Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Com crise na Turquia, dólar tem alta e chega a R$ 3,88; Bolsa sobe

EUA aumentaram alíquota de importação de aço da Turquia, pressionando ainda mais a lira turca, que já acumula no ano desvalorização de 80% em relação ao dólar; em meio à crise turca, Argentina sobe juros para 45%

Karla Spotorno e Ana Luísa Westphalen, O Estado de S.Paulo

13 Agosto 2018 | 10h00
Atualizado 13 Agosto 2018 | 17h35

O dólar abriu a semana negociado em alta, refletindo a indisposição do investidor global em aplicar em ativos de risco em meio à crise protagonizada pela TurquiaA moeda americana chegou à máxima de R$ 3,92, em alta de 1,50% durante a tarde desta segunda-feira, 13, mas arrefeceu no final do pregão e fechou em alta de 0,53%, cotada a R$ 3,8885. Já a Bolsa recuperou parte dos prejuízos acumulados na última semana, quando se desvalorizou 6%. O Ibovespa, que reúne os papéis mais negociados na Bolsa de Valores de São Paulo encerrou em alta de 1,28%, aos 77.496,45 pontos.

A Turquia é um exemplo de como os investidores estão retirando dinheiro dos mercados emergentes e optando por mercados mais seguros, como nos EUA, que vem elevando os juros no país.

Além da crise na Turquia, outro destaque do pregão foi a nova elevação de juros na Argentina, onde a taxa básica passa agora de 40% para 45% ao ano. Pesa ainda a favor da valorização da moeda americana a declaração do  porta-voz econômico do partido italiano Liga que ou Banco Central Europeu (BCE) deve oferecer garantia para limitar os spreads dos títulos da zona do euro, ou o euro entrará em colapso.

Embalada pelo fortalecimento das blue chips e com fluxo de investidor estrangeiro na ponta compradora, a Bolsa voltou ao patamar dos 77 mil pontos nesta segunda-feira, 13.

"Devemos ter uma semana melhor para a Bolsa, isso, é claro, se o noticiário externo colaborar. O Ibovespa passou em uma semana do patamar dos 81 mil pontos para os 76 mil pontos na sexta-feira passada, então tem espaço para recuperar", avalia o sócio da Improve Investimentos, Luiz Mariano De Rosa , mencionando a influência que tende a ser positiva dos vencimentos.

Caso da Turquia é alerta para outros países emergentes

A Turquia é um exemplo vivo de como os investidores estão retirando dinheiro dos mercados emergentes. Eles podem obter retornos mais seguros nos EUA porque o Federal Reserve vem elevando os juros no país. Ao mesmo tempo o protecionismo está tornando o resto do mundo mais arriscado.

O presidente turco convocou eleições antecipadas este ano, motivadas em parte pelos sinais de que a economia estava cambaleando. A lira desvalorizou mesmo em meio à campanha para sua reeleição.

O forte declínio da moeda reflete também as preocupações quantos aos fundamentos do modelo econômico adotado por Erdogan, dependentes de um setor de construção voraz que, segundo os oponentes, vem enriquecendo o círculo mais próximo do presidente e aumentando a dívida do país.

Desde que Erdogan conquistou um poder executivo total ao ser reeleito em junho, a lira caiu ainda mais, uma vez que o presidente não ouve conselhos de ninguém, agindo por conta própria. Como exemplo do seu poder hoje ampliado, ele tem descartado todos os apelos para aumentar os juros de modo a reduzir a inflação e abrandar a pressão sobre a lira.

Lira turca tem desvalorização de mais de 80% no ano

A moeda turca perdeu mais de 80% em relação ao dólar neste ano, em grande parte devido às preocupações com a influência do presidente Tayyip Erdogan sobre a economia, suas repetidas solicitações por taxas de juros mais baixas e o agravamento dos laços com os Estados Unidos. Só em agosto, a perda foi de mais de 40%. 

A lira turca chegou a reduzir perdas neste pregão em meio a relatos de que o pastor americano Andrew Brunson poderia ser libertado na Turquia. A situação do pastor é um entrave para a relação bilateral entre Estados Unidos e a Turquia, o que levou o presidente americano, Donald Trump, a anunciar, na sexta-feira, a elevação da tarifa de importação sobre aço e alumínio turcos. Já houve, porém, também relatos de que Brunson pode não ser solto.

O banco central turco anunciou nesta segunda-feira, 13, medidas para conter o enfraquecimento da moeda nacional. Também nesta segunda-feira, a elevação de 25% para 50% na alíquota de importação de aço turco pelos EUA entrou em vigor, segundo a Casa Branca. Na última sexta-feira, o anúncio da medida fez o dólar subir 15,65% ante a lira turca.

No domingo, o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, alertou sobre "medidas drásticas" caso as empresas retirem moeda estrangeira dos bancos em meio à atual crise monetária do país.

Durante discurso na cidade de Trebizonda, no nordeste da Turquia, Erdogan alertou os empresários a não "correrem para os bancos para retirar moeda estrangeira". Ele acrescentou que as empresas devem "saber que manter esta nação viva e em pé não é apenas o nosso trabalho, mas também o trabalho de industriais, de comerciantes".

Em relatório, o operador da H.Commcor Cleber Alessie Machado Neto escreveu que o "forte mau humor com a Turquia persiste nesse início de semana, com os principais mercados internacionais refletindo forte aversão ao risco por parte de investidores, em sua maioria cautelosos com os possíveis contágios desta crise cambial, de confiança e, naturalmente, de receios de solvência"./ COM SERGIO CALDAS, DOW JONES NEWSWIRES, THE NEW YORK TIMES E AP

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