Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Dólar avança 1,45% e Bolsa cai 0,9% com aumento do risco político no Brasil

Suspeitas de corrução na compra de vacinas contra a covid e novo pedido de impeachment de Bolsonaro fizeram disparar a cautela dos investidores ante os ativos de risco

Redação, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2021 | 16h29
Atualizado 01 de julho de 2021 | 18h23

O ambiente doméstico conturbado, em meio à deterioração do capital político do presidente Jair Bolsonaro por conta das investigações da CPI da Covid e do superpedido de impeachment, pesou nos negócios desta quinta-feira, 7, com a Bolsa brasileira (B3) fechando em queda de 0,90%, aos 125.666,19 pontos - menor nível desde 28 de maio -, enquanto o dólar subiu 1,45%, cotado a R$ 5,0453, no maior nível de fechamento desde 18 de junho.

Com exceção de uma leve queda logo no início do dia, quando desceu até a mínima de R$ 4,9477, o dólar à vista operou em alta no restante do pregão, renovando sucessivas máximas ainda pela manhã, embora tenha atingido o maior nível na reta final dos negócios, cotado a R$ 5,0513. O dólar para julho fechou em alta de 1,57%, a R$ 5,0645.

Já alvejado pelas investigações da CPI da Covid em torno de denúncias de propina e superfaturamento em negociações para compra de vacinas, o governo sofreu novo revés com o superpedido de impeachment protocolado ontem por figuras políticas de todo o espectro ideológico

Segundo operadores, o mercado se estressou com a declaração do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), de que o pedido de impeachment "não pode ser banalizado". Teme-se que o os partidos do "Centrão" cobrem um "preço mais elevado" para apoiar o governo e que não haja clima para aprovação de reformas. Isso para não falar do risco de medidas populistas por parte do presidente Jair Bolsonaro, em uma antecipação do calendário eleitoral.

Para o head de câmbio da Acqua-Vero Investimentos, Alexandre Netto, a questão política tende a continuar provocando solavancos no mercado de câmbio daqui para a frente. "Daqui a dois a três meses, vai começar a corrida eleitoral, e o mercado teme o discurso populista dos dois principais candidatos", afirma Netto, que vê grande parte do impacto do ciclo de alta da taxa básica de juros (Selic) já embutido no valor do dólar. "Não vejo o dólar indo para baixo. A tendência é oscilar nesse patamar, ao redor de R$ 5, e até de subir mais no médio prazo", acrescenta o economista, ressaltando que o real já se alinhou ao desempenho das demais moedas emergentes com a alta expressiva dos últimos três meses.

Operadores ressaltam que o mercado segue ressabiado com a proposta de reforma tributária e os riscos de perda de alta da inflação e perda de fôlego do crescimento em razão da crise hídrica. Nem os dados positivos do Caged animaram: saldo líquido de 280,66 mil vagas formais em maio, bem acima da expectativa, de 157,5 mil. O resultado da balança comercial em junho, um superávit de US$ 10,372 bilhões, o maior saldo mensal de toda a série histórica, iniciada em 1989, também ficou em segundo plano.

O economista Alessandro Fagnello, da Amplla Assessoria de Câmbio, chama atenção para o componente externo por trás da perda de força do real, com o mercado cauteloso à espera da divulgação do payroll amanhã. Dados mais fortes que o esperado no mercado de trabalho americano podem mexer com as expectativas para o início da redução de compra de ativos pelo Federal Reserve (Fed, o Banco Central americano).

No exterior, o índice DXY - que mede o desempenho do dólar em relação a seis moedas fortes - começou o dia em terreno negativo, mas ganhou força também pela manhã e passou a operar em alta, sempre acima dos 92 pontos. O dólar também avançava em relação à maioria das moedas emergentes e de exportadores de commodities, subindo mais de 1% em relação ao peso colombiano e o rand sul-africano.

Bolsa

Após quatro meses de ganhos seguidos, o Ibovespa inicia julho em tom menor, passando a colocar no preço um fator que, em proveito da melhora dos indicadores econômicos, havia sido deixado de lado desde a instalação da CPI da Covid: a acentuação do risco político. Com isso, o índice da B3 continua a se afastar da resistência dos 131 mil pontos, correspondente à recente máxima histórica, de 7 de junho.

Com aversão ao risco político, a sessão foi linearmente negativa para os setores de maior peso no índice, como commodities, com Petrobrás ON em queda de 1,75% e Vale ON, de 1,74%. Os bancos também caíram, com Bradesco PN e Banco do Brasil ON em altas de 1,24% e 1,06%. 

"Alguns fundos estrangeiros estão aproveitando para realizar lucros, o que explica parte da queda vista hoje na Bolsa com o risco político visto na CPI, envolvendo a compra de vacinas e a participação do governo nisso. O mercado segue cauteloso, o que favorece esta realização, também com a alta do dólar", diz Virgílio Lage, especialista da Valor Investimentos.

Na ponta negativa do Ibovespa, destaque para setores com exposição à economia doméstica, como o de comércio e serviços, com Locaweb em baixa de 3,51%, Lojas Renner, de 3,17%, Totvs, de 3,16%, e Multiplan, de 3,11%. Na mínima desta quinta-feira, o índice chegou a perder a linha de 125 mil pontos, aos 124.993,64. Na semana, ele acumula perda de 1,25% - no ano, ainda avança 5,59%. /ANTONIO PEREZ, LUÍS EDUARDO LEAL E MAIARA SANTIAGO

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