Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Com tensão comercial, dólar sobe 0,82% a R$ 3,909; Bolsa tem leve alta

Investidores reagem com cautela a incertezas sobre comércio global; Bolsa tem recuperação no fim do pregão e fecha em alta de 0,11% aos 72.839,74 pontos

Altamiro Silva Junior e Paula Dias, O Estado de S.Paulo

02 Julho 2018 | 10h07
Atualizado 02 Julho 2018 | 23h08

O segundo semestre começou com alta generalizada do dólar ante as demais moedas, sendo as divisas de economias emergentes as que mais sofreram. No Brasil, a moeda fechou em alta de 0,82% no segmento à vista, aos R$ 3,9094, maior patamar desde 7 de junho (R$ 3,9146). Já na Bolsa, a melhora dos índices em Nova York acabou determinando a virada do Ibovespa para o terreno positivo, no final do pregão. O índice fechou na máxima de 72.839,74 pontos, alta de +0,11%.

+ Inflação é risco para as aplicações em julho

+ Mercado aumenta estimativa de inflação de 2018 para 4,03%

A segunda-feira não teve atuação extra do Banco Central no mercado de câmbio, marcando a sexta sessão consecutiva sem leilões de novos contratos de swap (venda de dólar no mercado futuro). O pano de fundo da subida do dólar nesta segunda-feira, 02, foi novamente o temor de piora da situação comercial de Washington com seus principais parceiros, sobretudo a China e a União Europeia, com Donald Trump ameaçando sobretaxar os veículos europeus.

Sem se comprometer com valores, o BC prometeu na sexta-feira atuar sempre que necessário no mercado de câmbio, com leilões de linha (venda de dólar à vista com compromisso de recompra) ou swap. Mas optou por não atuar neste pregão. O último leilão de swap extraordinário que o BC fez foi na sexta-feira, dia 22, quando ofertou US$ 1 bilhão. Já a quarta-feira, dia 27, foi a última sessão com atuação discricionária, quando a instituição fez dois leilões de linha, que somaram US$ 2,4 bilhões.

Nesta segunda-feira, o BC fez apenas leilão de rolagem para os contratos de swap que vencem em 1º de agosto, em operação que movimentou US$ 700 milhões, mas não chegou a influenciar as cotações do dólar. Havia a expectativa por esta rolagem e, segundo um operador, apenas se o BC não tivesse rolado o esperado é que as cotações poderiam ter alguma pressão. O dólar operou em alta desde a abertura, mas sempre acompanhando o movimento externo. Na máxima, chegou a encostar em R$ 3,92 no início da tarde.

"O dólar subiu ante todos os parceiros comerciais com preocupações de escalada adicional de medidas de protecionismo comercial", afirma o diretor da BK Asset Management em Nova York, Boris Schlossberg. Durante o final de semana, a imprensa dos EUA noticiou que o país poderia sair da Organização Mundial do Comércio (OMC), mas Donald Trump negou a intenção e disse que a Casa Branca está próxima de anunciar acordos comerciais "justos". Esta última declaração ajudou a tranquilizar as bolsas em Wall Street. "Uma saída da OMC removeria qualquer barreira para Trump adotar políticas protecionistas", destaca Schlossberg.

+ Real mais fraco e greve impactam contas cambiais

Temores de uma guerra comercial estão deixando os mercados nervosos, ressalta em relatório o Bank of America Merrill Lynch, que revisou para cima as projeções do dólar antes das principais moedas do planeta, incluindo o real. No caso do Brasil, o banco norte-americano vê o dólar a R$ 3,65 no final do ano, mas alerta que, no pior cenário, caso da vitória nas eleições de um candidato não comprometido com reformas, e com pouca governabilidade, a moeda dos EUA pode bater em R$ 5,50 em 2019.

Por causa do jogo entre Brasil e México hoje, o volume de negócios foi menor. No mercado futuro, às 17h25, o volume somava US$ 12,4 bilhões. No mesmo horário, o dólar para agosto subia 0,78%, a R$ 3,9200. No mercado à vista, o giro somou US$ 1,1 bilhão.

Bolsa. Depois de uma abertura bastante negativa, o Índice Bovespa chegou ao final do pregão em situação bem mais amena. Com a liquidez reduzida pelo jogo do Brasil na Copa e bastante sensível à influência internacional, o índice fechou aos 72.839,73 pontos, na máxima do dia, em alta de 0,11%, depois de ter caído até 1,14% pela manhã. Os negócios somaram R$ 6,64 bilhões.

A virada das bolsas de Nova York à tarde foi determinante para levar o índice Brasileiro ao terreno positivo. A melhora aconteceu com o abrandamento do tom protecionista do presidente Donald Trump, que afirmou que a Casa Branca está perto de fazer "alguns acordos comerciais justos" e descartou a saída do país da Organização Mundial do Comércio. As ações da Petrobras se descolaram da queda das ações do petróleo e terminaram o dia com ganhos acima de 1%. Houve melhora também dos papéis dos setores financeiro e elétrico.

Pela manhã, o temor de acirramento das disputas comerciais gerou uma onda de aversão ao risco, que afetou as bolsas de Nova York e Europa. No fim de semana, o presidente Trump havia dito que a União Europeia era possivelmente "tão ruim quanto a China" no que diz respeito a prejudicar o comércio americano. Nesta segunda, a UE afirmou que poderia tarifar US$ 300 bilhões em produtos dos EUA se Trump for adiante com a proposta de sobretaxar carros fabricados nos países bloco.

"As oscilações do Ibovespa foram determinadas em boa parte pelo cenário externo. De fato, as tuitadas de Trump trouxeram aos mercados um cenário de maior volatilidade", observou Pedro Paulo Silveira, economista da Nova Futura Corretora. O economista apontou, ainda, alguma movimentação de ajustes de carteiras para o segundo semestre.

As ações da Petrobras iniciaram a recuperação ainda no início da tarde, mas perderam fôlego momentaneamente, com a notícia de que a Vantage Drilling venceu pedido de arbitragem de US$ 622 milhões contra a empresa. Em seguida, voltaram a ganhar fôlego e terminaram o dia com altas de 1,34% (ON) e 1,63% (PN). Já os papéis da Vale não se recuperaram da baixa do minério de ferro no mercado à vista chinês e terminaram o dia em queda de 1,67%.

Entre as ações que fazem parte do Ibovespa, a maior alta ficou com BRF ON (+12,28%), em reflexo do anúncio do plano de reestruturação da empresa, na noite de sexta-feira. A companhia espera levantar até R$ 5 bilhões com a venda de ativos nos próximos seis meses. Depois do anúncio, o Credit Suisse elevou a recomendação da companhia para "neutro", mas manteve o preço-alvo em R$ 18 por ação.

A redução da liquidez da Bolsa desde o início da Copa do Mundo, na opinião de Silveira, tende a continuar nas próximas semanas. Com os recessos parlamentar e judiciário, é considerada pequena a chance de novidades relevantes, principalmente no que diz respeito à prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Por outro lado, os movimentos internacionais e as pesquisas eleitorais, diz o economista, devem continuar a promover volatilidade no mercado de ações.

Os fluxos de investidores estrangeiros devem continuar a determinar o fortalecimento ou enfraquecimento do mercado. Na última quinta-feira (28), o saldo líquido dos estrangeiros ficou negativo em R$ 150,527 milhões, levando o acumulado de junho para um resultado negativo de R$ 6,374 bilhões. No ano, há saídas de R$ 10,386 bilhões.

Mais conteúdo sobre:
dólar bolsa de valores

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.