Rahel Patrasso/ Reuters
Rahel Patrasso/ Reuters

Com PIB e exterior positivo, Bolsa sobe quase 1%, no maior nível desde 20 de abril

O dólar à vista recuou na sessão desta quinta-feira,02, e voltou a se situar abaixo da linha de R$ 4,80, em meio ao enfraquecimento da moeda americana tanto em relação a divisas fortes quanto emergentes

Luís Eduardo Leal e Antonio Perez, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2022 | 18h45

A leitura sobre o PIB do primeiro trimestre no Brasil melhorou, ainda que marginalmente, as expectativas de crescimento para o ano, contribuindo para o avanço visto no Ibovespa desde a manhã, que se acentuou à tarde em paralelo às referências de Nova York, também em sucessivas máximas de sessão no período vespertino. Ao fim da sessão, no maior nível de fechamento desde 20 de abril (114.343,78), o índice da B3 mostrava ganho de 0,93%, aos 112.392,91 pontos. Moderado, o giro financeiro foi de R$ 24,5 bilhões. Na semana, o Ibovespa ganha 0,40%, e 0,94% nestas duas primeiras sessões de junho - no ano, sobe 7,22%.

"O PIB brasileiro cresceu 1% no 1T22, abaixo de 1,2% esperado. A principal contribuição para a surpresa negativa do lado da oferta veio do setor de serviços e, do lado da demanda, veio do consumo das famílias", aponta Igor Barenboim, sócio e economista-chefe da Reach Capital. "Com o dado de hoje, se o PIB crescer zero nos próximos trimestres do ano, fechamos o ano com crescimento de 1,5%. Esperamos que o PIB cresça no 2T22 com a continuação da reabertura da economia, retomada do emprego, liberação do FGTS e antecipação do 13º salário do INSS."

"A partir do terceiro trimestre esses impulsos devem arrefecer e o juro alto começar a pesar mais. Com isso esperamos um crescimento de 1,9% para o ano fechado de 2022", acrescenta o economista-chefe da Reach Capital.

Por sua vez, o BNP Paribas elevou projeção para o crescimento econômico do Brasil na esteira do Produto Interno Bruto do primeiro trimestre, indicando uma melhor recuperação. A estimativa é que o PIB fechado do ano cresça 1,5%, e não mais caia 0,5% como previsto anteriormente. No entanto, a expectativa para o PIB de 2023 foi mantida em variação zero pelo BNP.

Para o Barclays, embora a análise seja "mais construtiva" em relação ao crescimento no primeiro semestre deste ano, a postura cada vez mais restritiva do Banco Central é um contrapeso para a segunda metade de 2022. Em relatório, o banco aponta que a pressão sobre o núcleo da inflação pode levar a Selic para um patamar ainda mais alto que o estimado hoje pelo banco, em 13,25%, reporta a jornalista Barbara Nascimento, do Broadcast.

"Ainda que abaixo do esperado, o dado (do PIB) parece ter agradado o mercado, com o Ibovespa, em dia otimista, acompanhando as bolsas mundiais e retomando a alta. O avanço do minério de ferro manteve aquecida a demanda pelos papéis do setor de siderurgia e mineração, que negociam com múltiplos atrativos, e responderam por mais um pregão de ganhos", observa Leandro De Checchi, analista da Clear Corretora.

Nos Estados Unidos, o apetite por risco visto na quinta-feira decorreu em parte da expectativa para o relatório oficial sobre o trabalho, amanhã, do qual parte do mercado financeiro aguarda "uma demanda de mão de obra mais fria, o que pode aliviar um pouco as preocupações com a inflação", aponta em nota Edward Moya, analista da OANDA em Nova York.

Outro destaque do dia no exterior foi a reunião da Opep+, com resultado não muito distante do esperado, sem efeito adicional sobre os preços da commodity.

Na ponta do Ibovespa, destaque para Positivo (+15,33%), CSN Mineração (+9,28%) e Locaweb (+8,73%). No lado oposto, IRB (-3,33%), Eneva (-3,07%) e Localiza (-1,92%).

Dólar

O dólar à vista recuou na sessão desta quinta-feira,02, e voltou a se situar abaixo da linha de R$ 4,80, em meio ao enfraquecimento da moeda americana tanto em relação a divisas fortes quanto emergentes. Apesar da valorização das commodities, na esteira da reabertura da economia chinesa, e da alta firme do Ibovespa, o real apresentou um desempenho modesto em comparação com outras divisas emergentes.

Segundo analistas, o dólar poderia ter caído bem mais por aqui não fosse o recrudescimento das preocupações fiscais. São fortes os rumores de que o governo pode decretar estado de calamidade, abrindo a porta para mais gastos públicos em ano de eleição, incluindo subsídios para compensar a escalada dos preços dos combustíveis. A alta de 1% PIB brasileiro no primeiro trimestre (na margem), embora ligeiramente abaixo do esperado (mediana de 1,2% pelo Projeções Broadcast), foi considerada positiva, mas não teve impacto relevante na formação da taxa de câmbio.

Depois de certa instabilidade pela manhã, o dólar operou em queda ao longo da tarde. Com oscilação de apenas certa de três centavos entre a mínima (R$ 4,7720) e a máxima (R$ 4,8093), a moeda fechou cotada a R$ 4,7885, em baixa de 0,32%. Na semana, a moeda ainda acumula valorização de 1,06%.

Fontes ouvidas pelo Broadcast relatam uma disputa entre a ala política do governo e a equipe econômica, que estaria tentando barrar a edição de decreto de estado de calamidade, cuja justificativa seria o risco de desabastecimento do diesel. O ministro chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira, disse que não vê necessidade de adotar essa estratégia agora, mas ressaltou que tudo "vai depender da situação do país" e que "a população está sofrendo".

"O risco fiscal entrou novamente no radar. Essa ideia de estado de calamidade já deixou de ser apenas um balão de ensaio e encontra eco nas principais lideranças políticas.", afirma o economista Homero Guizzo, da Terra Investimentos. "Era para o dólar ter caído muito mais hoje com esse ambiente positivo no exterior, mas a questão fiscal jogou água no chope".

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.