Com acordo, Volks deve produzir 2 novos modelos no ABC

Em uma assembléia tensa, trabalhadores da Volkswagen aprovaram ontem o acordo que prevê 3.600 demissões na fábrica de São Bernardo do Campo, no ABC paulista. Cerca de 1.800 cortes serão feitos este ano e os demais até 2008, por meio de programa que oferece indenização para quem aderir. Se não houver adesões, a empresa indicará quem deve sair. A assembléia começou sob vaias de funcionários descontentes com o pacote oferecido pela empresa. Na votação, que reuniu cerca de 10 mil de um total de 12.400 funcionários, pelo menos 30% rejeitaram a proposta.Com o aval dos empregados para promover a reestruturação, a Volkswagen garante a produção de dois novos veículos no ABC. A direção da montadora ameaçou fechar a fábrica se o plano não fosse aceito, atitude que levou o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) a suspender empréstimo de R$ 497 milhões em fase de liberação."Ao aprovar o acordo, os empregados da Anchieta sinalizaram que querem assegurar o futuro da fábrica", informou, em nota, o presidente da Volkswagen do Brasil, Hans-Christian Maergner. A empresa "entra em uma nova fase em que a retomada de sua rentabilidade por meio de operações mais competitivas se torna realidade".O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, José Lopez Feijóo, disse que o ideal seria não ter demissões, "mas foi o acordo possível." Afirmou que as negociações resultaram em avanço em relação ao que a Volks propôs no início de maio. A empresa queria indicar os 3.600 demitidos e oferecia incentivo de 40% do salário mensal por ano trabalhado.O plano também previa cortes de benefícios trabalhistas, mas alguns dos itens foram revistos, como a redução do salário em 35% para novas contratações, disse Feijóo. Com o acordo, há uma escala decrescente de benefícios. Os primeiros 1.500 funcionários que aderirem ao plano de demissão até 21 de novembro receberão 1,4 salário extra por ano de trabalho. Depois, os valores serão menores."É uma discriminação não pagar o mesmo salário para todos", criticou o operário da estamparia Genivaldo Teixeira, que votou contra a proposta. Ele trabalha há 17 anos na Volks. "O pacote é bom, mas não pretendo me inscrever", disse o montador Antonio Oliveira, de 46 anos, funcionário há 13 e que votou pelo sim.A matriz da Volkswagen deve confirmar hoje, na Alemanha, novos investimentos para a Anchieta. Feijóo calcula que, para adequar a fábrica aos novos modelos, serão necessários investimentos de R$ 1 bilhão, mas a empresa não confirma.No mercado, especula-se que os novos produtos são uma picape de médio porte e a versão sedã da nova família Gol, ou então do seu substituto. Modelos dessa linha também serão produzidos em Taubaté (SP), a primeira a aprovar o acordo de reestruturação para o desligamento de 700 funcionários. Na fábrica de São José dos Pinhais (PR), a negociação para o corte de 900 pessoas começará logo.O Paraná deve concentrar a produção do Fox, hoje feito também no ABC. Nessa unidade, estão ocorrendo demissões esporádicas desde o início do ano, quando havia 4 mil pessoas. Hoje há 3.600.Até o fim de 2008, a Volks terá reduzido seu quadro no Brasil em 6 mil trabalhadores, de um total de 24 mil em cinco fábricas. A reestruturação segue diretrizes da matriz na Alemanha, que também está cortando 20 mil vagas nas fábricas locais. No Brasil, a empresa enfrentou greve de quatro dias e mudou o plano inicial."Foi a negociação mais difícil que enfrentei", disse Wagner Santana, membro do comitê mundial de trabalhadores da Volks. Funcionário há 22 anos, é militante sindical desde 1987. A dificuldade maior foi ter de negociar ao mesmo tempo reestruturação e demissões. "Antes negociávamos reestruturação para garantir empregos."Ele e Feijóo consideram que "faz parte do debate" a rejeição de 30% dos funcionários. Há críticas entre os 500 trabalhadores do centro de recolocação, pois receberão benefício menores. Outro grupo reclama que há cotas por área e nem todos que quiserem aderir serão aceitos. Feijóo deixou a Volks escoltado por sindicalistas.

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