dois nomes da área em Wall Street, as especulações sobre a formação da política econômica dos candidatos mais competitivos já começaram. “Se Bolsonaro ganhar, Paulo Guedes continua? Se Lula ganhar, ele traz um nome do mercado para a sua chapa?”, diz uma fonte do mercado.

No primeiro semestre, uma recuperação econômica mais forte no Brasil e a disposição do governo em defender reformas econômicas melhorou o humor de estrangeiros com o País, na comparação os países da América Latina. Mas julho trouxe más notícias, com saída de fluxo de investimentos, e agosto, na leitura do IIF, segue volátil. 

A preocupação global com o avanço da variante Delta contribuiu para o saldo negativo do mês passado. No cenário doméstico, a questão fiscal é a mais frágil, diz Castellano. “A agenda de reformas tem muitas idas e vindas. Isso cria uma incerteza significativa”, afirma.

Em meio às discussões sobre o Orçamento, precatórios e o novo Bolsa Família, dizem alguns, o Brasil passa a ser visto como um País difícil para investir. Os que ainda estão olhando para o mercado brasileiro dizem que agora o principal temor é uma quebra fiscal de um governo preocupado com a reeleição.

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Riscos político e fiscal ‘tiram’ 30 mil pontos da Bolsa

Segundo analistas, o Ibovespa poderia estar entre 142 mil e 152 mil pontos se fossem considerados apenas os resultados das empresas

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2021 | 05h00

Em meio a uma crise institucional e ao aumento do risco fiscal, o mercado financeiro pareceu não se importar com o cenário político. Desde o começo do mês, não houve nenhuma variação brusca na Bolsa e no dólar, que estão praticamente no mesmo patamar, pouco acima dos 120 mil pontos e dos R$ 5,20, respectivamente. Analistas do mercado, no entanto, afirmam que os ativos brasileiros estão sentindo, sim, a crise. A Bolsa estaria entre 142 mil e 152 mil pontos e o câmbio, inferior a R$ 5 se não houvesse tanto ruído em Brasília, dizem. 

“Quando o presidente traz o tema do voto impresso (para o debate) ou aumenta a base de benefício social a um ano da eleição, ele acaba antecipando o risco das eleições nos preços dos ativos”, diz o gestor Luiz Felipe Laudari, da Mauá Capital.

Os cálculos de que o Ibovespa (principal índice da B3) deveria estar mais alto consideram a evolução de outras bolsas, os resultados das empresas listadas no País e também o preço das ações dessas companhias. “Quando você olha os mercados lá fora, vê o americano batendo recorde todo dia. Frankfurt também. Todas as bolsas estão com valorização de 15% no ano ou mais. E, aqui, ela beira a estabilidade, com pouco mais de 1%. Deveríamos estar subindo mais que o mercado americano, por causa do risco de ser um emergente”, afirma Alvaro Bandeira, sócio do Modalmais.

A alta acumulada do Ibovespa no ano é de 1,97%, enquanto a do indicador da Bolsa de Nova York é de 17,33%, a da Nasdaq, de 16,73% e a de Frankfurt, de 16,4%. Entre os emergentes, a Bolsa da Argentina subiu 26,6% e a da Rússia, 20,1%. Caso o Ibovespa tivesse acompanhado o nível dos emergentes, com uma alta de 20% no ano, o índice estaria em 142,6 mil pontos – na sexta-feira, no entanto, encerrou o pregão com 121,2 mil pontos.

Os analistas destacam que o desempenho pífio brasileiro só não é pior graças aos resultados das companhias, melhores do que previstos desde o início da pandemia. O estrategista-chefe da XP, Fernando Ferreira, diz que 77% das empresas do Ibovespa que publicaram seus resultados do segundo trimestre até agora tiveram desempenho em linha ao esperado ou até melhor. “O que tem segurado a Bolsa é a história micro das empresas. Estamos tendo mais uma temporada de resultados fortes”, afirma Ferreira.

O gestor acrescenta que, se fossem considerados apenas os fundamentos das companhias e a expectativa de lucro atual delas, o Ibovespa estaria em 152 mil pontos.

Juros e câmbio

Para o economista Silvio Campos Neto, sócio da consultoria Tendências, no entanto, o câmbio e os juros são os ativos que mais têm sofrido o efeito das crises de Brasília. “Era para o dólar estar em um patamar mais baixo. 

Ele não está em parte devido à incerteza política. As tensões se traduzem em ameaça ao setor fiscal: mudança no Bolsa Família e precatórios. Além disso, estamos indo para outro tom, a institucionalidade (sendo ameaçada). Isso assusta os investidores.” 

Cálculos da gestora Mauá Capital indicam que o dólar deveria estar abaixo de R$ 4,80. Na sexta, porém, encerrou o dia valendo R$ 5,25. “Tem um prêmio de risco aí causado pelo presidente. A situação fiscal vinha bem, com a surpresa positiva em razão da arrecadação mais alta e da contenção dos gastos. Era de se esperar que os ativos estivessem com um comportamento benigno”, diz Laudari.

No caso da curva de juros, o impacto é ainda mais visível. A taxa do contrato de Depósitos Interfinanceiros (DI) que vence em 2029 estava em 8,7% no começo de julho e hoje está a 9,8%. O economista Paulo Bokel, da ARX Investimentos, explica que essa alta não ocorreu devido ao aumento da taxa básica de juros, a Selic. Isso porque o mercado reagiu à Selic principalmente em junho, quando o Banco Central mudou de tom na condução da política monetária. “Não houve um grande aumento (na curva de juros) na última reunião do Copom (Comitê de Política Monetária, do BC). Na anterior (em meados de junho), o ajuste no mercado foi maior”, diz Bokel.

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