Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Dólar fecha em R$ 4,12, terceiro maior valor desde o Plano Real

Tendência de queda acabou ofuscada pelo mercado internacional, após Estados Unidos e China aplicarem nova rodada de tarifas comerciais entre si

Reuters

23 Agosto 2018 | 11h25
Atualizado 23 Agosto 2018 | 18h39

O dólar tentou corrigir parte da alta acumulada nos seis pregões anteriores, mas, depois de ir à mínima de R$ 4,0409 reais, voltou a ganhar tração até fechar em R$ 4,1203, valorização de 1,45%. A alta reflete a postura dos investidores reforçando posições defensivas diante do quadro externo de maior aversão ao risco e temores com o cenário eleitoral doméstico.

Desde que foi lançado o Plano Real, em 1994, o valor nominal de fechamento do dólar só foi maior do que o desta quinta-feira em duas ocasiões. No dia 21 de janeiro de 2016, a moeda fechou o dia cotada a R$ 4,1705, maior cotação desde o Plano Real. Na época, o mercado refletiu ruídos de comunicação na política monetária do Banco Central, que manteve a taxa Selic em 14,25%, quando agentes do mercado esperavam uma elevação da taxa.

No dia 23 de setembro de 2015, o valor também superou o desta tarde, quando fechou em R$ 4,1350. Na ocasião, o mercado temia o desajuste das contas públicas e o rebaixamento da nota de crédito do País pela agência de classificação de risco Fitch.

Com a valorização desta quinta-feira, a moeda acumula o sétimo pregão consecutivo de valorização, período no qual ficou 6,69% mais cara.

“É o conjunto da obra. Problemas lá fora, China e Estados Unidos, eleição no Brasil, a decisão do TSE e ainda o fator especulação”, afirmou o operador da Advanced Corretora, Alessandro Faganello.

Há dias o mercado tem ficado cada vez mais defensivo diante da cena política, com a aproximação das eleições presidenciais de outubro e após pesquisas de intenção de votos mostrarem que o candidato que mais agrada os investidores, Geraldo Alckmin (PSDB), segue sem decolar. Também contribuía a possibilidade de o PT ir para o segundo turno da disputa, cenário até então não previsto pelos investidores.

Neste sentido, o estresse ganhou força nesta tarde após o ministro Roberto Barroso, relator do registro de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinar a intimação da defesa do ex-presidente e dar sete dias de prazo para os advogados rebaterem os pedidos apresentados para barrar a candidatura com base na Lei da Ficha Limpa.

Assim, o registro da candidatura do líder petista, que foi alvo de 16 impugnações, só deve ser julgado no TSE após o início da campanha eleitoral no rádio e na televisão, afirmaram à Reuters fontes com conhecimento do caso.

O mercado esperava que o prazo fosse menor, de modo a evitar que Lula participasse do horário eleitoral gratuito de rádio e televisão, que começa no dia 31.

Lula, que está preso desde abril por crime de corrupção e lavagem de dinheiro, é visto pelo mercado como um candidato menos comprometido com o ajuste fiscal do país, ao contrário de Alckmin, e seu partido, o PT, gera receio entre investidores após a gestão de Dilma Rousseff.

“O investidor corrige um pouco, mas não quer ficar vendido (aposta na queda do dólar) em dólar. Não há muito espaço para realização maior com as notícias atuais”, afirmou mais cedo o diretor da consultoria de valores mobiliários Wagner Investimentos José Faria Júnior, quando o dólar ainda operava de lado frente ao real numa tentativa de correção.

Dólar mundo afora

O dólar também subia ante divisas de países emergentes, com destaque para o rand sul-africano, depois que o presidente norte-americano, Donald Trump, expressou no Twitter suas preocupações sobre a reforma agrária do país.

À tarde, a ameaça do vice-primeiro-ministro da Itália, Luigi Di Maio, de que seu partido votará pela suspensão do financiamento à União Europeia no próximo ano se seus parceiros não concordarem em receber imigrantes que estão sendo mantidos em um navio da guarda costeira em Sicília, também ajudou a prejudicar o euro e, assim, elevar a pressão do dólar ante a cesta de moedas.

Internamente, o Banco Central brasileiro seguiu sem atuações extraordinárias no mercado de câmbio e, segundo analistas ouvidos pela Reuters, pelo menos por enquanto não deve interferir porque o movimento do real não está muito diferente do comportamento de outras divisas emergentes. Além disso, não falta liquidez no mercado.

Nesta sessão, o BC apenas ofertou e vendeu integralmente 4,8 mil swaps cambiais tradicionais, equivalentes à venda futura de dólares, rolando US$ 4,08 bilhões do total de US$ 5,255 bilhões que vence em setembro.

Se mantiver essa oferta diária e vendê-la até o final do mês, terá feito a rolagem integral.

Bolsa de valores

O Ibovespa fechou em baixa nesta quinta-feira, 23, em meio a um cenário externo mais negativo, com fortalecimento global do dólar, o que afetou emergentes, enquanto o panorama eleitoral no Brasil ainda traz desconforto a agentes financeiros.

O principal índice de ações da B3 caiu 1,65%, a 75.633,59 pontos. O giro financeiro somou R$ 10,2 bilhões.

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