Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Com piora no exterior, dólar sobe 2% e fecha cotado a R$ 3,87

Preocupações com efeitos da disputa entre EUA e China sobre o comércio internacional também afetaram o Ibovespa, que terminou aos 70.609 pontos, em queda de 1,11%

Altamiro Silva Junior e Paula Dias, O Estado de S.Paulo

27 Junho 2018 | 13h15
Atualizado 27 Junho 2018 | 21h05

O Banco Central tentou, sem sucesso, segurar o dólar nesta quarta-feira, 27. A moeda norte-americana subiu 1,99%, vendida a R$ 3,87. O dólar turismo terminou o dia cotado a R$ 4,01, sem considerar o Imposto Sobre Operações Financeiras (IOF). Entre os principais países emergentes, o real teve o segundo pior desempenho ante o dólar, perdendo apenas para a moeda da África do Sul.

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Especialistas em câmbio citam, entre os principais fatores para explicar a alta da moeda dos EUA, o cenário externo adverso, a saída de recursos de estrangeiros do Brasil e a ação de especuladores com os vencimentos dos swaps (instrumento que equivale à venda de dólar pelo BC no mercado futuro).

O BC também usou outra ferramenta para conter a moeda: os leilões de linha. Nesse caso, a venda de dólar se dá no mercado à vista com compromisso de recompra no futuro, colocando um total de US$ 2,4 bilhões no mercado. Ao contrário do leilão feito na segunda-feira, que teve pouca demanda (foram vendidos apenas US$ 500 milhões), o volume desta quarta-feira, 27, foi quase integralmente vendido. A ação do BC contribuiu para um volume de negócios acima da média, mesmo com o jogo do Brasil.

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Para o ex-presidente do Banco Central e sócio da Tendências Consultoria Integrada, Gustavo Loyola, a atuação do BC no câmbio está “de maneira geral, correta”. “O importante para o BC é irrigar a liquidez no mercado de câmbio, mas sem também gerar muita previsibilidade”, diz. “As intervenções têm sempre que deixar algum risco para quem tem posições, quer sejam compradas ou vendidas”.

Ainda para explicar o fortalecimento do dólar no Brasil, operadores ressaltam que há um movimento de investidores, que compraram swaps nos leilões recentes do BC, para pressionar as cotações do dólar para cima e, assim, obter maior ganho financeiro no vencimento dos papéis.

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Especulação. O sócio-diretor da corretora NGO, Sidnei Nehme, ressalta que os especuladores tentavam levar o dólar a R$ 4, pois eles mesmos haviam tomado os swaps nas últimas semanas, pressionando as cotações para baixo nos leilões, a R$ 3,70/3,75. Só em 1.º de agosto vencem US$ 14 bilhões em swap.

Com a entrada em jogo dos leilões de linha, Nehme diz que fica mais difícil esses movimentos especulativos terem impacto na formação da taxa de câmbio, ainda que os agentes continuem tentando pressionar as cotações perto dos vencimentos dos swaps. “A nova estratégia do BC o faz retomar a influência na formação do preço do dólar”, escreveu o diretor em um relatório divulgado nesta quarta. 

Dados do BC também confirmam a saída de capital externo pelo fluxo financeiro (que inclui as aplicações em bolsa e renda fixa). Entre os dias 18 e 22, foram retirados US$ 766 milhões em valores líquidos. Operadores começaram a notar a retirada dos recursos na semana passada. O final deste mês é tanto encerramento de trimestre como de semestre, o que aumenta a demanda por dólar no mercado à vista para remessa de recursos ao exterior por empresas.

Bolsa. As mínimas do dia foram registradas justamente nos momentos de liquidez mais reduzida, enquanto a seleção brasileira enfrentava a Sérvia na Copa do Mundo. Com as bolsas de Nova York em queda generalizada e o dólar em alta superior a 2% ante o real, o Ibovespa chegou a marcar 70.133,96 pontos, perdendo 1,78%.

O volume de negócios acabou ficando acima do esperado para um dia de jogo do Brasil, somando R$ 8,7 bilhões. As bolsas de Nova York consolidaram as quedas à tarde, depois da constatação de que o Partido Republicano não conseguiu os votos necessários para aprovar um projeto de reforma imigratória na Câmara dos Representantes dos Estados Unidos. A medida foi rejeitada por 301 votos contra 121 favoráveis.

Já o petróleo reforçou o sinal de alta da véspera depois que o Departamento de Energia dos EUA (DoE) divulgou que os estoques da commodity caíram 9,891 milhões de barris na semana passada, bem mais que a queda de 2,8 milhões prevista. Na Nymex, o barril do WTI para agosto subiu 3,16%, para US$ 72,76, na cotação mais alta desde 26 de novembro de 2014. Na ICE, o barril do Brent para setembro teve alta de 1,73%, a US$ 77,46.

Influenciadas pelo petróleo, as ações da Petrobrás terminaram o dia com ganhos de 2,70% (ON) e 3,18% (PN). Por outro lado, as ações do setor financeiro, responsáveis por mais de 25% da carteira do Ibovespa, caíram em bloco. Entre elas, os destaques ficaram com Banco do Brasil ON (-2,06%), Itaúsa PN (-2,97%) e Itaú Unibanco PN (-1,81%).

"O pregão no período da tarde foi atípico, com liquidez reduzida e o mercado internacional mandando nos negócios por aqui. Mas a tendência é a mesma para os próximos dias, com influência das commodities lá fora, política aqui dentro e algum espaço para notícias corporativas domésticas", disse Luiz Roberto Monteiro, operador da Renascença Corretora.

Com o resultado de hoje, o Ibovespa anula os ganhos que acumulava na semana e passa a contabilizar baixa de 0,04%. No mês, há queda de 8,01%. Na última segunda-feira (25), o saldo líquido dos investimentos de estrangeiros na B3 ficou negativo em R$ 222,539 milhões, levando o acumulado de junho para uma saída de R$ 6,578 bilhões. No ano, os estrangeiros já retiraram R$ 10,590 bilhões da bolsa brasileira.

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