Compra de bônus pelo BCE é ajuda secreta a bancos, diz Bundesbank

O BCE já gastou quase € 35 bilhões na aquisição de títulos da zona do euro

Álvaro Campos, da Agência Estado,

31 de maio de 2010 | 16h31

A intervenção do Banco Central Europeu (BCE) no mercado da dívida europeu está exacerbando as tensões com o banco central da Alemanha, o Bundesbank, onde autoridades temem que o programa de compra de bônus esteja sendo usado para um pacote de socorro sigiloso para bancos da zona do euro que possuem dívidas da Grécia, segundo pessoas próximas ao assunto informaram ao Wall Street Journal.

Autoridades do Bundesbank têm questionado a lógica do BCE de intervir no mercado de títulos da Grécia em vez de focar o seu suporte em outros países vulneráveis, como Portugal e Espanha, que, ao contrário da Grécia, ainda dependem dos mercados de títulos para financiar seus orçamentos, de acordo com pessoas familiarizadas com o assunto.

A Grécia recebeu um resgate financeiro de outros países europeus e do Fundo Monetário Internacional (FMI) de até € 110 bilhões no mês passado, o que acabou com a sua dependência dos mercados de capital para financiamento até, pelo menos, 2012.

Desde que o BCE começou a adquirir títulos de governos três semanas atrás, o banco já gastou cerca de € 25 bilhões com a dívida da Grécia, de acordo com uma autoridade sênior do Bundesbank, que preferiu não ter seu nome revelado.

Segmentos disfuncionais

Uma porta-voz do BCE se recusou a comentar as críticas. O BCE disse nesta segunda-feira que um total de quase € 35 bilhões já foram gastos na aquisição de títulos da zona do euro até a última sexta-feira. O banco não forneceu uma análise por países, mas participantes do mercado dizem que o BCE também tem adquirido títulos emitidos por Portugal, Espanha, Itália e Irlanda.

O presidente do BCE, Jean-Claude Trichet, insiste em que o banco central não está financiando déficits em Atenas ou outro lugar qualquer, mas sim tornando o funcionamento de segmentos disfuncionais do mercado mais suave. Em um discurso nesta segunda-feira, Trichet disse que quedas nos preços dos bônus "implicam perdas de valor" no balanço patrimonial do banco, o que por sua vez "pode significar que eles podem oferecer menos empréstimos para a economia".

Os críticos do BCE dentro do Bundesbank dizem que o preço dos títulos da Grécia agora é totalmente irrelevante para Atenas, tornando os maiores beneficiários da aquisição dos títulos os bancos que detém a maior parte da dívida pendente bruta da Grécia de € 300 bilhões. Segundo o Banco para Compensações internacionais (BIS, na sigla em inglês), os bancos franceses são os maiores detentores de dívida grega, seguidos pelos bancos da Alemanha.

Os receios do Bundesbank foram relatados pela primeira vez pela revista alemã Der Spiegel no fim de semana. As críticas do Bundesbank são o sinal de um crescente racha entre o BCE o conservador banco central da Alemanha, em que o BCE foi modelado.

O presidente do Bundesbank, Axel Weber, atacou o plano de aquisição de títulos poucas horas dele ter sido anunciado, no dia 10 de maio, dizendo a um jornal alemão que via a medida "criticamente" e que ela carrega "riscos de estabilidade substanciais". Ele não está recuando. Enquanto Trichet apresentou uma defesa detalhada do programa nesta segunda-feira, Weber repetiu em um discurso em uma das filiais do Bundesbank que ele ainda vê o programa "de uma forma crítica".

Outros membros do BCE contra-atacaram a reposta da Alemanha para a crise. Em comentários feitos na sexta-feira, que economistas do setor privado disseram que eram claramente dirigidos à Alemanha, o membro do BCE Lorenzo Bini Smaghi disse que "um grande país da área do euro" considerou que o suporte público para a ação só seria alcançado "dramatizando a situação", e usando retórica sobre o futuro da zona do euro estar em risco ou sobre possíveis expulsões da zona do euro, retórica que Smaghi disse que "só poderia aumentar" o custo do resgate. As informações são da Dow Jones.

 

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